BIANCA - LAOS DE TERNURA
Emile Richards

Captulo 1
        A cena da moa sentada no balano da varanda, rodeada de crianas, parecia um quadro vivo de Norman Rockwell, o famoso pintor americano. A saia rodada de 
seu vestido de algodo enfunava a cada vaivm do balano e as margaridas bordadas avental de organdi combinavam com as flores da grinalda uma das crianas lhe colocara 
na cabea.
        Todo o cenrio lembrava os tempos antigos, os calmos dias de vero e os prazeres mais simples puros da vida. O rudo jato voando l no alto e do aspirador 
funcionando dentro da casa chegavam a passar despercebidos.
        Stela MacDonald no tinha conscincia da impresso que as crianas e ela causavam, apenas se deliciava em ouvir as vozes infantis. J fazia muito tempo que 
no se sentia to  vontade, desde a poca em que se sentava em uma varanda semelhante, trocando histrias e casos com os prprios irmos e irms.
        O sol quente batendo na varanda se refletia ho cabelo castanho preso num simples rabo-de-cavalo, mas algumas pequenas mechas soltas a incomodavam. Stela 
fez um gesto inconsciente empurrando-as para trs, enquanto pegava a criana menor no colo.
        As crianas tambm usavam roupas antigas, cala de brim e camisa xadrez e vestidos de babados em vez dos habituais jeans e camisetas. As meninas tentavam 
a todo custo no mexer nas fitas dos cabelos e o garoto se esforava por ficar  vontade. Entretanto, a conversa entre eles mostrava que viviam em pleno final do 
sculo XX.
        - Stella, voc vai ver o nosso jogo de futebol na semana que vem? Vou ser o goleiro...
        - Pare de gritar, agora  a minha vez! Stela, voc est gostando do meu cabelo? Eu queria cortar bem curtinho como aquele punk da TV, mas a mame no deixou.
        - Heidi, vai mais para l, seno eu..
        O balano ia cada vez mais rpido, conforme o ritmo da conversa.
        - Ei, crianada, saiam da. . . Vocs vo deixar Stela esgotada antes mesmo de a festa comear. - Margie Finlaw apareceu na varanda e brincando tocou os 
filhos dali, com um suspiro, sentou-se no lugar vago do balano, aleitando a saia rodada. - Vo avisar o papai que j est na hora de pr o molho no leito.
        Stela ainda abraou a rnenorzinha e abanou a mo enquanto as crianas desciam correndo os degraus da varanda. Depois encarou a prima, os olhos castanhos 
com uma expresso sria.
        - Margie, no precisava fazer isso. Voc sabe muito bem como adoro crianas.
        - , eu sei. Se dssemos chance, ia preferir ficar mais com elas do que com a gente. Prometi que ia te proteger.
        - Mas do qu, Margie?
        - De voc mesma,  claro. - A prima abanou as mos para se refrescar, apenas conseguindo despentear ainda mais o cabelo curto e revolto. Aquele jeito combinava 
com Margie. - Tallahassee no vero  bom s para se ficar batendo papo dentro de casa. Com esse calor todo, no entendi ainda por que estou dando esta festa.
        - No mesmo? Voc adora esse tipo de agitao. Margie... -  disse Stela rindo. Virou a cabea e observou o gramado verde que rodeava a casa branca em estilo 
antigo. Grandes rvores sombreavam o terrao, e canteiros coloridos cortavam o gramado, acompanhando o caminho de entrada. Mais ao longe brilhava uma lagoa azul 
ao lado de um antiqssimo celeiro. - Estou to contente por ter me convidado, Margie. Este lugar  lindo. Andei to ocupada neste ltimo semestre l na faculdade 
que at parece fazer um sculo que no te vejo.
        - Ron me mantm informada sobre voc. Pelo menos, como seu coordenador na escola, ele a v sempre. - Margie arrumou o rabo-de-cavalo de Stela enquanto indagava: 
- Afinal, est feliz por ter concludo o curso?
        - Claro, tinha a impresso de que minha vida havia estacionado nestes ltimos cinco anos. Por mais que gostasse de l, estava louca para comear a fazer 
outras coisas. - Esticou os braos para cima, revelando o corpo bem feito e delicado, e continuou: - Agora s preciso encontrar um emprego como professora.
        - Isso no deve ser difcil para algum com um currculo como o seu. . . - Margie riu da expresso encabulada de Stela. Ora, deixe disso... no pode querer 
esconder de mim suas qualidades, sou casada com seu coordenador, lembra? timas notas e uma enorme devoo s crianas.
        Elogios sempre deixavam Stela embaraada e ela tratou de pressa de mudar de assunto.
        - Bem, pelo que j andei verificando, os empregos esto difceis, mesmo para algum com minhas qualificaes. Mas vamos ver o que aparece. Enquanto isso 
quero procurar logo algo para fazer nas frias.
        - Sempre soube que era uma criatura animada - disse Margie levantando-se. - Agora acho melhor entrarmos. Chegou cedo para me ajudar, no?
        - Claro  - respondeu Stela, entrando na sala atrs da prima. Por onde comeamos? - s vezes d trabalho ter uma prima mais nova... - Margie brincou, acariciando 
o rosto de Stela. - Tome cuidado, seno comeo a contar por a algumas histrias da nossa infncia.
        - Minha infncia foi impecvel sabia, priminha?
        - ... mas a adolescncia..
        A sala se encontrava na maior desordem. As crianas tinham deixado tudo fora do lugar.
        -  Que histrias voc sabe sobre minha adolescncia? -  Stela perguntou enquanto arrumava o local. - Nessa poca eu estava na Gergia e voc j era casada 
e morava aqui na Flrida.
        - Ah, quem disse a voc que deixei de saber das fofocas sobre a famlia? Minha me sempre me informava de tudo. Est certo que no fim do ms as contas telefnicas 
eram astronmicas, mas valia a pena. Fiquei at sabendo de um certo piquenique.
        -  O maior escndalo da minha vida - retrucou Stela, fingindo um desmaio enquanto desabava no sof. - Na verdade um garoto me beijou bem na frente do pastor 
da igreja.
        - Ento, pelo jeito, foi o primeiro e o ltimo beijo?
        Stela agarrou uma almofada e a atirou na prima.
        - Curiosa voc, no?
        - Stela, sei como os rapazes se entusiasmam por sua causa... S espero que no saia da linha! Alm de tudo, se voc pretende cuidar da prpria vida daqui 
para a frente, vai precisar tomar cuidado.
        - Virtuosa, virginal e ingnua... - recitou Stela. - Pode deixar, ainda sou a prpria inocncia.
        - Parece-me j ter ouvido uma descrio bem mais picante sobre voc. Como era mesmo. . .? - Margie fez uma pose e comeou a imitar a voz de um locutor de 
rdio: - Os cabelos castanhos, os olhos do tom das montanhas distantes, pele de pssego, lbios de rubi. Stela MacDonald, a candidata de Gainesville ao concurso 
de Miss Gergia, possui uma beleza estonteante, que se revela tanto num simples jeans quanto desfilando de mai no palco do auditrio.
        Stella, cabea baixa, tentava parecer descontrada.
        - No sei como consegue s lembrar desse texto assim, palavra por palavra, e alm disso no me sentia nem um pouco  vontade naquele desfile. At hoje estremeo 
cada vez que ponho um mai.
        Margie percebeu o tom de seriedade da prima e parou de provocar.
        Desde que Stela viera para Tallahassee freqentar a Universidade, as duas haviam se tornado amigas. Embora Margie fosse dez anos mais velha, a diferena 
de idade entre elas no tinha a menor importncia.
        - E ... Desculpe, Stela, toda aquela histria deve ter sido bem difcil - acabou dizendo compreensiva.
        - E foi mesmo, mas o concurso acabou  me ajudando na Universidade.
        Margie ps a mo no ombro da prima.
        - Sabe de uma coisa, querida, todo mundo tem tanto orgulho de voc! E a primeira da famlia MacDonald a se formar.
        - A primeira de muitos, espero. O rosto de Stela se alegrou de repente. Mas de qualquer modo, obrigada, Margie.
        - Enquanto voc acaba de arrumar a sala vou ver se os banheiros l em cima esto em ordem. Se chegar algum convidado voc recebe para mim, t?
        A residncia da prima era para Stela quase to familiar quanto a sua. As duas construes tinham o mesmo estilo, com uma diferena importante: a de Stella, 
uma antiga fazenda, nunca fora restaurada, e nela haviam sido construdos outros cmodos meio ao acaso, conforme a famlia aumentava.
        Ela sentia-se bem ali, ao contrrio do que acontecia no minsculo apartamento onde morava na cidade. L as paredes pareciam se fechar sobre ela.
        De repente, buzinas e risadas a tiraram dos devaneios e, ter minando de ajeitar a sala, Stela foi para a varanda receber os convidados. Alguns eram colegas 
da faculdade e tambm vieram diversos professores, alm de fazendeiros vizinhos acompanhados dos filhos. Logo a festa estava animada.
        Nem todos se vestiram a carter, a turma da Universidade achava que tinha de usar short e camiseta em todas as ocasies. Mas a maioria do pessoal se esforou 
para que a roupa combinasse com o estilo de festa  moda antiga.
        Stela foi contagiada pela animao dos convidados e s depois de ter conversado um pouco com os que j conhecia e ser apresentada aos outros  que conseguiu 
pedir licena para verificar se Margie precisava de ajuda.
        A sala continuava em ordem. Na parede em frente  velha escadaria de madeira, perfilava-se uma coleo de retratos antigos e s agora notara que existia 
um novo entre a srie de homens e senhoras sisudas, da qual Margie gostava tanto. Stela se aproximou para ver melhor, no reparando na criana escondida debaixo 
de uma pequena mesa com tampo de vidro. S depois de ter tropeado num pezinho  que percebeu que no se encontrava sozinha.
        - Oh, meu bem, me desculpe. . . - falou e ajoelhou-se na frente de uma linda menininha - Ser que machuquei voc?
        A nica resposta foram alguns soluos abafados. Stella es ticou os braos, puxando devagar para junto de si a menina que resistia.
        - No pode ficar sozinha a, meu amor. Posso ver se te machuquei?
        A criana continuava chorando enquanto Stela lhe examinava os dedinhos rosados, calados em uma minscula sandlia branca.
        - Acho que no houve nada de srio, mas aposto que est doendo, no ? Vamos ver se encontramos a mame. - Mas com essas palavras os soluos redobraram e 
Stela acabou pegando a garota no colo. Parecia mais leve que uma pluma.
        Acostumada com o peso dos irmos criados no campo, ela ficou chocada com a fragilidade da menina. - Oh, meu anjo, vamos arrumar alguma coisa para voc comer 
- murmurou.
        A porta de tela da varanda bateu e Stela se virou para ver quem entrava. Parado na porta, um homem que no conhecia a fitava. Os olhos castanhos eram lindos, 
luminosos.
        Mais alto que a mdia, o corpo vigoroso parecia ocupar todo o espao da portai enviando a luz que vinha por detrs numa srie de desenhos espalhados por 
toda a sala. Os cabelos, tambm castanhos, caam em desordem sobre a testa. Forte e queimado de sol, descalo, era a perfeita imagem de sade e virilidade. Para 
completar o impacto que Stela sentiu, usava uma camisa xadrez aberta no peito e um velho jeans justo e desbotado.
        "Eu j o encarei demais", pensou Seda. Mas a verdade  que o estranho lhe causava uma sensao indefinvel, como se lhe invadisse o ser. E para ela, sempre 
ocupada demais para ter sonhos romnticos, a idia se tornou apavorante. Esse foi o nico motivo que a fez quebrar o instante de magia.
        A deciso de pr um fim naquilo no foi imitada pelo homem, que continuou a encar-la, analisando-lhe desde o rosto at a curva do decote. Stela percebeu 
que uma das coisas que o estranho podia ver  que ficara embaraada, e apelou para a primeira idia que lhe veio  cabea.
        - Desculpe, mas conhece esta menina? - Espantou-se ao constatar que o sotaque da Gergia, que nos ltimos cinco anos quase desaparecera, agora retornava 
com fora total. "No estou representando a bela senhorita sulina", disse zangada a si mesma, "Nem quero fingir ser Scarlett O'Hara,"
        - Conheo. Ela  minha. O homem a olhava com um ar ligeiramente divertido.
        Stela viu todos os sonhos romnticos desaparecerem com aquela resposta. Ele era casado... Para esconder o desapontamento, baixou o rosto para a garotinha.
        - Estava escondida debaixo da mesa e tropecei no pezinho dela, mas agora j est bem.
        A criana continuava passiva. Espantada com a falta de interesse da menina em ir pala o colo do pai, Stela atravessou a sala e, no momento de entreg-la, 
as mos dele roaram-lhe de leve os braos, provocando-lhe uma estranha onda de calor que nada tinha a ver com a tarde quente de vero,
        Para a menina, a troca precipitou uma nova torrente de lgrimas e surpreendentemente o homem parecia no ter a menor idia do que fazer com a filha. Meio 
atrapalhado, como se no estivesse acostumado, ele a segurou contra o peito.
        - Calma, Christy. .. - disse desajeitado. - Est tudo bem.
        - Acho melhor deixar vocs dois sozinhos.
        Era melhor que sasse mesmo. O homem, casado ou no, de perto era ainda mais atraente.
        - Por favor, no v!
        Mas, afinal, o que ele queria? Stela pensou confusa. O estranho demonstrava sentir medo.
        A garotinha aparentava uns dois anos e o pai, uns trinta a mais do que ela, parecia no ter a menor idia do que fazer com a filha. Com um suspiro, Stela 
se aproximou de novo e tentou encoraj-lo.
        - Provavelmente ela est s um pouco assustada.
        Um sorriso de arrebatar coraes iluminou todo o rosto dele.
        - Acho que no  s ela.
        "Ento somos trs", Stella concluiu aflita, ao constatar o prprio pnico. Os olhos castanhos continuavam a observ-la, num misto de apelo e provocao. 
Um pouco irritada, ela tornou a pensar que aquele homem devia ser casado, Por que no procurava a esposa, se estava to atrapalhado?
        - Voc encontrou a Christy? - uma voz de menina indagou da porta. - Oh, ela est aqui. Venha, Christy, a Heidi vai levar a gente para ver os cachorrinhos
        Apesar de haver uma diferena de uns oito anos entre as duas, no havia dvida de que eram irms. Ambas tinham o mesmo cabelo loiro e encaracolado e grandes 
olhos azuis.
Com um grito de alegria, Christy esperneou at ver-se no cho, correndo para a menina maior. Esta, sem mais a palavra, tomou-lhe a mo e desapareceu porta afora.
        - Bem, agora que a crise j passou acho melhor ir ver se Margie precisa de ajuda - Stela disse, louca da vida por no conseguir evitar a pronncia arrastada 
do Sul. Que diabos acontecia com ela?
        - Muito obrigado pela ajuda. - O homem fez-lhe uma carcia tmida no rosto. - Este rosado acompanha a fantasia ou  natural'?
        - As mulheres do sculo vinte no ficam vermelhas? -ela indagou, sem saber porque experimentava aquela emoo inesperada.
        - Nenhuma que eu conhea.  muito encantador, acredite.
        - Com licena, preciso falar com Margie - ela conseguiu dizer, enquanto se afastava na direo da varanda, sabendo muito bem que a prima devia estar na cozinha. 
Mas precisava respirar um pouco de ar puro com urgncia.
        L fora, seguiu tia direo do som de risadas, andando mais devagar que o habitual por causa da saia longa. Sentiu uma onda de calor ao se aproximar da churrasqueira. 
Deu um beijo no rosto quente de Ron Finlaw que cuidava do churrasco, conversou um pouco com ele e sentou-se numa colcha de retalhos estendida no cho. Enquanto isso, 
pensava em tudo o que acontecera na sala.
        Por mais que analisasse, no conseguia entender o que havia se passado com ela perante o desconhecido. Tinha sentido uma atrao instantnea e no gostara 
disso - ele era um homem casado. Mas por mais que tentasse no esquecia o toque dele em seu rosto.
        Margie apresentou Stela s poucas pessoas que ela ainda no conhecia. Mas o homem que tanto a impressionara no se encontrava por ali.
        Ento a esposa de um dos professores perguntou  anfitri:
        - Ryan ainda no chegou?
        - Deve estar por a com as crianas - Margie respondeu com uni gesto vago.
        -  Ryan? No me lembro dele. . . -  Stela tentou dar s palavras um ar de desinteresse.
        - Ryan Cunningham  o arquiteto que nos ajudou a restaurar a casa, querida.
"Ryan Cunningham... na arquitetura do Estado da Flrida." Stela procurou lembrar-se do pouco que sabia sobre ele, pois no tinha mais dvida de que era o homem que 
encontrara, Alm de ser o nico convidado que ainda no conhecia, a aparncia dele em tudo coincidia com o que falavam a seu respeito.
        Ele havia nascido em Tallahassee e ali tambm fora criado. Depois ficou rico e famoso e atualmente era um nome para ser mencionado junto com o clebre Frank 
Lloyd Wright, o homem que tinha projetado edifcios que se harmonizavam to bem com o meio ambiente.
        Mas seria ele mesmo que ajudara na restaurao da casa de Ron e Margie'? Parecia incrvel para um arquiteto com tal fama... Lembrou-se vagamente de que Margie 
havia comentado que Ron e Ryan tinham sido amigos de infncia. De repente ocorreu-lhe mais um detalhe: uma tragdia se abatera sobre Ryan Cunningham h pouco tempo, 
s que no sabia direito do que se tratava.
        Stela ficou ali parada, pensando, at se dar conta de que a salada de batatas que trouxera como contribuio para a festa ainda continuava numa geladeira 
porttil, dentro de carro. Levantou-se e seguiu pelo caminho florido at onde estacionara o automvel.
        Quando ia abrir a porta da cozinha para deixar a tigela com a salada sobre a mesa, ouviu uma conversa que lhe chamou a ateno.
        - Quem  aquela moa belssima que encontrei aqui? - indagava uma voz que Stela logo reconheceu.
        - Acho que voc se refere a Stela. Agora quem respondia era Margie.
        - Linda e apetitosa, bem no ponto de ser apanhada..
        Indignada, Stela retirou a mo da maaneta e em seguida ouviu a prima repreend-lo como se fosse um dos seus filhos.
        - Ryan Cunningham, no me venha com histria! Stela MacDonald no serve para voc,  uma pessoa muito especial. No faz o seu tipo.
        - E qual  o meu tipo?
        Stella podia imaginar o ar provocativo no rosto dele.
        - Linda, fria e egosta - Margie devolveu, rpido.
        - Bem, Stela sem dvida  linda. . . quanto a fria, ainda preciso me certificar.
        As palavras, ditas para provocar Margie, fizeram o corao de Stela bater descompassado. Certificar! Que desaforo! S que de algum modo essa idia no era 
to horrvel como deveria...
        - Olhe, Ryan, garotas como Stella so to raras como tempestades de neve aqui em Tallahassee. - Margie parecia irritada. - Ela  o tipo de moa que voc 
primeiro tem que levar ao cinema, depois conhecer a famlia, depois... Est entendendo?
        - No estou entendendo  por que voc se preocupa tanto com esta moa, Margie,
        - Ela  minha prima.
        - Prima Stella. . . agora me lembro de voc falar dela. No sei como  que no nos encontramos antes, acho que voc a escondia de mim. . . Acertei?
        Stela no esperou pela resposta, mas havia percebido que a prima no fazia muita questo que se conhecessem. Parecia tentar proteg-la daquele homem excepcionalmente 
atraente que, alm de ser casado, ainda gostava de eventuais aventuras,
        Sentia-se humilhada pela conversa que acabara de escutar. Saber que falavam dela como se fosse um objeto em leilo era desagradvel e vagamente familiar. 
Lembrou-se de quando precisou enfrentar, do alto de um palco, uma poro de juizes. Mas, ao mesmo tempo que a sensao de vergonha no a deixava, o fato de Ryan 
ach-la bonita a envaidecia,
        "Melhor ir dar uma volta", disse para si, e em silncio saiu da sala, atravessando a varanda.
        L fora as pessoas se juntavam em torno da filha mais velha de Ryan Cunnirigham, que chorava muito. Ningum conseguia acalm-la, Stella conseguiu se aproximar, 
ajoelhando-se ao lado dela.
        - O que aconteceu?  Posso te ajudar?
        - Encontre a Christy, por favor! - a garota pediu desesperada.
        Ao levantar os olhos, Stela percebeu a presena de Ryan. Algum tinha ido  procura dele.
        - Caroline, est tudo bem.  Agora pare de chorar e me diga o que aconteceu -  disse ele com firmeza.
        - A gente foi passear com a Christy. Quando Heidi e eu paramos para conversar um pouquinho, ela sumiu,
        Para surpresa de Stela, Ryan no repreendeu a filha.
        - Isso pode acontecer com qualquer um, Caroline. - Falava com tranqilidade e apenas Stela, que estava bem perto, percebeu a apreenso nos olhos dele. - 
Agora me diga, onde vocs estavam quando viram que Christy havia sumido?
        - L embaixo. -  A garota apontou para os lados do velho celeiro e da lagoa. Stella sentiu um n na garganta. No mesmo instante, todos saram correndo na 
direo indicada, Ryan na frente. S ela ficou para trs, preocupada com a menina.
        - Caroline, venha c - disse, levando a criana at os de graus da varanda, onde as duas se sentaram. - Vamos tentar recapitular exatamente o que aconteceu.
        Aquilo era uma manobra para distrair Caroline,.
        - A gente estava indo pela estradinha e eu...
        - timo que voc parou de chorar, querida. Mas que faziam antes de pegar a estradinha?
        - Eu tinha levado Christy para ver a gua, mas com medo e ento voltamos.
        Stela respirou mais aliviada ao descobrir que Christy se afastara da lagoa.
        - E antes disso, o que faziam?
        - A gente foi ver os cachorrinhos,
        Ron e Margie possuam uma linda cadela boxer chamada Castanha, que na semana anterior dera cria  primeira ninhada. Aquilo fazia sentido. Na certa Heidi, 
a filha mais velha de Margie, levara as crianas para ver os cachorrinhos. A cadela e os filhotes ficavam presos em um canil um pouco afastado, pois Castanha, era 
mansa com as pessoas da famlia e brava com estranhos.
        -  E Christy gostou dos cachorrinhos? perguntou Stela, bastante aflita.
        - Adorou. At ficou chorando quando samos de l...
        No havia necessidade de mais palavras.  As duas se entreolharam e correram em direo ao canil.
        - Caroline, volte e avise Margie para onde fui - Stella pediu ofegante. - Diga a ela ou a Ron que venham rpido ao canil. Tenho medo que Castanha no me 
obedea.
        J ouvia os latidos ferozes da cachorra. Ergueu a saia e correu ainda mais rpido, rezando para chegar a tempo. Assustada, parou ao ver que tinha razo. 
Com os filhotes aos seus ps, Christy estava paralisada de terror no meio do canil. As rosnadas de Castanha se tornavam cada vez mais ameaadoras. Stela, sem saber 
bem o que fazer, comeou a falar baixo  com o animal. Embora sempre visitasse a prima, a cadela no a reconhecia.
        - Calma, Castanha... est tudo bem... A gente no vai machucar seus filhotes... Christy s queria v-los... quieta... quieta. - Aproximou-se devagar, alcanou 
o porto e entrou no canil.
        O plo do animal estava arrepiado, os dentes de fora. Estava pronta para atacar, mas a voz de Stela pareceu acalm-la.
        - Isso menina, seja boazinha - ela falava baixinho enquanto  se aproximava de Christy, que por sorte continuava parada o mesmo lugar. Lgrimas escorriam 
dos grandes olhos azuis. Stela tentava se controlar, qualquer movimento em falso poderia ser fatal. - Castanha, agora vou levar Christy daqui, est vendo?
        Lentamente estendeu os braos, pegou a menina no colo e continuou assim por mais algum tempo para indicar  cachorra suas boas intenes. Depois, com o maior 
cuidado, comeou a andar para trs, evitando pisar nos cezinhos. Enquanto se afastava, continuava a conversar com o animal.
        - Muito bem, Castanha, . .  assim que se faz.., a gente j est saindo daqui...
        Faltavam apenas alguns passos at o porto quando algum se aproximou correndo. Foi o suficiente para que a cadela reagisse. Com um rosnado, Castanha atacou-as, 
mas s atingiu o avental bordado de Stela. De repente a voz de Ron veio salv-las.
        - Castanha, quieta!
        O animal largou o avental imediatamente. Aproveitando a chance, Stela fugiu dali e quando se deu conta se encontrava nos braos de Ryan Cunningham.
        - Pronto, voc est salva. Voc e Christy esto salvas, graas a Deus...
        Com a estranha sensao de que desmaiaria se ele a largasse, Stela permaneceu onde estava, dentro do crculo formado por aqueles braos protetores e com 
a menina entre eles. Nem por um momento lhe passou pela cabea que permitiria ser confortada por um homem comprometido. Naquele momento s queria ficar ali... indefinidamente...
        Pouco a pouco tudo foi voltando ao normal, Com um suspiro, ela se afastou de Ryan.
        - Acho que agora j estou bem. Obrigada por me acudir.
        - O prazer foi todo meu. - Com uma das mos acariciava os cabelos da filha e com a outra segurou o queixo de Stela, obrigando-a a encar-lo. - A gente ainda 
no foi apresentado. - Sou Ryan Cunningham.
        -  Stela MacDonald - ela disse, sentindo que aquilo era uma formalidade absurda, pois j tinha toda a informao de que necessitava. Ryan era um homem incrvel, 
mas tambm no disponvel.
        - Agora, v com o papai, querida - disse baixinho para Christy. Porm, ao entregar a menina a Ryan, um grito cortou o ar. Era algo to diferente da passividade 
e dos soluos de antes que por um momento Stela no acreditou que sasse dos lbios da garotinha.
        - No! Mame. . Mame! - Christy gritava, agarrada ao pescoo de Stela. - Minha mame!

Captulo 2
        Stela encarou Ryan espantada, enquanto Christy, com desespero, enterrou o rosto em seu ombro. Ele, no entanto, no parecia ver nada de anormal na situao. 
Demonstrava apenas um grande alvio por ver as duas a salvo e o comportamento da menina no chegou a perturb-lo.
        - Christy, agora est tudo bem, Stela acariciou as costas dela. - J est tudo bem ... -o corpinho mido se encaixava de maneira perfeita nos seus braos. 
Por um momento fechou os olhos, deixando que aquela proximidade a acalentasse. S que Christy no era sua filha, e uma outra mulher deveria estar ali para gozar 
de tanta ternura.
        Abriu os olhos e deu com o olhar de Ryan, que s ento comeava a registrar algo mais do que simples alvio.
        - Sua esposa est aqui? - ela perguntou um pouco sem jeito.
        - No sou casado.
        Stela espantou-se e por um segundo a nica emoo que sentiu foi a mais pura alegria, como uma onda quente a lhe percorrer todo o corpo, mas logo caiu em 
si. Na certa Ryan se divorciara ou,  pior, tinha ficado vivo. Com o tipo de criao que lhe haviam dado, considerava qualquer uma das opes uma tragdia.
        - Eu sinto muito
        - Mas eu no sinto. - ele retrucou com um sorriso.
        Um grupo de pessoas que se aproximava correndo a salvou de uma resposta. Ryan ajoelhou-se para explicar a Caroline que tudo estava bem, e Stela precisou 
ouvir as palavras de elogio dos convidados. Mas os amigos logo perceberam como eles se encontravam tensos e se afastaram.
        Ron foi avisar  turma que havia ido  lagoa que Christy tinha sido encontrada e Caroline, com o rosto ainda molhado de lgrimas, saiu correndo para brincar 
com as outras crianas. Stela, Christy e Ryan ficaram a ss.
        A garotinha, exausta, acabou fechando os olhos, deitando a cabea no ombro de Stela.
        - Ela est adormecendo, pobrezinha. Foi um susto e tanto. Se voc a pegar agora, com certeza vai acordar. Posso lev-la at a varanda e ficar um pouco com 
ela no balano?
        - Mas claro. . . acho que vocs duas precisam de um bom descanso depois do que aconteceu. S que estou com inveja de Christy..
        Stela olhou para a menina, ainda agarrada a seu pescoo. O que aquele rostinho mostrava de inocncia, o pai mostrava de malcia.
         Acompanho voc at l - ele concluiu, segurando-lhe o brao. Fizeram todo o caminho de volta em silncio.
        Com Christy no colo, Stela se acomodou no balano e comeou a empurr-lo suavemente, apoiando os ps no cho e a cabea no espaldar. Ryan permaneceu apoiado 
na balaustrada da varanda, observando as duas.
        - Voc d a impresso de ter muita prtica em lidar com crianas.
        - Fiz isso quase a vida inteira. Desde pequena me acostumei a cuidar de crianas.
        - Mas  nova demais para ter filhos...
        Eram palavras banais, mas funcionaram como facas atiradas contra o corao dela, causando a dor costumeira.
        - No, no tenho nenhum - respondeu depressa. - Voc tem s as duas meninas?
        O rosto dele se iluminou num sorriso alegre que afastou as sombras causadas pela pergunta.
        - No tambm tenho dois gmeos, David e Jonathan, que hoje foram visitar uns amiguinhos. Se no fosse por isso,  claro que voc j devia ter reparado neles. 
So terrveis.
        - Famlia pequena a sua, hein? - Stela brincou.
        - Esta famlia s vezes me leva ao desespero. - O sorriso de Ryan tirava a dramaticidade da observao.
        Outra vez ficaram em silncio e Stela, consciente da presena dele, fechou os olhos e deixou que o movimento ritmado do balano a embalasse. Ryan se afastou.
        Um pouco depois ela sentiu que Christy comeava a se mexer.
        - Oi, querida. .. dormiu bem?
        Em vez dos soluos esperados por se ver no colo de uma estranha, o rostinho da menina se acendeu num sorriso muito semelhante ao de Ryan.
        - Mame. . . - Christy fez um carinho no rosto de Stella.
        - Oh, meu anjo, no sou sua mame. Mas de qualquer maneira eu adoro voc. - As palavras saram sem querer, mas Stela sentiu que eram verdadeiras. Estranho 
como em to pouco tempo se afeioara  garota.
        - Mame, minha mame... - repetiu Christy, sem ligar para o que ouvia.
        - Acho que est mais do que na hora de procurarmos seu pai - Stella falou, saindo do balano.
        Sons de risadas e brincadeiras vinham de perto da churrasqueira e as duas seguiram para l. Foram recebidas com alegria, e logo algum estendia a Stela um 
prato com pedaos de leito assado e salada. Depois arrumaram um lugar para que sentassem, numa das mesas armadas ali perto.
        Christy no quis saber de sair do colo de Stela, nem para se sentar ao lado e quase no mesmo instante devorou tudo o que ela lhe deu em um prato de papelo. 
Stela comeu devagar, Ryan parecia haver desaparecido.
        - Me contaram que voc virou herona - comentou Margie ao se ajeitar num lugar perto delas e beijar Christy na bochecha.
        - Por acaso est procurando algum?
        - Pensei que Ryan quisesse ficar com Christy.
        - Ele precisou sair, parece que houve alguma coisa com um dos gmeos. Eu lhe disse que cuidaramos de Christy at que pudesse voltar. Caroline foi junto.
        - Bem, ela parece no se incomodar nem um pouco  - disse Stela, indicando a criana que agora se divertia com um pedao de leito.
        - Acho que se apaixonou por voc  - comentou a anfitri, pensativa,
        - O sentimento  mtuo - murmurou Stela, limpando as mos engorduradas de Christy, que acabara com o ltimo pedao de carne.
        - Olhe, tenho o solene dever de avis-la que no se envolva nesse caso, Stela. Mas desconfio que o aviso vem tarde demais... - o tom de Margie era srio.
        - Gostaria muito de saber qual  o caso a que voc se refere.
        Margie indicou a menina.
         Mais tarde te conto -  disse apenas.
        Stela assentiu. O assunto devia ser tratado longe de Christy, mas o "mais tarde" acabou no chegando, pois a garotinha continuou o resto do tempo agarrada 
a ela. Os convidados comearam a ir embora e o sol se ps num crepsculo maravilhoso.
        - Eu tambm j precisava ir embora, mas no queria largar Christy antes que Ryan voltasse para busc-la. - Stela, de p ao lado de Margie, acenava para os 
ltimos amigos que partiam.
        - Falando no diabo...
        Uma caminhonete novinha em folha vinha chegando. Ao parar, trs crianas desceram: Caroline e logo atrs dois meninos de cabelos castanhos, um pouco parecidos 
com Ryan, mas iguais entre si.
        Stela, sentindo o corao bater mais forte, ficou olhando enquanto Ryan saia do carro. Ele continuava descalo, mas havia trocado de roupa: estava com uma 
cala cqui e camisa plo marrom. Ryan Cunningham era um homem espetacular, que ficaria bem com qualquer ou com nenhum tipo de roupa. Tal pensamento, bem pouco comum 
para a cabea de Stella, deixou-a perturbada.
        - At que enfim consegui chegar ele disse enquanto se aproximava, os braos estendidos para a menina. Stela engoliu em seco quando o viu parar junto dela. 
-  Desculpe se Christy incomodou voc.
        - No foi nada. - Era estranho, mas o que sentia nesse momento a deixava confusa. S conseguia pensar que no mi nuto em que entregasse a criana. . . sairia 
da vida do pai!
        E Christy, que ficara alegre ao ver Ryan, comeou a berrar ao ter que sair do colo de Stela:
        - No, no! Mame.., mame!
        - Calma, querida.., calma. . . Voc precisa ir agora. - Stela falou acariciando-lhe os cabelos.
        Acho melhor eu ir embora depressa - Ryan disse a Margie e em seguida dirigiu-se a Stela. -  Muito obrigado por tudo. -  Inclinou-se beijando-lhe rapidamente 
o rosto, antes de levar a menina, que continuava gritando, para dentro da caminhonete.
        Tinha sido um simples beijo de gratido, mas a deixou muito perturbada. As outras crianas tambm entraram no veculo, que logo se afastou. Os gritos de 
Christy foram se tornando cada vez mais distantes.
        - Vai querer aquela explicao agora? - Margie perguntou em seguida.
        Stela ainda abalada pela experincia de ter de devolver a menina, no quis saber de conversa.
        Qualquer outra hora - respondeu baixinho. - Acho que j vou indo.., d at logo para o resto da famlia.
        Margie abraou-a, carinhosa.
        - Olhe querida, se for se envolver com Ryan Cunningham, saiba que  o mesmo que se envolver com um furaco. Pode ter certeza absoluta de que nunca mais ser 
a mesma.
        No dia seguinte logo cedo, o barulho do ar condicionado no quarto de Stela a impediu de escutar as leves batidas na porta. Estas foram se tornando cada vez 
mais insistentes, at soarem como verdadeiras pancadas.
        - Espere a...  j vou.
        Saiu da cama, passou os dedos pelos cabelos, vestiu um roupo branco e foi descala abrir a porta.
        - Bom dia! - Era Ryan, com as feies cansadas mas ainda assim bastante atraente. O sorriso sedutor continuava do jeitinho que ela lembrava.
        - Bem. . . ol.
        - Acordei voc?
        - Acho que est na cara... - ela riu, enquanto fazia com que  Ryan entrasse.
        - Voc parece uma menininha, toda corada e fofinha. - Ele estava parado perto da porta e tirou uma mecha de cabelo do rosto de Stela. - E seus cabelos refletem 
os raios de sol.
        - Sabia que ainda no so nem oito horas? - Ela teve medo que os olhos revelassem a emoo que as palavras dele haviam produzido. Afastou a mo de Ryan que 
continuava pousada em seus cabelos. - Quer que eu lhe faa um pouco de caf?
        - No, mas pode ir para casa comigo.
        Aquilo j era demais. Ela se afundou numa poltrona, contente ao mesmo tempo preocupada com tanta ousadia.
        - Bom,  uma proposta bem inesperada para essa hora da manh. O que est querendo de mim, Ryan?
        A expresso cansada desapareceu enquanto ele atirava a cabea para trs e caa na risada.
        - Se no tem idia do que um homem de sangue quente quer com voc, ento, mocinha,  mesmo to inocente quanto parece... - Ele riu outra vez ao ver que Stela 
arregalava os olhos. - S que neste caso eu queria que fosse para casa comigo apenas para tentar consolar Christy... Continua chorando desde ontem  tarde e acho 
que vai acabar muito doente se algo no for feito. - Agora ele no ria mais,
        -  Coitadinha... sinto muito em saber disso. Claro que eu vou, espere um instante enquanto me visto.
        - Se  mesmo necessrio.. - ele observou-lhe o corpo com uma expresso travessa.
        Sem ligar para a insinuao, Stela apanhou um short e uma camiseta e foi ao banheiro se arrumar. Seu reflexo no espelho mostrava a noite passada em claro, 
mas ela ignorou as olheiras. Naquele momento no podia se preocupar com beleza.
        - Vamos ento.
        - Stella, voc  mesmo fora de srie -  Ryan exclamou ao v-la pronta. - Qualquer outra mulher que conheo demoraria  no mnimo uma hora para se arrumar.
        Ela no conseguiu resistir:
        - Ento,  porque s conhece um tipo de mulher. A caminhonete estava parada em fila dupla e Stela pediu desculpas ao vizinho que por causa disso no pudera 
sair com o carro. Num instante ela e Ryan seguiam velozmente pela rua silenciosa.
        - Sabe, se vou enfrentar esta situao, acho que pelo menos devia saber direito o que est acontecendo - Stela disse, depois de observ-lo por um instante.
        Ele a encarou surpreso.
        - Desculpe, mas o que  que no sabe?
        -Como  que posso dizer, se no sei o que no sei?
        - Tente me contar o que no sabe,
        Stela sentia-se frustrada, assim ficava difcil. Tentou de novo:
        - Voc  Ryan Cunningham, o famoso arquiteto. Tem quatro lindas crianas e pelo jeito nenhuma esposa... Isso no lhe parece nem um pouco estranho? Ou eu 
sou to antiquada que ainda me espanto com um pai solteiro?
        A preocupao com Christy parecia no ter infludo no senso de humor de Ryan. Ele caiu na gargalhada e s a custo ficou srio outra vez.
        Pensei que soubesse de todo o caso. Claro que tem que estar confusa, mas a coisa  simples: as crianas no so minhas
        - S isso? - Stela no encontrou mais nada para dizer.
        - Bem, na verdade, agora elas so minhas. - Ryan se calou por um instante e Stella, completamente confusa, ficou esperando. Por fim, ele recomeou: So meus 
sobrinhos, Os pais morreram num desastre de avio h seis meses.
        - Oh, Ryan! Que coisa horrvel!
        - Eu fiquei com as crianas para que minha irm Janele e o marido, Tom, pudessem ter uma segunda lua-de-mel. Queria mesmo ficar um pouco com elas e sabia 
que os dois precisavam de umas frias. Morreram junto com o piloto, quando j estavam voltando para casa no meu avio. A viagem havia sido um presente meu -  Ryan 
acrescentou com amargura.
        - Que tragdia! Voc deve ter se sentido responsvel...
        Ryan desviou os olhos por um instante da estrada e a fixou com seriedade.
        - Parece que mais ningum compreendeu isso.
        - s vezes as pessoas se esquecem como  fcil a gente se culpar quando a dor  muito grande. - Stela fez uma pausa.
        - E as crianas, ficaram com voc?
        - Consegui a custdia temporria, mas quero que fiquem comigo para sempre.
        - Tenho certeza de que as coisas no tm sido fceis. Isso explica porque Christy parecia to deprimida.
        - Tem sido duro demais para todos eles. Os gmeos vivem brigando, Caroline lenta fazer o papel de me, mas  Christy que tem maior dificuldade em se acostumar. 
Ela era uma menininha viva e alegre antes de tudo acontecer e agora quase no come e praticamente deixou de falar
        - Ontem, na festa, ela comeu por uma semana inteira. Stela tentou consol-lo.
        Ryan deu-lhe um sorriso que a levou s alturas.
        -  Foi por sua causa, se encantou com voc.
        - Sou parecida com a me dela?
        - Parecida? No, de jeito nenhum. Janele tambm era mida, mas tinha uma aparncia muito mais frgil do que voc, e os cabelos eram escuros e crespos. No, 
voc no se parece com Janele, mas  gentil e atenciosa como ela e Christy deve sentir isso. A menina est desesperada por uma me.
        - Mas que tristeza. . . - Stela murmurou com pena. - Eu gostaria muito de ajudar voc, mas tenho medo que ela se sinta rejeitada quando no puder ficar comigo. 
Ela precisa de uma me o tempo todo permanente e no uma substituta s por algumas horas.
        - Bem, vamos esperar para ver o que acontece. - A voz dele tinha uma nota de mistrio.
        Pararam em frente a um moderno conjunto de prdios de apartamentos,  todos em concreto aparente e com os ngulos suavizados por canteiros com plantas exticas. 
Seguindo por um caminho pergulado, ela avistou uma piscina rodeada por moas e rapazes, bronzeados e muito animados. No havia playground e nenhuma criana  vista.
        Ryan percebeu o ar de reprovao que Stela no teve trabalho de esconder.
        - E...  eu sei. No  um lugar prprio para eles. Espere para ver l dentro... tambm no serve.
        Ele no estava errado, dentro do apartamento ainda parecia pior. O pequeno vestbulo, forrado com um delicado papel de parede, estava todo marcado com mos 
infantis. O carpete da sala, de um cinza-clarinho, fora todo manchado com pegadas de terra. Na verdade, o apartamento assemelhava-se a um anncio dizendo que nessa 
casa moravam crianas...
        Foram recebidos por unia senhora muito aflita.
        - Senhor Cunningham, no consigo fazer nada com esta criana - sua voz indicava a proximidade de uma crise nervosa. Em seus braos, Christy chorava.
        - Vem c, meu amor. - Stela se adiantou. - Vem c, Christy.
        Com um soluo a garotinha se jogou para ela e enlaou-lhe o pescoo.
        - Mame!
        Seria uma grande crueldade tentar desfazer o engano nesse momento e Stela preferiu ignorar seu novo ttulo.
        - Eu estou aqui, querida. Sei que vai custar um pouco, mas faa uma forcinha para parar de chorar, est bem? - Abraada  menina, foi seguindo Ryan para 
dentro da sala.
        Era um aposento pequeno, mobiliado com o que havia de mais moderno em matria de mveis: mesas com tampo de vidro, cadeiras de aparncia delicada e luminrias 
metlicas.
        - Minha nossa! - Stela comentou, - Meus irmos seriam capazes de destruir esta sala em cinco minutos, sem ao menos fazer fora...
        No mesmo instante, duas cabeas com cachinhos castanhos apareceram na porta que provavelmente dava para os quartos.
        - Esse  o meu walkman. . . no  seu! Me d j aqui, seno te arrebento a cara!
        Com um movimento rpido e preciso como um golpe carat, Ryan segurou os dois garotos, um em cada mo.
        - O que est havendo? - indagou.
        - Ele pegou o meu...
        - No, foi ele que pegou!
        Com um jeito que deixaria qualquer pai orgulhoso. Ryan contornou a situao e trouxe os dois para conhecer Stela.
        - Meninos, esta  Stela MacDonald, uma amiga minha.
        - Outra amiga? Puxa, voc tem um bocado de amigos, hein? - disse o garoto identificado como David.
        -  isso mesmo - ajudou Jonathan, que agora se juntava ao irmo contra o tio.
        Stela, sem ligar para o atrevimento dos meninos, aproximou-se deles.
        - Ol, Jonathan. Oi, David.  um prazer conhecer vocs. 
        Caroline entrou seguida pela senhora, apresentada como uma antiga empregada de Ryan, a sra. Watson. A sala, agora cheia gente, parecia menor ainda.
        - Stela, por favor sente-se - pediu Ryan. - A sra. Watson est preparando um caf para ns.
        - Um ovo ou dois, senhorita? - indagou a empregada, que olhava para a visitante com uma expresso de eterna gratido. Stela quase caiu na risada.
        - Oh, dois, por favor.
        - Aprecio uma mulher que come bem - Ryan comentou, admirando-lhe as formas bem feitas.
        - E que me ensinaram desde pequena que comida  para e comer... - ela respondeu, voltando a falar com o sotaque sulino.
        O caf foi a repetio da vspera, com Christy comendo tudo o que via pela frente. Stela, alm de se preocupar com a garota, procurou se entrosar com os 
dois meninos, conversando com eles sobre diversos filmes de guerra nas estrelas. Ao final da ruidosa refeio, tinha conseguido a aprovao de ambos, principalmente 
porque nenhuma vez se referira aos dois como "os gmeos". Caroline demonstrava alvio ao ver que no havia discusses e que Christy tinha parado de chorar.
        Stella encarou a mais velha com uma ponta de compaixo. Era bvio que Caroline se sentia responsvel por manter a famlia unida e feliz. Estava ficando adulta 
depressa demais, a perda dos pais j fora mais do que suficiente...  Resolvida a conversar com Ryan para que arranjasse algum para auxili-lo a cuidar das crianas, 
encarou-o pela primeira vez desde que se sentara  mesa lotada.
        Ele a observava com o mesmo sorriso devastador e mais uma vez Stela sentiu o corao dar um pulo. "Cuidado", disse a si mesma, "apesar de solteiro, este 
homem  muito perigoso".
        - Agora todos vo pegar os mais para nadar. A senhora Watson toma conta de vocs - anunciou Ryan depois do caf.
        Com resmungos e reclamaes os trs mais velhos foram para o quarto trocar de roupa.
        - Por que esses diabinhos precisam sempre reclamar? - ele desabafou.
        - Eles adoram a piscina, no entanto, agem como se...
        -  assim mesmo - Stela interrompeu, sorrindo. - Esto testando sua autoridade, no percebeu? Mas acho que voc  timo com eles, Ryan. Consegue controlar 
os meninos muito bem, e no  por sua culpa que Christy necessita de uma me.
        - Bem, fao o que posso, mas isso no  o suficiente. - O rosto dele se iluminou enquanto pousava sua mo na de Stela.
        -  a que entra voc.
        -  Eu? - Stella perguntou, adorando aquele contato.
        - Margie me disse que procura um emprego provisrio.
        - Quando foi que falou com ela?
        - Hoje cedinho, para saber o seu endereo.
        - Francamente, fico surpresa que ela o tenha dado.
        - Eu quase precisei jurar sobre a Bblia que iria tratar voc com o mximo respeito. Depois ainda tive que escutar um grande sermo.
        - Incrvel -  Stela comeou a rir. - Voc conseguiu fcil. Pelo jeito, ela confia em voc.
        - S se for louca... - Ele tambm riu, olhando-a de alto a baixo. - Mas me disse que voc ainda no tinha o que fazer nas frias.
        - E ento?
        - Tenho uma proposta para lhe fazer.
        - No na frente de Christy ... - ela falou, com um brilho nos olhos.
        - Quero que se mude para c. Ainda hoje.
        Stella baixou o rosto, fingindo limpar a boca da garotinha enquanto encontrava coragem para responder.
        - Bem...
        - Afinal, quer ouvir o resto?
        - Pode falar. Estou ouvindo.
        Ryan deu-lhe a mo para ajud-la a levantar-se, Stela sentou-se no sof onde ela e Christy ficariam melhor acomodadas, mas, para sua surpresa. Ryan sentou-se 
ao lado.
        - Quero levar as crianas para acampar nas montanhas da Carolina do Norte durante um ms. Aqui no  o lugar adequado para elas, como j percebeu. Se ficam 
presas no apartamento, quase destroem tudo, se as deixo sair, comea a chover reclamaes.
        - Mas, e depois que voltar das frias?
        - Comprei dez alqueires de terra com uma casa, perto de onde moram Ron e Margie. A construo  muito antiga e  preciso fazer uma boa restaurao antes 
de ficar habitvel. J estou com um pessoal trabalhando l a todo vapor, mas ainda vai demorar mais umas seis semanas para ficar pronta.
        - Ser timo para as crianas - Stela concordou.
        - Tambm acho, mas, enquanto isso quero mant-los ocupados e fora daqui. O acampamento vai ser a soluo perfeita. Quando voltarmos, a casa estar praticamente 
terminada.
        - E onde eu entro nisso?
        Ryan deu-lhe um grande sorriso.
        - Voc tambm vai acampar com a gente. Tenho absoluta certeza de que no vou conseguir tornar conta das crianas sozinho durante um ms inteiro, ainda mais 
no meio do mato. Vou precisar de ajuda.
        Stela ficou pensativa. De algum modo, s conseguia enxergar Ryan Cunningham, o arquiteto mundialmente famoso, numa praia extica ou abraado a uma bela modelo 
em frente  lareira de um chal. Ser que era o mesmo homem que agora queria levar quatro rfos para acampar nas montanhas? E onde  que ela entrava nesse esquema? 
Onde iria dormir?
        - Ryan, isso  uma coisa meio fora do comum... - gaguejou. - Tenho a impresso de que vai parecer um pouco estranho... se eu for com vocs acampar por um 
ms... e pior ainda se eu ficar aqui antes da viagem.
        - Estranho? - Ryan no conseguia controlar o riso. - Est preocupada com a sua reputao, minha flor do Sul?
        - Isso pode no parecer importante para voc, mas para mim , e muito! - Stela se enfezou.
        - Minha nossa! Voc est mesmo falando srio! Ser que nunca leu os romances do sculo passado? Diga para todo mundo que foi contratada como governanta.
        - Uma governanta numa barraca?
        - Mas, Stella, ser que no v? Por mais que eu queira lhe passar uma cantada, o que poderia fazer com quatro crianas olhando para a gente? Estar completamente 
segura. Voc e as meninas dormiro numa barraca separada e sua virtude permanecer intacta.
        Isso fazia sentido, mas de algum modo ela sentia-se meio desapontada. Tentando no se comprometer, ainda indagou:
        - Mas ser que no conhece algum mais ntimo que possa convidar?
        - No conheo ningum que sirva ou que possa aceitar. Ryan foi incisivo. - Stela, voc  a nica mulher que conheo que dar certo. Pode pedir quanto quiser.
        Um pouco mais tarde, ao colocar Christy no bero do quarto super apertado, percebeu que seu preo era a felicidade daquela menininha. E, apesar dos instintos 
lhe ordenarem que sasse correndo dali, acabou dizendo a Ryan que passaria o vero com eles. Quando ele a segurou com fora e deu-lhe um beijo nada fraternal no 
rosto, Stela teve a impresso de que sua vida nunca mais seria a mesma.

Captulo 3
        - Crianada, vamos tentar s mais uma vez - disse Stela, dando um pulo para trs na hora em que a barraca, toda em branco e verde, desabava majestosamente 
no cho, na frente do prdio de Ryan. S mais uma vez, est bem?
        - J experimentou ler as instrues? - a voz provocativa de Ryan soou e Stela voltou-se, as tranas balanando com um ar de acusao no rosto.
        - Diversas vezes, senhor Cunningham. Experimente voc, se acha que sabe tudo...
        - Quando Janele e eu ramos crianas, vivamos acamando. Veja s como faz um mestre na arte. - Ele enrolou as mangas da camisa branca, afrouxou a gravata 
e conferenciou com as crianas, determinando o que cada uma devia fazer. At Christy foi recrutada para martelar os espeques no cho. A barraca ergueu-se num passe 
de mgica.
        - Ser que agora posso entrar? - David indagou cheio de dvida. - Da ltima vez ela desabou na minha cabea.
        - Pode, sim. - Stela estava feliz. - Acho que agora est firme.
        - Uma beleza, voc no concorda, Stela? - Ryan provocou, enquanto desenrolava as mangas da camisa.
        - Aprendi que se deve sempre falar a verdade, mas s vezes isso di... Tudo bem... a barraca est uma beleza. Satisfeito?
        Ele passou o brao amistosamente pelos ombros de Stela. Ela estava com um short, cortado de uma cala velha, e uma camiseta amarela.
        - Stela, sabe de uma coisa? No precisa se preocupar com a que os outros vo dizer... Com essas tranas e vestida desse jeito, todo mundo vai pensar que 
voc  outra das minhas crianas.
        - E  bom que tambm pense assim... - ela deixou escapar sem pensar.
        O corpo de Ryan junto ao dela se sacudia numa risada muda e Stela sentiu a onda de calor que sempre a invadia quando ele a tocava. Afastou-se e perguntou, 
com as mos na cintura:
        - J comprou outra barraca para voc e os meninos?
        - Fiz melhor. Meus pais empacotaram a barraca que eu usava quando criana e a despacharam para mim. Acabou de chegar
        Esse era um lado de Ryan que ainda a surpreendia, mesmo depois de estar sempre em contato com ele nas ltimas duas se manas. O homem que aparentava ser livre 
e descompromissado, e cuja arquitetura refletia as tendncias mais progressistas deste final de sculo, no fundo era um sentimental. Fazia parte dessa personalidade 
intrigante querer acampar na mesma barraca usada na infncia e esse sentimento surpreendente tambm explicava por que restaurava uma velha fazenda em vez de construir 
urna nova, com um projeto prprio. Tambm explicava por que aceitara tornar-se pai de quatro crianas barulhentas. Ryan Cunningham era um homem muito especial.
        - Ser que a barraca ainda est em ordem, depois de tantos anos? - perguntou Stela, enfatizando as duas ltimas palavras.
        - Hoje em dia no se fazem mais barracas como antigamente. Esta vai durar cem anos - disse ele, puxando-lhe de leve uma das tranas. - E no comece a ficar 
atrevida... No se esquea que a partir de amanh vai ficar a minha merc durante um ms inteirinho.
        Com a correria de organizar as crianas e a futura viagem, as duas semanas, desde que Stela aceitara o compromisso para o vero com Ryan, tinham voado. Entretanto, 
ela fizera p firme em no ir morar com eles antes de partirem. Em vez disso, todas as noites levava Caroline e Christy para seu prprio apartamento, e isso tinha 
servido para estreitar os laos de amizade com a menina mais velha e tambm para satisfazer a necessidade de carinho da menorzinha. Os dias eram gastos em compras 
de roupas e equipamento necessrio.
        - Espero que tudo esteja certo - Stela comentou enquanto ela e Ryan supervisionavam as crianas que desmontavam a barraca. - Acho que no me esqueci de nada...
        - Ah, isso me lembra uma coisa. Fui dar uma olhada no fogo que voc sugerir, mas decidi no compr-lo. Quero que  esta seja uma verdadeira experincia de 
volta  natureza para as crianas, por isso acho melhor cozinharmos numa fogueira.
        - Ento espero que seja o cozinheiro ... - ela respondeu rindo.
        - S se voc se encarregar de levantar as barracas, e cortar lenha, e cavar as fossas, e...
        No dia seguinte, uma bela manh de julho, Stela acordou antes das duas garotas que dormiam ao seu lado. Espreguiou-se com cuidado, para no acord-las. 
Com os braos atrs da cabea, deixou-se tomar pela excitao da viagem prestes a comear. Em menos de uma hora Ryan chegaria para apanh-las.
        Ela nunca sara de frias antes, mas no contaria isso nem  melhor amiga. A oportunidade de passar um ms sem nenhuma preocupao que no fosse o lazer 
era algo estranho, mas tambm delicioso. E ficar o tempo inteiro ao lado de Ryan Cunningham parecia ainda mais interessante.
        Ryan Cunningham ...s de pensar naquele homem, todo o seu corpo estremecia. A atrao que sentia por ele, iniciada no dia da festa na casa de Margie, havia 
crescido e ainda crescia dentro de si.
        No sabia por que estava to atrada por Ryan: observando as meninas dormindo, mil perguntas lhe passavam pela cabea. Ser que a fascinao que sentia por 
ele tinha a ver com as crianas?
        No. Precisava ser honesta consigo mesma. Por mais que tentasse racionalizar os sentimentos, a verdade  que o amor pelos rfos era algo completamente diferente. 
Quando pensava em Ryan, imaginava-o sozinho, acariciando-a com suas mos msculas, dizendo-lhe palavras de amor.
        Nas ltimas semanas, entretanto, como havia prometido ele se manteve afastado, apesar de s vezes a olhar de um modo bem insinuante. Tambm percebeu que 
Ryan saa com outras mulheres. A estranha paternidade com todas as complicaes, no impedia que levasse uma intensa vida social. Margie, to preocupada com o envolvimento 
dela, devia ficar satisfeita. Stela, porm, sentia-se arrasada..
        - J est na hora de levantar? - Caroline sentou-se na cama esfregando os olhos. O sol mal havia raiado e logo as trs, vestidas, esperavam Ryan com impacincia. 
A excitao j era visvel quando a caminhonete parou em frente ao apartamento.
        Ao pegarem a estrada, Stela reparou melhor em Ryan, sentado ao seu lado. Ele usava uma camisa estilo havaiano aberta no peito e short marrom, e como sempre... 
estava descalo. Ela j havia notado que Ryan s usava sapatos quando era obrigado a isso.
        - Voc tambm est muito elegante - ele disse, em resposta ao exame que ela lhe fazia.
        Stela ficou contente com o comentrio, pois havia gasto mais tempo que o normal para escolher que roupa usaria: um macaquinho areia e turquesa. Com o cabelo 
preso num coque mole no topo da cabea, tinha conseguido o efeito desejado: simples,  vontade, mas merecedora de ser olhada duas vezes. A roupa era suficientemente 
colante para que ningum a tomasse por uma das crianas de Ryan.
        Foram seguindo para o Norte, para a Gergia, atravessando urna paisagem de pastos e plantaes ondulantes, e cidadezinha pitorescas, at chegarem a Cordele, 
capital mundial da melancia. Ryan acabou por concordar em parar no mercado, onde comprou uma melancia imensa.
        Almoaram numa lanchonete e seguiram em frente, com a crianada se acomodando para tirar uma soneca, Stela olhava fascinada para as trepadeiras Kudzu que 
cobriam rvores e arbustos.
        -  uma viso meio fantasmagrica - comentou com Ryan. - Parecem to macias e convidativas. Escondem tudo o que h embaixo e fazem voc se esquecer que uma 
floresta inteira est morrendo sob esse manto verde.
        - Elas se parecem com algumas mulheres que conheci... - observou Ryan. As palavras tinham um tom irnico, e Stela analisou-as antes de responder:
        - Por que voc insiste em procurar mulheres desse tipo?
        - Provavelmente para ter uma desculpa para no assentar a cabea... Se eu fizer um esforo para no encontrar a mulher certa, posso continuar livre como 
um passarinho.
        Stella percebeu que ele no brincava. Aquilo era mesmo srio.
        - E a liberdade  assim to importante?
        Sempre achei que sim, mas agora j no tenho tanta certeza. No  possvel ficar mais amarrado do que estou e no entanto no trocaria meu lugar com ningum 
no mundo.
        - Uma ocasio precisei cantar uma cano num teste de talento e um dos versos dizia o seguinte: "S alcanamos a liberdade quando no temos mais nada a perder 
..."
        - Hum, . - interessante, - Ele a encarou pensativo. - Me conte sobre o teste. Como foi a sensao de quase chegar a Miss Gergia?
        Stella no sabia por que Margie resolvera falar a Ryan sobre esse assunto. Pensou um pouco antes de responder.
        - Foi apavorante, excitante e embaraoso... Eu s tinha dezenove anos quando entrei na primeira fase do concurso. As trs finalistas receberiam bolsas de 
estudo como prmio e eu precisava muito dessa ajuda. Me admirei ao ganhar e a coisa toda foi virando uma bola de neve.
        - Mas como?
        - Bem, virei uma celebridade da noite para o dia, com gente me fotografando a todo instante, me ensinando como andar, como me vestir, como arrumar os cabelos 
e a maquiagem. Depois tive aulas de dico e de canto. Num minuto eu era a simples garota do interior e no outro toda a cidade de Gainesville depositava as esperanas 
em mim.
        - E o que fez?
        - Fiz? Eu no podia fazer nada! Estava presa numa onda em direo  glria e no conseguia mais sair, as coisas ficaram completamente fora do meu controle. 
- Stela parou e respirou fundo. - Afinal, na hora do grande concurso eu era apenas uma cpia mal feita de mim mesma. A Stela MacDonald verdadeira nunca desfilaria 
de mai e vestido de noite naquele palco enorme. A Stela MacDonald verdadeira tambm nunca teria coragem de enfrentar toda aquela multido. Quando anunciaram que 
eu era a segunda colocada, chorei... - mas foram lgrimas de pura alegria.
        - Alegria?
        - Isso mesmo...  Se tivesse ganhado perderia a paz, e saber que estava tudo terminado foi a maior emoo da minha vida.
        Ryan ficou num silncio absoluto durante vrios quilmetros e por fim comentou:
        - Flor do Sul, voc  fora de srie... - quase consegue restaurar minha f na humanidade..
        As crianas foram acordando, uma de cada vez, impacientes e reclamando. Stela manteve-se ocupada tentando distra-las. Pararam por fim nos arredores de Atlanta, 
completamente exaustos.
        - Pensei que desse para a gente chegar s montanhas ainda hoje - Ryan comentou aborrecido. - No adianta armar acampamento s por uma noite, mas se eu sugerir 
um hotel, as crianas vo me matar.
        Depois de dar uma olhada no guia de camping. Ryan pegou uma estrada estadual e uma hora depois chegavam ao Rei dos Campings.
        - Tem certeza de que no estamos num drive-in? - indagou Stella.
        Ryan olhou feio para ela e avisou as crianas:
        - Muito bem, chegamos. Todo mundo para fora.
        Quase escurecia, mas o fato no tinha a menor importncia, uma vez que o local estava iluminado com fortes lmpadas de mercrio. Porm, o nico lugar vago 
era cheio de cascalhos, ideal para um trailer, mas pssimo para uma barraca.
        Depois de pensar um pouco, Ryan anunciou que ele e os garotos iriam dormir sob o cu estrelado, pois montar a barraca s por uma noite seria bobagem. Stela 
e as meninas se ajeitariam na caminhonete.
        - Voc tem certeza, Ryan? -ela perguntou. - E se chover?
        - No h uma nuvem no cu, Stella. Pare de se preocupar.
        Todos j haviam comido, antes de chegarem ao camping, por isso, logo depois de arrumar um pouco as coisas, foram at as cabines para vestirem roupas de banho. 
Ryan percorreu com os olhos as curvas suaves do corpo de Stela num mai marfim e disse baixinho:
        - Maravilha... teria votado em voc!
        A piscina, j superlotada, era rasa e morna. Christy agarrou-se a Stela com medo, mas no havia razo para isso, pois com tanta gente no sobrava gua suficiente 
para ningum se afogar. Meio desanimados, brincaram um pouco e em seguida saram, enrolados em toalhas felpudas. Atravessaram o camping lotado em direo  caminhonete.
        - Bem, acho que no d para fazermos uma fogueira, nem para a gente cantar um pouco - disse Stela pensando alto. O acampamento fora invadido pelo som de 
mais de uma dzia de televisores e rdios, cada um ligado numa estao diferente. A nica coisa a fazer era entrarem todos na caminhonete e contar histrias de fantasmas, 
mas l dentro estava claro demais para criar um ambiente prprio.
        Todos se acomodaram e Stela ficou constrangida ao ver que sua perna estava sempre encostando na de Ryan.
        A brincadeira comeou com os garotos contando as histrias apavorantes que ouviram numa reunio no ano anterior, Em seguida Caroline detalhou um caso que 
fez com que Stela e Ryan ficassem de boca aberta. As insinuaes e duplo sentido, no percebidos pelas crianas, deixaram os dois envergonhados.
        - Agora  minha vez. - Stela esperava evitar que Caroline, na sua inocncia, cometesse nova gafe. - Era uma vez uma velha que morava completamente sozinha 
no ltimo andar de um arranha-cu numa grande cidade. 
        As palavras seguiram, cheias de suspense, com a narradora baixando a voz para dar maior nfase. As crianas se juntaram e ela, entusiasmada, ficou cada vez 
mais dramtica. Desde o dia do clebre concurso que no tinha uma platia to interessada.
        De repente, sem que ningum esperasse, ouviu-se um barulho e Stela acabou caindo de onde estava sentada bem no colo de Ryan, acomodado aos seus ps.
        - Mas com todos os diabos! - conseguiu dizer enquanto se desvencilhava.
        -  o monstro!  ele quem vem vindo. . . - sussurrou Ryan ameaador.
        - Ah, seu chato! - gritou Stela. - Voc est assustando a gente! - Mais outro barulho e ela de novo foi parar nos braos de Ryan.
        - Minha flor do Sul, desta vez no vou deixar voc escapar - ele falou enquanto a segurava pela cintura. Stela ficou quieta, consciente do cheiro agradvel 
de cloro que emanava dele e do fato de se encontrarem separados apenas pelos mais.
        -  uma espcie de matador de besouros - anunciou animada Caroline, que tinha dado uma espiada para fora. - O pessoal da barraca ao lado armou um aparelho 
desses, enormes, e que faz esse barulho cada vez que acerta um besouro.
        - No acredito...  - reclamou Stela, recostando-se por um instante contra o peito de Ryan. - Essa  a grande experincia de volta  natureza?!
        As crianas saram depressa para ver o tal aparelho.
        - Amanh cedo teremos um monte de rs debaixo desse negcio comendo todos os besouros mortos - Ryan comentou, com o queixo apoiado sobre a cabea de Stela.
        - Bem, ns estamos mesmo atrs de vida selvagem. - De novo o sotaque sulino. No entendia que poder tinha aquele homem para deix-la assim to estranha.
        - Seu cabelo tem um cheiro delicioso - Ryan murmurou baixinho, enquanto as crianas j voltavam para a caminhonete.
        - Se Margie nos visse agora, seria capaz de desmaiar! - Com um suspiro deixou-a, acrescentando: - Crianas, hora do bero.
        - Como num cerimonial, os meninos desenrolaram os sacos de dormir e encheram de ar os colches. Ryan, deixando de lado tais luxos, jogou o velho saco de 
dormir sobre os pedregulhos. Stela e as meninas vestiram camisetas e shorts e foram at o banheiro do camping.
        Com um mnimo de complicao, as crianas, esgotadas, caram rapidamente no sono, mas o mesmo no aconteceu com Stela. Com todo o barulho de rdios, televisores 
e do tal matador de besouros... - S adormeceu depois de muito tempo sonhando com o rudo do ar condicionado do trailer vizinho e com os uivos de um cachorro preso 
do outro lado do acampamento.

        Um pouco mais tarde um sereno forte comeou a cair, encharcando tudo, inclusive um homem e dois garotos que dormiam l fora. Com maior bom senso, os meninos 
foram os primeiros a reagir: David, todo molhado e tremendo, acordou Stela ao abrir a porta da caminhonete e, antes que pudesse fech-la, Jonathan tambm entrava. 
Stela pegou uma toalha, secou-os bem e os acomodou ao lado das irms, que nem chegaram a acordar. Logo os dois adormeciam outra vez.
        Por sorte, os bancos da frente reclinavam-se bastante e ela logo se ajeitou num deles, debaixo de um cobertor extra. Ia caindo no sono quando seus olhos 
pousaram sobre Ryan l fora. Com um suspiro, atirou o cobertor para um lado e abriu outra vez a porta. Ajoelhou-se ao lado dele e o sacudiu devagar.
        - Ryan... acorde voc est encharcado. - Ele nem se mexeu. - Ryan! - chamou mais alto.
        - Hei! Tem gente querendo dormir! - algum gritou de uma barraca.
        - Ryan! - Stela trincou os dentes e insistiu. - Acorde, vamos! - sussurrou na orelha dele.
        - Eu estava justamente sonhando com voc - Ryan abraou-a, trazendo-a para junto de si. - A gente estava andando na chuva.
        Stella sentiu o corao disparar. Ficar assim to junto dele, tendo a separ-los apenas o saco de dormir, era no mnimo uma experincia chocante.
        - Sonhava com chuva porque est mesmo todo molhado - ela falou, tentando ser severa.
        - E tambm estou com frio ele admitiu. - Vem ficar aqui comigo para me esquentar. - Ryan tentou abrir o zper do saco de dormir
        -Ryan, no posso fazer isso! - A voz saiu mais alta do que ela pretendia.
        - Se vocs no pararem com essas obscenidades, vou chamar o gerente do acampamento - gritou a voz novamente.
        -Olhe aqui! --Os olhos de Ryan faiscavam. - Pegue esse seu matador de besouros e...
        Usando um recurso desesperado, Stela o silenciou com um beijo. Os lbios dele eram firmes e quentes como ela imaginava: Logo percebeu que a tarefa de acalm-lo 
tinha tido o maior sucesso, pois ele tambm a beijava com entusiasmo. No entanto, ao constatar que o beijo ficava mais ntimo, ela desconfiou que o papel de boa 
samaritana fora longe demais. Afastou-se, tentando se recompor.
        - Olhe, no vou ficar aqui e morrer congelada. ouviu? - Entrou no veculo com a risada de Ryan a segui-la.
        Instantes depois ele tambm se encontrava dentro da caminhonete. Em silncio, Stela lhe entregou a toalha, se acomodando de novo para dormir. Ainda ouviu 
o rudo do outro banco sendo reclinado e de um cobertor que era puxado. Antes de cair no sono ouviu-o dizer baixinho:
        - Boa noite, minha flor do Sul.

Captulo 4
        No dia seguinte, a chegada do sol nem foi notada, pois o camping passara a noite toda n claro que uma praia tropical ao meio-dia. . . Apesar disso, como 
sempre, as crianas acordaram cedo e logo estavam como um enxame de abelhas em volta de Ryan e Stela.
Ela descobriu um fato novo a respeito de Ryan: de manh no era uma pessoa cordial. Resmungando, ele foi guardando os sacos de dormir debaixo dos bancos, enquanto 
ela levava as crianas para o banheiro. Logo depois. com o rosto lavado e os cabelos penteados, elas foram enfiadas sem cerimnia na caminhonete para a parte final 
da viagem.
        - De modo geral, a prtica do caf da manh  um hbito bastante salutar - Stela comentou meio preocupada ao sarem do camping. Os cabelos em desalinho e 
a barba crescida faziam com que Ryan ficasse parecido com algum bandido da televiso.
        - Eu nunca tomo caf foi a resposta seca.
        - Mas as crianas tomam.
        - Ser que no d para elas se acostumarem sem isso? ele perguntou com um leve sorriso.
        - Talvez... quando tiverem mais de vinte anos. - ela retrucou, observando a paisagem que passava rpido. Depois de algum tempo, pararam num posto que anunciava 
comida caseira.
        A expresso soturna de Ryan foi modificando-se a cada gole de caf que bebia, como se tomasse uma poo mgica. As crianas, famintas, fartaram-se com ovos 
e bacon, pezinhos frescos e biscoitos de mel.
        -Christi mudou muito - observou Ryan, colocando um pedao de presunto dentro de um pozinho. - Quase no d para acreditar que seja a mesma criana.
        Christy estava mesmo muito melhor. Nas poucas semanas desde que Stela comeara a cuidar dela, j aumentara muito o vocabulrio. Novas palavras apareciam 
a todo instante e j comeava a fazer frases.
        As outras crianas tambm demonstravam um comportamento mais tranqilo. Os dois meninos pareciam ter aceitado a tragdia com mais facilidade, pois possuam 
aquele lao especial comum aos gmeos e se ajudavam mutuamente. Claro que s vezes ainda brigavam, mas tambm um consolava o outro de um modo at comovente.
        Caroline era a nica que ainda preocupava Stela. Apesar de na aparncia controlar as emoes, tinha uma expresso angus inda, que lhe cortava o corao. 
A menina ainda sofria muito, nas se recusava a falar sobre seus sentimentos. Nunca tocava no nome dos pais, era assunto proibido.
        Stela e Ryan haviam conversado sobre o problema e chegado concluso de que s o tempo e muita pacincia seriam capazes de cur-la. Tirando dos ombros da 
garota a preocupao com Christy, Stela esperava estar ajudando-a a solucionar os prprios problemas.
        - Eles so todos to lindos - ela exclamou num rasgo de entusiasmo. - Me apaixonei pelas crianas. - Tomou mais um gole de caf e recostou a cabea no espaldar 
da cadeira. Ao olhar para Ryan, percebeu que ele a encarava srio, a testa franzida.
        - Sabe, o nico problema com este nosso arranjo  que, quando voc for embora, elas vo sentir como se tivessem perdido outra me... - ele disse baixinho
        Era verdade e aquilo a preocupava.
        - Sim, j pensei nisso, Ryan. Mas acho que encontrei uma soluo.
        Qual?
        - Gostaria de ter sua permisso para passar algum tempo com eles depois que as frias terminarem. Sei que vo acabar me esquecendo, mas, se eu me afastar 
aos poucos, acredito que tudo ficar mais fcil, eles no iro sentir tanto a minha falta.
        - Stela tomou o ltimo gole e ficou olhando o fundo da xcara vazia.
        - E voc, no vai sentir falta deles, minha flor do Sul?
        Ryan estava certo. Ainda mal comeavam as frias e ela j se preocupava com a hora em que precisaria deix-los. A todos eles. . - No adiantava tentar esconder 
os sentimentos. Encarou-o firme nos olhos.
        - Vou sentir muita falta deles, Ryan. Fico sempre pensando que deveria manter um pouco de distncia, para o bem de todos, mas simplesmente no consigo. Vou 
ter de arriscar que o amor que sinto por todos no chegue a fazer nenhum mal...  a nenhum de ns.
        Ryan pareceu espantado com aquela confisso e ficou olhando para ela por um longo tempo. A centelha que s vezes explodia entre os dois voltou a brilhar. 
Tentando disfarar, ela foi acudir Christy, que ameaava pular do cadeiro. Ao voltar para seu lugar, a corrente fora interrompida.
        Terminaram o caf e levaram mais pezinhos com presunto para um lanche rpido mais tarde. Logo estavam todos na caminhonete reiniciando a viagem  Carolina 
do Norte.
        Uma hora depois, ao passarem por um trevo, Stela comentou:
        - Essa estrada leva  casa dos meus pais.
        - A gente estava to perto a noite passada e voc ficou quieta. Podamos ter aparecido l de repente - Ryan brincou.
        - Para ser honesta, eu no contei a eles sobre esta nossa viagem. - Stela parecia pedir desculpas. E fiz Margie jurar que no diria nada. Posso ter vinte 
e trs anos, mas se eles descobrem que vou acampar com um homem, independente das circunstncias, na certa ainda levaria uma boa surra.
        Ryan sorriu e o corao de Stela voltou a pulsar com emoo. No havia nada no mundo que se comparasse ao sorriso dele.
        - E seria muito bem feito. - Ryan fingiu severidade, olhando para dela, - Quem  que j ouviu falar de uma coisa dessas?
        - Tenho certeza de que ningum na minha famlia. Eles ainda esto comentando um episdio acontecido h trs anos quando meu irmo Greg fugiu com a namorada. 
Ele e Sue ainda no tm filhos, mas, quando nascer o primeiro, algum ainda vai dizer: Viu? Eu no disse que eles precisavam casar?
        Outro sorriso e Ryan indagou:
        Ento  assim que se criam os filhos na zona rural da Gergia?
        - No. - Stella sacudiu a cabea. - Isso  o que h de pior. A parte boa mesmo  todo o amor que voc recebe. Na minha famlia tinha gente  bea, e havia 
sempre algum por perto quando voc precisava.
        - E agora voc transmite isso para as minhas crianas.
        Stela achou graa na maneira como ele pronunciou as duas ltimas palavras.
        - O amor  mesmo uma coisa muito engraada, quanto mais voc recebe, mais tem para dar.
        - No acredito que no haja um grande nmero de rapazes querendo receber todo esse amor que voc tem para dar...
        Stela ficou vermelha com o comentrio, mas no disse nada. Continuou observando a paisagem conhecida que, pouco a pouco, se tornava montanhosa.
        Pararam um pouco para comprar amendoins de um garoto na beira da estrada e logo seguiram adiante. Aos poucos iam penetrando fundo no territrio montanhoso 
e precisaram diminuir a marcha na estrada agora ngreme, estreita e tortuosa. Por todo o lado se viam igrejas brancas de telhados pontudos e lojinhas de artesanato 
da regio.
        As crianas saudaram com vivas a passagem para o Estado da Carolina do Norte e para celebrar Ryan estacionou num recanto para piqueniques onde lancharam. 
De onde se encontravam, avistavam-se ao longe fileiras e mais fileiras de uma plantao de repolhos.
        Ao voltarem para o carro, Ryan consultou o mapa e avisou:
        - S falta uma hora para chegarmos ao nosso destino.  melhor todo mundo dormir um pouco para ter bastante energia na hora de montarmos o acampamento.
        - No se esquea de que precisamos parar em algum supermercado - Stela pediu antes de fechar os olhos.
        Setenta quilmetros adiante, depois de fazerem compras, pararam na frente de um bosque, num pequeno camping no Parque Nacional de Nantahala. O cenrio era 
idlico. A uns cem metros, um regato borbulhava por entre as pedras. Do outro lado da estrada, flores silvestres de vrias cores se espalhavam numa campina e, por 
entre as falhas na vegetao, avistavam-se os picos pontiagudos das montanhas.
        - Todo mundo para fora - gritou Ryan, com o rosto to entusiasmado quanto os das crianas. -  o mximo, no acha? - indagou a Stela, apertando-lhe por um 
instante a mo.
        - Bem diferente de ontem  noite - ela concordou, tambm animada. Alm de outras sensaes que pudessem existir entre os dois, aos poucos eles se tornavam 
bons amigos. 
        Ignorando os lugares mais fceis para armar as barracas, Ryan insistiu em levant-las bem perto do riacho e quase tudo precisou ser levado nas mos at l. 
Com a ajuda das crianas, em uma hora estavam confortavelmente instalados.
        Houve um instante de riso quando a barraca antiga de Ryan foi retirada da caixa, Pesava muito. Ele tinha razo, j no se faziam barracas como antigamente... 
Mas, por infelicidade, as traas quase haviam acabado com ela. Depois de armada, os meninos entraram para inspecionar e viram que o sol fazia milhares de bolinhas 
no cho de lona. Por sorte, a me de RYan tambm mandara um kit de remendos para barracas.
        S que, depois de gastarem todo o material, tinham consertado apenas uma meia dzia de buracos e Stela, com um arzinho malicioso, apareceu com outro kit.
        - Ser que serve? - indagou com doura. - Achei que talvez fosse til...
        Com um resmungo ofendido, Ryan estendeu a mo por um dos buracos maiores para pegar a oferta. No fim, a barraca ficou mais ou menos habitvel e Stella voltou 
com uma jarra de limonada feita com a gua fresca do regato. Todos se sentaram a uma das mesas de piquenique para beber e descansar.
        - O que eu queria mesmo agora era um bom banho de chuveiro - Stela comentou bocejando. O ar rarefeito da montanha j fazia efeito.
        - Acho que tenho uma pssima noticia para voc - retrucou Ryan, com um ar maroto no rosto. - Aqui no existe chuveiro. Mas como eu sabia disso continuou, 
tirando uma caixa da caminhonete - trouxe um chuveiro solar. A gente pendura numa rvore e enche de gua. O sol esquenta a gua e assim pode-se tomar um belo banho 
quente.
        - Se pensa que vou tomar banho debaixo de uma rvore, est louco varrido - Stela retrucou zangada.
        As crianas, entretanto, acharam a idia esplndida. Numa correria enfiaram os mais e, sem esperar que a gua esquentasse, ficaram debaixo do chuveiro gritando 
por mais. Stella tomou um banho de gato.
        As pequenas brincadeiras, a intimidade forada da vida em comum e o riso das crianas pareciam amarrar Stela e Ryan numa rede de contentamento. Ela procurava 
lembrar se algum dia tinha se sentido assim to satisfeita. Os dois trabalhavam lado a lado, Stela parecendo adivinhar instintivamente o que Ryan queria e o mesmo 
acontecendo com ele.
        S que a harmonia no excluiu a excitao. Cada vez que sem querer se tocavam, Stela sentia uma onda de vibraes deliciosas. Seu corpo parecia mais vivo, 
como se quisesse alcanar uma realidade que nem ela mesma compreendia muito bem. Mas de uma coisa tinha conscincia: o sentimento que crescia dentro de si com relao 
a Ryan nada tinha a ver com o respeito de uma governanta ao patro. Algo muito mais importante estava acontecendo, pelo menos em sua opinio. E era alguma coisa 
extremamente agradvel.
        Ryan acendeu a churrasqueira e assou bifes para todos. Tambm fizeram salada de tomates e pepinos. Comeram com as mos e Stela adorou a sensao de um jantar 
assim improvisado ao pr-do-sol.
        Como sobremesa havia chocolate. Para terminar, tomaram caf com a gua fervida sobre a churrasqueira. Ao cair da noite, a floresta ao redor deles tornou-se 
uma verdadeira sinfonia de grilos e sapos.
        As crianas pediram e Ryan fez uma fogueira no muito perto das barracas, enquanto Stela e os ajudantes arrumavam os suprimentos. De banho tomados e vestidos 
com agasalhos, todos se sentaram em banquinhos  volta do fogo, esquentando as mos e contando histrias assustadoras sobre os barulhos que ouviam.
        Stela apareceu com um violo e Ryan provocou:
        - Ser que voc sabe mesmo tocar? Fiquei pensando por que havamos trazido isso...
        Stela tirou o instrumento da capa e afinou-o com cuidado. Ficou sabendo quais msicas as crianas conheciam e ajudou-as com sua voz pura de soprano. Ryan 
juntou-se ao coral sem se importar muito com as letras das canes.
        Depois de as crianas esgotarem o repertrio ele sugeriu:
        - Que tal Stela cantar uma msica sozinha?
        Ela ento entoou a cano do concurso de miss: "Eu e Bobby McGee". Como tantas outras, era sobre a descoberta do amor e a dor de perd-lo mais tarde: "Liberdade 
 a vida pulsando forte", ela cantava o refro familiar trazendo recordaes. Ao acabar, at mesmo as crianas estavam silenciosas e s se ouvia os rudos noturnos 
da floresta..
        - Voc teria dado uma Miss Amrica maravilhosa - Ryan comentou por fim.
        - E se tivesse ganhado, claro que no estaria aqui esta noite - ela retrucou baixinho. - Mas no troco este lugar por nenhum centro do mundo...
        Por fim acabaram todos cantando "O velho MacDonald tinha uma fazenda".
        - Quando eu era, pequena a gente costumava cantar isso a toda hora - Stela contou para as crianas. - Meu pai tem uma fazenda e um dos meus irmos pintou 
numa placa, "Old MacDnald's Farm" e colocou na porteira. Quando, na msica, chegava a hora de dizer o que o velho MacDonald tinha na fazenda, a gente fazia a maior 
algazarra e cantava o nome de todos os meus irmos e irms.
        - E quantos irmos voc tem, ento? - perguntou Caroline espantada.
        - Na ltima vez em que contei ramos doze -- ela respondeu rindo.
        - Meu Deus! Onze irmos! - disse Jonathan fingindo cair desmaiado.
        - Isso mesmo,  e temos at dois gmeos, James e Randy.
        - E que idade eles tm? - David ficou muito interessado.
        - Deixe ver... eles tm oito anos a menos que eu... ento esto com quinze anos.
        - Ser que a gente pode conhec-los algum dia? - pediu Jonathan.
        Stella olhou para Ryan pedindo ajuda. No podia prometer nada, uma vez que, depois das frias, ela iria se afastar das crianas e no queria tocar nesse 
assunto.
        - Acho que seria uma boa idia - Ryan interferiu. Talvez eles possam dar um bom exemplo a vocs, j que so um pouco mais velhos
        Os garotos voaram para cima dele, fazendo ccegas e s um pouco mais tarde se acalmaram, aceitando a idia de irem para a cama.
        Stela acomodou as meninas e depois saiu da barraca. Era cedo demais para dormir. A fogueira ainda estava acesa e Ryan no se encontrava  vista. Ela se acocorou 
junto ao fogo para se aquecer e observar a dana das chamas.
        - Est com frio, Stela? - a voz de Ryan soou do escuro atrs dela, como para avis-la de sua presena.
        Um pouquinho, mas o fogo ajuda.
        Ryan rolava uni tronco grande e o colocou bem perto da fogueira.
        - Venha c. - O tronco dava justo para os dois e ele abriu o brao quando Stela se acomodou na ponha. - Chegue mais perto, eu te ajudo a esquecer o frio.
        Ryan nem precisaria falar aquilo, bastava chegar perto dele para se sentir em brasa, quer estivesse com frio ou no. Stela hesitou por um instante e depois, 
como se repentinamente tomasse uma deciso, aproximou-se, recostando a cabea no ombro de Ryan, aceitando o calor oferecido.
        Notou quando ele prendeu a respirao, um movimento to rpido que poderia ter sido s imaginao... Mas quando Ryan falou, a voz saiu meio rouca.
        - Ah, est to bom... acho que eu tambm estava com frio.
        No tinha idia de quanto tempo permaneceram assim, ela sentia o brao dele em suas costas, a mo a apenas alguns centmetros de seu seio. As emoes que 
experimentava eram deliciosas, mas Stela respirava com dificuldade. Depois de um tempo que pareceu horas, Ryan quebrou o encantamento:
        - Meu Deus, voc parece um gatinho, assim toda encolhida. Me diga, minha flor do Sul, como  que ainda no apareceu nenhum sujeito para te levar embora? 
- E levantou-se para colocar mais lenha na fogueira.
        A resposta bvia a essa pergunta assustou-a como se fosse um claro nas trevas. Era muito simples: estivera a vida toda esperando pelo aparecimento de Ryan 
Cunningham! Houve um longo silncio enquanto Stela pensava na descoberta e preparava as prprias defesas. No adiantava contar-lhe o que acabava de verificar, o 
fato s iria servir para deix-los embaraados. Querendo arranjar tempo para examinar melhor a questo, ela desconversou:
        Acho que  porque eu nunca quis ser levada embora.
        -  engraado, eu acredito firmemente na igualdade de homens e mulheres, mas no consigo imagin-la como uma mulher de carreira, - Ryan continuava atiando 
o fogo, de costas para ela. - Voc nasceu para ter uma famlia, para dar e receber prazer a um homem e a seus filhos.
        - Isso parece conversa de um dinossauro em pleno sculo vinte... - Ela riu. - Voc nasceu um sculo atrasado.
        - No foi isso que quis dizer. - Ele se virou de frente, a claridade da fogueira fazendo-lhe desenhos no rosto. - Acontece que quando olho para voc vejo 
uma roseira florida, sinto o cheiro de uma torta saindo do forno e ouo a algazarra no quintal. No se deve ter vergonha dessas coisas. Eu s gostaria de saber por 
que voc segue um caminho diferente.
        Talvez a resposta no fosse to simples como ela acreditava. Nunca estivera apaixonada e por isso fora fcil esquecer as coisas de que mais gostava: lar, 
famlia, crianas . Agora comeava a se apaixonar, e, mesmo que Ryan chegasse a corresponder-lhe aos sentimentos, no ia poder possuir tudo isso, precisava seguir 
outro caminho. Mas o motivo tinha que permanecer em segredo.
        - Se eu nunca me casar e nunca tiver filhos, pelo menos dediquei minha vida s crianas. Por isso  que resolvi ser professora.
        - Vai ser uma boa professora, mas seria uma excelente me. Voc se doa demais, profundamente, e sempre ter dificuldade em se afastar depois. Vai sofrer 
muito em cada perodo de frias.
        Ryan no era o primeiro a dizer isso. Lembrava-se do primeiro estgio, numa cidadezinha no Norte da Flrida. Havia um menininho na sua classe, de olhos grandes 
e cabelos despenteados" que vinha para a aula todos os dias com a mesma roupinha suja e esfarrapada. Stela fizera um esforo enorme para se aproximar dele, elogiando 
quando acertava as lies e ajudando quando errava. Todas as noites voltava para casa pensando no garoto, preocupando-se com ele. Teria alimentao suficiente? Os 
pais judiavam dele? At que finalmente a professora a quem substitua a chamou para uma conversa, Disse que, como o menino, existiam muitas crianas que desapareceriam 
da vida dela dentro de poucas semanas e que Stela no podia fazer nada para mudar a situao. Que devia ser gentil e atenciosa enquanto ele estivesse em sua esfera 
de influncia e at denunciar qualquer violncia contra o garoto, se soubesse disso. Acrescentou que a pobreza era um mal que precisava ser encarado todos os dias 
e todos os cidados conscientes deviam lutar contra ela. Mas o ato de algum no amar o filho no era motivo bastante de punio pela autoridade, Stela precisava 
entender bem essa regra, embora fosse bastante dolorosa.
        Ela ficou revoltaria com a postura fria da outra professora. Se era para encarar o magistrio dessa forma, teria sido melhor escolher outra profisso. Decidiu 
que continuaria lutando pelo que achasse justo, mesmo que o preo fosse o sofrimento por se ver mais tarde afastada daquelas crianas a quem tanto amava, Com os 
sobrinhos de Ryan, agora, era mais ou menos a mesma coisa. Depois que as frias acabassem, eles iriam para um lado e ela.
        - De qualquer modo, pretendo lecionar, - Levantou-se. - Vou ter que aprender a conviver com o lado duro da vida de professora.
        Ao v-la estremecer Ryan estava ao lado dela num instante.
        - Desculpe, Stela. Afinal eu no tenho nada com isso disse enquanto a abraava.
        Nesse contato, ela tremeu ainda mais. Levantou a cabea e viu o rosto atraente bem junto do seu. Os dois se encaravam como se procurassem alguma a verdade 
escondida no fundo dos olhos
        - Voc parece  uma fada dos bosques, com esses olhos verdes e o luar brilhando em seus cabelos - ele murmurou.
        Stela viu quando ele se aproximou mais, bem devagar, e sentiu a doura da carcia mesmo antes que Ryan a tocasse. E este era um beijo de seduo, nada havia 
de brincadeira nele. Era o testemunho sereno da atrao entre um homem e uma mulher.
        O beijo foi se tornando mais intenso, Ryan a abraava com fora, acariciando-a nas costas. Aos poucos suas mos deslizaram sob o pulver de Stela, que se 
lembrou alarmada de que estava sem camiseta por baixo. Mas logo deixou de se preocupar e tambm passou as mos por baixo da malha que ele vestia. Devagar acariciou-lhe 
a pele quente e macia, sentindo a rigidez dos msculos. Explorava cada centmetro, s vezes com as pontas dos dedos, s vezes de leve com as unhas. Essa intimidade 
era algo novo para Stela, que sentia ondas de prazer por todo o corpo.
        - Stella, ser que sabe o que est fazendo ou foi enfeitiada pelo luar? - Ryan murmurou antes de tocar-lhe os lbios outra vez, mais insinuante.
        Era uma boa pergunta, mas aparentemente ela no sabia a resposta. Imobilizou-se por um momento, parando com a explorao. Com um suspiro Ryan se afastou.
        - Minha flor, ser que ningum lhe disse que esse tipo de atitude pode criar problemas?
        Ela endireitou o corpo, afastando-se ainda mais de Ryan.
        - Voc adora me fazer sentir como se eu tivesse s doze anos de idade, no  verdade? Se ainda no reparou,  sou uma mulher adulta.
        -Pode ser uma mulher, mas to inocente quanto um beb, se acha que esse tipo de coisa no leva a nada...
        Stela no conseguiu participar da brincadeira, mesmo desconfiando que aquela era uma manobra para que os nimos se esfriassem.
        - Bem, vou poupar voc de novos ataques. Boa noite. - Virou-se em direo  barraca, mas Ryan a segurou pelo brao.
        - No quero que fique pensando que no aprecio esse tipo de ataque - afirmou srio. - S que temos ainda um ms de belas noites  nossa frente e eu jurei 
que voc voltaria igualzinha ao que era ao sair de casa, doce Stela MacDonald. V com calma, minha flor do Sul, que eu detesto quebrar minha palavra. - E, como se 
quisesse suavizar as palavras deu-lhe um ltimo beijo bem rpido, um simples roar de lbios.
        - Boa noite, Ryan - ela disse com a voz parecendo vir de muito longe.
        - Tenha bons sonhos - ele sussurrou ao deix-la. - Tomara Deus que eu tambm os tenha...
        
        Captulo 5
        O orvalho cobria a grama em frente  barraca, brilhando como se fosse jia  luz dos primeiros raios de sol. Stela abriu com cuidado o zper da entrada e 
saiu em silncio. Ainda era muito cedo, mas a leve neblina prometia um belo dia,
        Depois de passar pelo banheiro do camping, foi seguindo uma trilha que margeava o crrego, imaginando ser uma guerreira ndia  procura de caa. Sua fantasia 
foi premiada ao perceber do lado oposto um casal de gamos. Sentou-se em uma pedra e ficou observando os animais a beber. Um deles levantou a cabea e olhou diretamente 
para ela, sacudindo ligeiramente a cauda. Depois os dois se afastaram, embrenhando-se na mata.
        O crrego era largo e no muito profundo. Stela via no fundo pedras largas e chulas, e resolveu de repente tirar os tnis e enrolar as calas at a coxa 
para caminhar dentro da gua. S que no levou em conta dois fatores: as pedras eram escorrega dias e a correnteza mais forte do que imaginara. Logo estava sentada 
no fundo, com a gua a cobrir-lhe os ombros.
        - J que estou aqui,  melhor fazer o servio completo - resmungou, enfiando tambm a cabea debaixo da gua, os cabelos espalhando-se na correnteza.
        -Stela! Espere, eu j vou indo! - as palavras chegaram meio abafadas e ela levantou a cabea depressa para ver de onde vinham. Ryan caminhava pelo fundo 
escorregadio, abanando os braos como um Dom Quixote contra os moinhos.
        - Calma, Ryan, eu estou bem - ela o tranqilizou enquanto ficava de p com cuidado. - Calma! Voc vai acabar caindo!
        - Sem poder fazer nada, viu sua previso se realizar.
        Ryan emergiu devagar enquanto ela tentava controlar um ataque de riso. Tapou a boca e virou o rosto, mas em seguida sentiu as mos dele em seus ombros.
        - Felizmente nada de grave aconteceu - ele afirmou ao v-la bem. - Voc vai se sentir melhor quando estiver seca.
        - Oh, Ryan. - Stela no conseguiu mais segurar a exploso de riso. - Voc estava com uma cara to engraada!
        Entorpecido pelo frio, Ryan demorou para perceber o bvio. Stela se divertia  sua custa.
        - Ora. sim senhora! - Com um empurro, jogou-a de novo dentro da gua. S que ela, prevendo o ataque, segurou-o pelos braos, conseguindo lev-lo junto para 
o fundo.
        Quando quase conseguia sair, Ryan a agarrou mais uma vez e os dois rolaram de novo. Entre risos, gritos e tombos, ele finalmente conseguiu levant-la no 
ombro, e os dois alcanaram a margem.
        Tremiam como varas verdes, Stela agarrada a Ryan  procura de um pouco de calor,
        - Me diga uma coisa - ele indagou batendo os dantes. - Afinal, o que fazia dentro da gua? 
        - Estava pescando.
        - Ah. ? Sem vara, nem anzol?
        -  Usava o estilo ndio...
        Os braos dele a apertaram mais, provocando-lhe a costumeira reao quela proximidade.
        - Direto para o acampamento, mocinha. Voc vai acabar pegando uma pneumonia, se no se aquecer depressa.
        - Acho que j estou me esquentando - Stela respondeu, levantando os olhos para ele. Com espanto viu que Ryan tambm se sentia atrado, mas que lutava com 
todas as foras contra esse sentimento.
        - Vamos indo, minha querida Stela, vamos indo...
        As meninas comeavam a acordar quando Stela entrou na barraca. Enxugou-se esfregando a toalha com fora para ajudar a circulao nos membros entorpecidos. 
O dia estava esquentando, mas assim mesmo vestiu calas de brim e um agasalho grosso para se aquecer mais depressa.
        Quando as trs saram da barraca encontraram Ryan acendendo o fogo da churrasqueira. David e Jonathan, junto com um garoto de uma das outras barracas, exploravam 
o crrego, do outro lado da estrada.
        - Pensei que voc no gostasse de tomar caf - ela comentou enquanto apanhava os ovos e o bacon.
        - Por algum motivo, meu apetite hoje apareceu mais cedo. Deve ter sido aquele mergulho involuntrio.
        - Sinto muito, Ryan Stela desculpou-se, tentando no sorrir. Mas  que nunca algum havia tentado me salvar antes. Vou guardar para sempre a lembrana de 
voc correndo pela gua para me acudir. -  No conseguiu mais segurar o riso.
        - Ser que tem idia de como parecia uma boba, sentada no meio do crrego com a cabea metida dentro da gua? - ele resmungou fingindo raiva.
        - Ah, e voc gritando para que eu ficasse onde estava?
        - O riso agora ameaava transformar-se numa gargalhada.
        - Para onde achou que eu poderia ir? - Fechou os olhos, fazendo um esforo herico para se controlar. Ao abri-los, viu que Ryan estava bem  sua frente,
        - Nem mais uma palavra, Stela. - De repente, ele a beijou. Foi a maior surpresa de toda a manh.
        Depois de explorarem caminhos no meio da mata, Ryan mandou todo mundo vestir mai e levou-os, cheio de mistrio, a um passeio na caminhonete. Num barraco 
quase caindo aos pedaos ao lado do rio alugaram umas bias estranhas e foram descendo a correnteza, Christy, numa bia reforada, com fundo slido, estava bem segura 
entre os dois adultos e olhava com calma a paisagem, como se nunca tivesse feito outra coisa na vida.
        O sol queimava, mas ao mesmo tempo eles se refrescavam com a gua gelada. Em volta, o panorama montanhoso completava a sensao de sonho.
        - Eu nunca fiz isto antes - disse Stela quebrando o silncio. - Parece que estou no cu.
        - Nunca esteve nas montanhas?
        Stela encarou Ryan, admirando o corpo perfeito e a pele queimada de sol. Um arrepio de excitao a percorreu.
        -  verdade - respondeu com um suspiro. Fazendeiros no tiram frias, principalmente quando tm uma dzia de filhos.
        - Voc parece uma criana no circo,  uma graa de se ver.
        Ela corou.
        - Parece bobagem, mas eu tinha certeza de que, quando um dia viesse s montanhas, iria adorar. Talvez fosse porque cresci aqui perto. Elas me pertencem um 
pouco.
        - Fico contente por ter concretizado seu sonho. Gosto de dar prazer a voc. - Os olhares se encontraram e ele s desviou o seu para evitar bater num tronco 
cado no meio da correnteza.
        Por fim, perto das barracas, saram da gua. Enxugaram-se e vestiram roupas secas, mas quase imediatamente ficaram encharcados por uma repentina chuva de 
vero. Ryan saiu andando na chuva para ir buscar a caminhonete estrada acima, enquanto os outros corriam para catar tudo o que estivesse fora. Com um gemido, Stela 
rasgou um saco plstico de lixo para cobrir a pilha de lenha, mas chegou atrasada, a madeira j estava toda molhada.
        Trocaram de roupa outra vez e ficaram juntos na barraca de Stela escutando a chuva, enquanto Christy, esgotada. adormecia num canto. Stela havia trazido 
escondida uma pequena espiriteira e ali mesmo esquentou gua para fazer um chocolate quente.
        Ryan voltou depois do que pareciam horas de ausncia. Estava encharcado e morto de cansao. Correr montanha acima na chuva era muito diferente do que fazer 
cooper nas suaves colinas de Tallahassee. Aceitou de bom grado uma caneca de chocolate e trocou de roupa enquanto todo mundo mantinha os olhos fechados.
        Por fim a chuva diminuiu de intensidade, restando apenas um chuvisco.
        - Acho melhor comermos um pouco - disse Stela.
        O lcool da espiriteira j acabara o a lenha estava molhada demais, por isso tiveram de se contentar com sanduches frios e saquinhos de batatas fritas.
        Logo depois a chuva recomeou. Felizmente estavam muito cansados com as brincadeiras do dia e quando a noite caiu ningum reclamou de ir para a cama.
        Stela ficou acordada um longo tempo, ouvindo a chuva bombardear o teto da barraca. Pensava nas palavras de Ryan quando dissera que teriam ainda um ms de 
belas noites pela frente. Se continuasse a chover, no iam precisar se preocupar com o autocontrole...  Era melhor assim, mas no entendia por que se sentia to 
desapontada.
        A semana seguinte passou com todo mundo debaixo de capas impermeveis, que por fim tambm foram abandonadas. No que o tempo melhorasse, mas porque assim 
mesmo continuavam molhados. Chateados e aborrecidos, amassavam a lama junto s barracas tentando ignorar a chuva persistente. J no segundo dia no havia mais graa 
em jogo algum, no terceiro ningum mais suportava sanduche e no quarto as crianas brigavam pelos brinquedos, pelos livros, por qualquer motivo.
        A barraca de Ryan comeou a vazar na primeira noite. Os  buracos no eram muito grandes, mas, com o tecido molhado,  no havia jeito de consert-los e por 
fim tinham de secar as poas que se formavam no cho quase a todo instante.
        Na manh do quinto dia, Stela estava sentada  mesa do lado de fora, sem ligar para a chuva fina.
        - Hoje o dia vai melhorar, aposto - comentou com Ryan, que mais uma vez acabara de enxugar a barraca.
        Ele lanou-lhe um olhar furioso.
        - Como  que voc consegue ficar a sentada, toda calma, com toda essa chuva! No consigo entender!
        Stela no fez caso desse mau humor. Passou os dedos pelo cabelo molhado e continuou:
        - Pelo menos no faz frio. A sim, eu ia ficar preocupada. Um pouco de gua no machuca ningum.
        - No estou querendo ser chato - ele retrucou zangado. Mas por acaso voc andou lendo Pollyanna para as crianas? 
        Ela no ligou para a provocao.
        - Acho que a gente devia dar urna volta hoje  tarde. Mesmo que esteja chovendo, pelo menos a gente sai um pouco de dentro dessas barracas.
        - V voc dar uma volta! - Ele se afastou, irritado.
        Nessa noite os meninos passaram para a barraca das mulheres e Ryan dormiu sozinho na caminhonete.
        Na manh seguinte, Ryan, j desesperado, resolveu levar todo mundo para tornar caf fora. Andaram uma boa distncia at encontrar uma lanchonete num vilarejo. 
Estavam em condies to lastimveis que quase foram postos para fora, mas a mulher do dono ficou com pena e arranjou para eles um cantinho meio escondido.
        Segurando com as duas mos a primeira xcara de algo quente que bebia em vrios dias, Stela perguntou a Ryan:
        - Bem, e agora, o que vamos fazer?
        A previso do tempo avisa que as chuvas devem terminar logo. Ser que voc agenta mais um ou dois dias?
        - Claro, tudo bem comigo. As crianas vo sossegar assim que parar de chover.  que esto cansadas de ficar fechadas.
        - Eu tambm... Isso no so frias, a gente passa o tempo todo apenas tentando se manter seco... - Ryan esticou as pernas e roou nas de Stela. Ela mal pde 
conter o susto.
        Era o primeiro contato fsico entre os dois desde que as chuvas haviam comeado e Stela tinha quase se obrigado a acreditar que no havia nada entre os dois. 
Imaginava que devia existir muitos homens que pudessem causar reao semelhante. S que at aquele dia no conhecera nenhum, e, mesmo que tivesse conhecido, talvez 
no chegasse nem a simpatizar com eles. Mas sabia que gostava de Ryan Cunningham.
        De fato, era bem mais do que isso. Naquela noite, sob as estrelas, dera-se conta de que comeava a se apaixonar por Ryan e agora, molhada e aborrecida, sentada 
ali na lanchonete miservel comendo um lanche gordurento, tinha certeza de que o amava.
        - Ei. Stela? - Ryan chamou, observando-lhe o rosto. - Em que est pensando?
        - Nas estrelas e cm lanches gordurosos. - "E na impossibilidade do amor", acrescentou para si.
        - Mame! - Christy gritou.
        Ryan ficou observando, enquanto Stela servia a menina.
        - Ela continua chamando voc de mame...
        - .. Estou tentando convenc-la a me chamar de Stela, mas s vezes ela se esquece.
        - Eu acho que a palavra combina com voc - ele insinuou baixinho.
        Uma nuvem escura desceu sobre o corao de Stela. Talvez o papel combinasse com ela, mas a maternidade nunca seria possvel.
        Eles ainda agentaram mais dois dias. s vezes o sol chegava a sair, comeando a secar as poas, mas no durava muito. Logo o tempo fechava e a chuva pesada 
voltava a cair.
        - Agora sei como  que No se sentia. - Ryan tentava brincar, depois de uma semana inteira debaixo de chuva.
        - Compreendo como voc deve estar se sentindo. A idia do acampamento foi tima, mas...
        - Mas?...
        - No est dando certo. - Stella passou a mo pelos cabelos que tinham acabado de secar e estavam um pouco crespos. Deu uma espiada no cu e achou que no 
adiantava pente-los pois logo, logo, mais gua cairia.
        Se at amanh a chuva no parar, prometo que vamos dar um jeito. J lhe disse que tem um enorme esprito esportivo?
        Stela ficou contente com o elogio. Mas no era exatamente o que gostaria de ouvir dele.
        Nessa noite, na barraca das mulheres, enquanto ouviram o constante rudo da chuva, acabaram com a ltima lata de sardinha e com o ltimo pote de gelia. 
Ryan tinha sado para dar uma volta, ou para amassar lama, come dizia Caroline. As crianas no paravam de se lamentar.
        - Meu saco de dormir est encharcado outra vez - exclamou David.
        - E o meu ento, que nunca chegou a ficar seco - gemeu. Jonathan.
        Aos poucos eles foram se acalmando e dormiram.
        O eterno cair da chuva era o nico rudo... a no ser o do ribeiro. O marulhar do crrego geralmente embalava o sono de Stela, mas nessa noite ele no estava 
nada musical.
        Ela resolveu investigar. Pegou a capa, tomou cuidado para no pisar nas crianas e saiu para a chuva. Viu que tinha se esquecido da lanterna, mas no quis 
se arriscar a acord-los. Esperou um pouco debaixo de um puxado feito de lona, at os olhos se acostumarem com a escurido, e depois seguiu at a margem.
        Perto da gua havia uma figura estranha e quando de repente esta se mexeu Stela deu um pulo, preparada para correr para, a barraca.
        - Stella, venha ver uma coisa.
        - Ryan, voc quase me mata de susto! O que est fazendo?
        - Acho que a mesma coisa que voc. - Ele fez um gesto para que se aproximasse. - O crrego est subindo. Fiquei observando o dia todo e no gosto nada do 
jeito dele.
        - Se houvesse mesmo perigo ser que o pessoal no ia nos avisar?
        - J falei com o encarregado. Eles esto prestando ateno, e no estamos em perigo... por enquanto.
        - Ser que devamos ir embora?
        - A gente j devia ter ido h muitos dias. - Apesar da escurido, dava para perceber que Ryan no se sentia contente consigo mesmo. - Eu queria muito que 
este acampamento tivesse um significado todo especial para as crianas e no percebi a hora exata de desistir...
        - Ah, mas at que eles tiraram algum proveito da experincia - ela argumentou, tentando ajudar,
        - O qu?
        - Como no se afogar...
        Ryan acabou caindo na risada e os dois se abraaram. Stela tentava esconder o sentimento real que existia sob o abrao amigo.
        - Ah, minha flor sulina, voc  mesmo fora de srie!
        Voltaram para a barraca de braos dados e ao chegar  porta Ryan avisou:
        - No vou dormir na caminhonete, quero ficar mais perto do riacho para observar melhor o que acontece.
        - Sua barraca est ensopada - Stela avisou preocupada. - Vai dormir dentro de uma lagoa, se insistir em ficar l.
        - Eu sei. Vou dormir aqui com vocs.
        - Mas no tem lugar, Ryan - ela respondeu, sentindo-se confusa s com a idia de ele dormir ao seu lado.
        - Temos que dar um jeito.
        Na verdade, s havia um lugarzinho, entre Stela e Jonathan, de onde tambm ficava mais fcil para ele alcanar a porta sem perturbar as crianas, no caso 
de precisar sair.
        - D para voc me ajudar com esse saco de dormir? - ele pediu depois de acomodar melhor as crianas.
        Ela fez que sim com a cabea e tentou brincar:
        - Voc vai se arrepender. Dizem que eu chuto muito e me mexo a noite toda.
        - E me diga: quem  que sabe desses detalhes?
        Ela ficou vermelha, satisfeita por estar escuro e ele no poder notar.
        - Minhas irms,  claro. 
        - Claro...
        Com a maior calma possvel ela tirou a capa e os tnis, e depois o agasalho, ficando s de camiseta e as calas molhadas. No havia outro jeito. Deitou-se, 
puxou o cobertor e ficou olhando Ryan se despir.
        A capa de chuva caiu no cho, seguida pelos sapatos e o pulver, mas ento ele tambm tirou a camiseta e as calas molhadas, ficando apenas de cuecas. Ela 
fechou os olhos.
        - Stella, eu bem que compreendo sua modstia, mas, se no tirar essas calas molhadas, eu vou a arranc-las!
        Ryan tinha razo, as calas estavam encharcadas, mas s a idia de se deitar quase nua junto dele a deixava apavorada.
        - Est tudo bem - insistiu. - Elas acabam secando.
        - Tire, seno cumpro o que prometi!
        Ela foi tirando devagar, escondida debaixo do cobertor e por fim explodiu:
        - Pronto! Satisfeito?
        - A est uma pergunta interessante... agora divida o cobertor comigo.
        - Ache um cobertor s para voc!
        - Vamos dividir, Stela.
        Ela sentiu que Ryan se aproximava, as mos puxando o cobertor de l macia e concordou depressa:
        - Tudo bem...  tudo bem. Tome o cobertor. - Com medo, virou-se de lado.
        Ryan prendeu o cobertor  volta de ambos e assim se aproximou mais ainda. Com um suspiro de prazer, passou-lhe o brao pelos ombros. Se seus dedos chegassem 
alguns centmetros mais, abaixo, ela teria todo o motivo para dar um lapa. Stela continuou rgida, desejando poder respirar normalmente outra vez.
        - E ento, assim no est melhor? - Ryan perguntou com o rosto enterrado nos sedosos cabelos dela.
        - Melhor que o qu?
        - Calma, Stela... eu no vou fazer nada... s vou ficar abraado a voc. S por esta vez, deixe-me ficar assim te abraando, t?
        Ela tinha certeza de que Ryan percebi o corao disparado e todos os msculos tensos. Mas ele parecia no se importar.
        - Como  bom ficar junto de voc... - ele murmurou ao comear a adormecer. - Minha doce florzinha do Sul...

Captulo 6
        Ao acordar no dia seguinte, Stela sentiu os dedos de Ryan acariciando bem de leve seus mamilos e descobriu horrorizada que durante a noite ela mesma havia 
colado seu corpo ao dele,
        - Quem disse que voc chuta e se mexe a noite toda estava brincando - ele murmurou-lhe ao ouvido com uma voz sensual.
        - Voc se aconchega e suspira como uma garotinha abraada ao ursinho de estimao. Dormir com voc  uma experincia fabulosa.
        Stela no se sentia como uma garotinha. Com a mo dele em seu seio e sentindo o calor que emanava daquele corpo. sentia-se mais como uma mulher prestes a 
se entregar. E o pior  que no  conseguia descobrir o que havia de to errado nisso...
        - Vire-se e me d um beijo de bom dia, minha flor, Ryan  puxou-a com facilidade de frente para ele. Por um instante ficaram deitados face a face, numa posio 
bem intima.
        Stela j nem conseguia respirar. Mesmo com pouca experincia com os homens, percebeu que Ryan tambm estava muito excitado. Aos poucos ela foi relaxando, 
deixando o corpo colado ao dele. Ao olh-lo notou-lhe o desejo estampado no rosto.
        - Sabe que pela manh seus olhos so da cor de jade? s vezes parecem topzios, outras, jade. - Ryan pareceu perceber a confuso de sentimentos de Stela 
e acrescentou: - s vezes demonstram muito receio.
        O beijo foi delicado, calmo, e ela pde sentir o corao de Ryan batendo to forte quanto o seu.
        - Tio Ryan, isto aqui est molhado demais! - uma vozinha reclamou do outro lado da barraca. - No quero mais acampar...
        E como se todos estivessem s esperando uma deixa, logo se ouviu uma srie de lamrias:
        - Quero voltar para a Flrida. Isto aqui no tem graa nenhuma.
        E at Christy resmungou:
        - T  moiado...
        Ryan havia se afastado de Stela ao som da primeira voz, e agora vestia as calas debaixo do cobertor.
        - Vocs tm razo. S que no podemos voltar para a Flrida por enquanto. A nossa casa est sem telhado.
        Enquanto isso, Stela se vestiu depressa. Amarrou os tnis com dedos trmulos e em silncio agradeceu a presena das crianas.
        - Tudo bem, prometo que no ficaremos aqui nem mais uma noite, ainda mais com o riacho ameaando transbordar.
        - E para onde vamos, ento? - Stela perguntou, curiosa.
        Tenho uma amiga corretora de imveis l em Highlands e ela vai nos alugar um chal num vale aqui perto. Mesmo que chova ficaremos melhor acomodados. E, se 
no chover, vamos poder explorar uma regio muito bonita.
        Arrumaram tudo debaixo de chuva, to animados que no se incomodaram com o aguaceiro. Stela j no tinha uma s pea de roupa seca para vestir.
        'Ser mesmo que quase fui Miss Gergia?', indagou a si mesma, observando-se no espelho lateral da caminhonete. Estava imunda.
        Ansiosos para chegar logo em Highlands, pararam s para comprar salsichas, po e suco de laranja que comeram no carro mesmo. As montanhas ficaram mais escarpadas, 
a estrada mais estreita e mais ngreme e a paisagem bem mais interessante. Passavam por cachoeiras lindas, que caiam do alto de despenhadeiros. As florestas estavam 
pintadas de rosa e lils, das quaresmeiras em flor. Nada era simples e comum nas montanhas, tudo aparecia em destaque tanto na forma quanto na cor.
        A cidadezinha de Highlands era uma graa. Tudo muito bem cuidado, pois dependia do turismo, mas, ao contrrio de outras cidades maiores da regio, misturava 
uma certa elegncia com a beleza natural. Na rua principal, havia vasos com gernios vermelhos em frente a todos os edifcios, e o pessoal em frias podia admirar 
tambm as vitrines de diversas butiques.
        Ryan estacionou a caminhonete em frente de um prdio de tijolinhos, onde ficava a agncia imobiliria.
        -  melhor todo mundo sair, isto talvez demore um pouco avisou.
        Stela deu uma olhada nas calas enlameadas e se negou a descer, mas Ryan insistiu:
        - Quero que voc conhea Myrna Lou, tenho certeza de que vai gostar dela.  uma boa amiga.
        Myrna Lou era mesmo uma boa amiga... dos homens. Stela se sentiu como num buraco ao dar a primeira olhada para a moa. Ela era mesmo uma perfeio... os 
cabelos de um loiro quase prateado e uma maquiagem impecvel enfatizando os belos olhos azuis. A roupa devia ser de uma das tais butiques: blusa de seda vermelho-cereja 
e saia branca, de corte perfeito, com uma pequena ma aplicada, da mesma cor da blusa.
        - Mas Ryan, onde voc descobriu essa mocinha? - ela perguntou depois de ser apresentada a Stela. Foi tima a idia de contratar uma estudante para te ajudar 
com as crianas durante as frias. - Myrna Lou levantou os olhos para ele de maneira bem insinuante. - S estou surpresa de a me dela ter permitido. Voc, com tanta 
fama.. - A corretora virou-se para Stela, que percebeu um ar malvolo nos lindos olhos azuis.
        - Stela no  uma criana. - O brao de Ryan estava  volta dos ombros de Myrna Lou enquanto ele a corrigia. -  apenas uma amiga que resolveu me ajudar 
com os meus sobrinhos.
        - Oh, mas quanta bondade...  - a moa deixou escapar por entre os lbios bem pintados. - Voc deve ser do tipo maternal, no,  querida?
        Stela no conseguia compreender como o fato de ser do tipo maternal soava como uma blasfmia nos lbios da outra.
        - Com licena - Stela disse com doura. - Ryan, se voc no se incomoda, ns vamos esperar l fora. David e Jonathan querem dar uma olhada por a.
        Na opinio de Stela, Ryan demorou demais, e quando ia saindo ainda deu um beijo em Myrna Lou, cujos olhos cintilavam.
        - Adeus, Stela. gostei de conhec-la. Tenho certeza de que vai adorar o chal. L tem bastante sabo e gua quente, e tambm uma lavadora e secadora de roupas.
        S a uns dez quilmetros da cidade  que Stela se acalmou. Ora, vejam s... lavadora e secadora... E ela ficou se divertindo em imaginar como  que seria 
a aparncia da outra, se tivesse passado uma semana acampada na chuva com quatro crianas. Aquele cabelo oxigenado no seria to chique se estivesse cheio de lama 
e sem aquelas roupas sofisticadas, ela... na verdade, Myrna Lou seria fabulosa mesmo molhada e suja! "Bem feito para meus pensamentos de vingana", pensou Stela.
        Um pouco mais adiante, ao reparar na paisagem magnfica  sua frente, ela acabou se esquecendo do beijo de Ryan em Myrna Lou. Passavam por uma estradinha 
de terra ladeada por enormes rvores de madeira de lei e, no meio delas, lindos chals. s vezes, vislumbravam um enorme penhasco, que Ryan disse ser o monte Whiteside, 
um dos mais antigos da Amrica do Norte.
        De repente, ele acelerou, subindo por um caminho de pedras. Depois desceu mais um pouco, acabando por parar em frente a um chal de troncos, construdo no 
meio de um bosque de casuarinas e accias.
        -Todo mundo para fora - avisou, abrindo a porta do carro:
        - Ryan, ser possvel? - indagou Stela espantada.
        Ele virou-se e observou-a por um instante.
        - Ser que voc ainda  a mesma garota que ficou acampada debaixo de chuva por uma semana sem reclamar uma nica vez? Ser que um chal rstico  assim to 
desapontador?
        - No  isso! - Ela espantou-se ainda mais por ele no ter compreendido. - Estou achando maravilhoso! Nunca imaginei que chegaria o dia de passar uma temporada 
num lugar como este.  perfeito!
        Ryan passou devagar o dedo pelo rosto dela.
        - Ento fico satisfeito por poder compartilh-lo com voc.
         Por dentro o chal tambm era perfeito. Passando por uma varanda larga entrava-se numa sala com cho de tbuas polidas como espelho. Ali havia uma enorme 
lareira de pedra e, na parte de cima, um mezanino com balastres de madeira.
        A discusso entre as crianas sobre quem ia dormir no mezanino no demorou. Ryan resolveu que precisaria haver troca e os gmeos exigiram a primeira noite. 
O resto do chal era tambm muito confortvel, com dois dormitrios e um banheiro grande. Para Stela, que quase esquecera o que era gua encanada, tudo aquilo parecia 
sado de uma revista de decorao. Alm disso, nos fundos, depois de uma cozinha muito bem planejada, havia outro salo, tambm com lareira, que dava para um terrao 
de onde se tinha uma belssima vista do monte Whiteside.
        - Foi voc o arquiteto desta casa, Ryan?
        - No, Stela, na verdade a construo  mais velha do que eu, mas numa das vezes em que estive aqui, visitando a Myrna Lou, fui consultado sobre a restaurao. 
Faz muitos anos que este local pertence  famlia dela, mas Myrna Lou nunca vem aqui. O chal est  venda.
        Stella no conseguia imaginar por que algum em seu juzo perfeito ia querer vender aquela casa.
        - Espero que a pessoa que comprar goste daqui, Ryan.
        Levaram a bagagem para dentro, deixando na varanda tudo o que estava sujo ou molhado. Afinal, muito pouca coisa chegou a entrar... Como o sol brilhava como 
nunca, Ryan e Stela esticaram as barracas no jardim para que secassem e em seguida arrumaram o resto da bagagem.
        Depois de tomar uma bela ducha quente, Stella sentia-se como nova.
        Por ironia, agora que se encontravam a salvo, na semana seguinte o tempo se firmou e, para compensar pelo desastre do acampamento, Ryan se esforou para 
que todos se divertissem bastante. Exploraram trilhas na montanha, parando para brincar nas transparentes piscinas naturais formadas no sop das cachoeiras. Pescavam 
nos regatos e traziam trutas fresquinhas, que eram limpas e preparadas por Ryan num piscar de olhos.
        Visitaram o vilarejo de Highlands e a vizinha Cashiers, espiando as lojas que vendiam as pedras preciosas do lugar. Um dia foram ao vale Cowee para visitar 
uma mina e tentar a sorte na procura de safiras e rubis. Stela, sentada num campo aberto, com o sol trrido a queimar-lhe a pele atravs da blusa fina, olhou em 
volta e reconheceu que nunca havia se sentido to feliz.
        As crianas e Ryan estavam aglomeradas ao lado do encanamento de madeira que levava gua para lavar a teima que eles haviam comprado aos baldes. Caroline 
encarava a tarefa com toda a seriedade, certa de que ia acabar encontrando um belo rubi perfeitamente lapidado, mas foi Stela quem encontrou uma pedra, to pequenina 
que tinha ficado encaixada debaixo da unha quando ela, desanimada, havia jogado fora a ltima poro de terra lavada. Era bem cor-de-rosa, e para todos eles foi 
a coisa mais linda do mundo. A velha que cuidava da mina riu da expresso espantada dos visitantes e, ao abaixar-se para remexer no monte de terra perto dos ps 
de Caroline, apareceu com uma lasquinha de safira. No era uma pedra, claro, mas um pedacinho de safira.
        -So muito difceis de encontrar - ela garantiu  menina. - Mas esta pertence a voc. Estava bem debaixo de seu p.
        Na volta pararam em uma das muitas joalherias de Franklin, cidade conhecida como centro de pedras preciosas, e compraram uma corrente de ouro com uma pequena 
bolha de vidro onde foram guardadas a safira e o rubi. Caroline colocou a corrente com o orgulho tpico de unia criana. Ryan veio o caminho todo provocando Stela, 
porque ela quis trazer a terra que haviam comprado e no tinham tido tempo de examinar.
        - Voc vai ver uma coisa, quando eu e Caroline encontrarmos um rubi valendo milhes  - ela desafiou.
        - Que nada eu  que estou gastando milhes s para trazer essa terra toda - ele retrucou rindo.
        Ryan permaneceu de excelente humor a semana toda, amoroso e engraado com as crianas, estreitando os laos da nova famlia.
        Os laos entre Stela e as crianas tambm ficavam mais fortes, apesar de ela reconhecer que devia evitar que isso acontecesse. Gostaria de se afastar um 
pouco, mas tinha muita pena daquelas criaturinhas que j haviam perdido tanta coisa na vida, e no queria mago-las. Sempre que se aproximavam em busca de amor e 
afeto, tentava fazer com que se dirigissem a Ryan, mas quando ele no se encontrava por perto, Stela os acarinhava, e sentia que entregava mais o corao a cada 
dia que passava.
        Sem a intimidade forada do acampamento, Ryan e Stela conseguiam manter certa distncia. Os dois faziam as tarefas domsticas juntos, mas no se repetiram 
os momentos de intimidade. Parecia at que Ryan a evitava e s vezes Stela achava que tinha imaginado a cena daquela manh em que acordara nos braos dele.
        Ryan devia estar ocupado em abraar Myrna Lou. Pelo menos era isso que Stela acreditava, quando ele ia para a vila, depois de as crianas terem ido se deitar. 
Ryan saa todas as noites e deixava o nmero do telefone da outra garota para qualquer emergncia.
        Stela, que sempre se achara acima de crises de cime, se desconhecia. Era bem verdade que Ryan sempre voltava para dormir em casa, mas ela se sentia desesperada 
nas poucas horas em que ele se ausentava.
        E foi essa dura realidade que fez com que se convencesse de que estava mesmo apaixonada, pois s o amor no correspondido podia deix-la to aborrecida e 
to sem nimo.
        - Por que est com essa cara, minha flor do Sul? - Ryan a provocou numa manh, enquanto tomavam caf ouvindo a algazarra das crianas que brincavam no jardim.
        - Sonhando acordada - ela respondeu caindo na realidade. Ryan, ao contrrio, parecia muito satisfeito. - Mas voc est com cara de quem andou aprontando... 
- acusou-o de repente. - Deve ter aproveitado muito esta semana.
        - E por que a minha flor diz isso como se fosse uma coisa ruim? - A voz dele continuava alegre. - Ser que fiz algo errado?
        - E como  que posso saber? - Stela no conseguiu ficar mais ali, levantando-se da mesa para lavar a loua. - No tenho nada com isso, a vida no  minha... 
Pode ir em frente que eu nem ligo!
        - Stela, conte aqui para o tio Ryan o que se passa. - Ele a abraou, puxando-a para si.
        - Voc no  meu tio, Ryan - Stela observou severa, tentando no ficar entusiasmada s por causa daquele abrao casual.
        -  verdade, no sou mesmo - ele murmurou num tom baixo e sensual, juntinho ao ouvido dela. - Ainda bem, no acha?
        - Para mim isso no faz a menor diferena, no faz mesmo.
        - Ento por que seu corao est batendo to forte?
        - Escute, Ryan, vamos com calma... No sou como a maioria das mulheres que voc conhece, no consigo encarar esse tipo de contato assim com tranqilidade. 
Por favor, tire as mos de mim.
        Quando ele se afastou, Stela sentiu uma espcie de vcuo entre os dois. Virou-se, sabendo que lhe devia uma explicao, mesmo que no fosse completa.
        - Desculpe, Ryan, acho que estou de mau humor. Talvez tanto divertimento no combine muito comigo.
        - E talvez haja mais alguma coisa te aborrecendo Ele a acariciou, passando de leve o dedo indicador pelo seu rosto. -  Diga o que h de errado.
        Apesar da profunda conscincia do desejo de que ele a abraasse, Stela MacDonald no podia permitir que isso acontecesse. Mais uma vez mentiu:
        - Todo mundo tem um dia pssimo na vida. Acho que hoje  um dos meus, sinto muito.
        - Coragem, garota! Vou dar um jeito nisso para voc. Stela esperava um beijo, que parecia quase tangvel entre eles, mas estava claro que Ryan havia levado 
a srio o aviso sobre o abrao de pouco antes. No a tocou, apenas avisou: - V colocar o mai que eu chamo as crianas. Ontem me contaram sobre um novo lugar que 
vocs vo adorar.
        E ela adorou. Seguiram acima pela estrada do chal e pararam a vrios quilmetros de distncia. Depois tomaram  uma trilha, mato adentro, at uma praia de 
areia branca s margens do Chattooga. O rio, naquele local, tinha uns dez metros de largura e no era muito fundo, perfeito para nadar. Mas o melhor de tudo  que 
um pouco adiante corria por uma laje lisa, ideal para escorregar.
        Ryan ensinou-os como subir pela margem com o auxlio de um cip. Em seguida caminhou com cuidado at o meio da laje, sentou-se e deu um impulso com o corpo. 
Desceu escorregando e caiu na piscina cristalina que se formava logo abaixo.
        Stela foi a seguinte. Subiu com certo receio. De algum modo, do alto da laje, a descida parecia muito mais ngreme, mais perigosa, mas havia oito olhos infantis 
grudados nela, e mais dois bem adultos. Com um suspiro de resignao deu o impulso, mas errou no clculo e acabou caindo num buraco redondo, mas ao lado da laje. 
Ergueu-se sob aplausos. Depois de alguns minutos de brincadeira na gua gelada, terminou o trajeto caindo bem aos ps de Ryan, dentro da piscina.
        As crianas maiores logo se animaram e subiram o barranco junto com o tio, enquanto Stela e Christy aguardavam embaixo. Um de cada vez foi escorregando e 
ningum queria mais parar.
        Depois de horas, fizeram um piquenique na praia. Stela estava encantada, e as crianas felizes como nunca.
        - Como , j passou a crise de mau humor? perguntou Ryan enquanto os dois acabavam com os biscoitos da cesta e os sobrinhos voltavam a brincar na gua.
        - Quase, quase...  - Stela respondeu acariciando a cabea de Christy que, cansada depois de escorregar diversas vezes no colo de Ryan, havia adormecido sobre 
uma toalha, ao lado deles. - Obrigada.
        - No h de qu. Toda vez que estiver aborrecida,  s me contar que logo providenciarei um milagre da natureza para lhe devolver o bom humor.
        Ela, que intimamente achava o prprio Ryan um milagre da natureza, apenas sorriu.
        Mas a alegria de Stela durou s at aps o jantar. Ryan, sempre atento e prestativo com as crianas, saiu de casa como um foguete assim que a ltima delas 
tinha ido para a cama. Stela ficou observando, louca da vida, fazendo votos para que um pneu furasse no caminho para Highlands.
        Com a noite toda pela frente, sentia-se como numa priso. Antes, sempre achava algo com que se distrair, mas nesse dia nada parecia satisfaz-la. O chal 
possua tudo de mais moderno em divertimento e ela experimentou ligar a televiso na sala dos fundos. No nico canal mais ntido, passava uma novela, mas, depois 
de ficar vendo durante algum tempo, reparou que no sabia nem quem era o heri e resolveu desligar. Foi at a estante, e surpreendeu-se ao verificar que Myrna Lou 
tinha o mesmo gosto literrio que ela. Praticamente j lera todos os volumes, menos um livro grosso, um romance histrico. la comear a folhe-lo quando o toque 
do telefone a assustou.
        Ryan j recebera vrios telefonemas de negcios desde que haviam chegado, mas nunca  noite. Esse era mesmo diferente. Stela reconheceu o nome de um dos 
advogados mais conhecidos de Tallahassee e apreensiva anotou o recado. O homem no esclareceu muita coisa, apenas pedia que Ryan entrasse em contato com ele com 
a maior urgncia.
        Verificou a hora, e achou que no devia incomodar Ryan na casa de Myrna Lou. Guardou o livro e gastou a hora seguinte mexendo no banheiro: lavou a cabea, 
fez as unhas, e, por fim, j aflita, esfregou a banheira que no estava suja.
        Adormeceu no balano da varanda, de camisola e robe, quando finalmente Ryan apareceu.
        - Stella - ele sussurrou. - A ltima vez que algum ficou esperando por mim, eu tinha dezoito anos e meu pai havia me emprestado o carro pela primeira vez. 
 muita considerao.
        Stela abriu os olhos, deu um suspiro e falou baixinho:
        - Estou contente por ter chegado. - E novamente adormeceu.
        - Vamos, minha flor do Sul, vou lev-la para a cama. - Ryan pegou-a no colo com toda a facilidade, mas o contato fez com que ela acordasse.
        - Ponha-me no cho - disse, apavorada.
        Com toda a calma, ele afrouxou os braos e ela escorregou ao longo do corpo dele, tentando lembrar o que fazia ali naquele traje. A lembrana veio como um 
raio.
        - Ryan, seu advogado telefonou. Pediu que voc o chamasse logo que voltasse, no importava a hora.
        - Mas por que voc no me avisou na casa de Myrna Lou?
        - No quis atrapalhar vocs dois - ela retrucou, o nariz para cima.
        - Eu no ia me importar, afinal plantas no so assim to importantes.
        - Plantas?
        -  isso mesmo. Afinal, o que pensa que eu fao na casa dela? Estamos estudando alguns projetos para um condomnio no vale da Safira. Tento fazer de tudo 
para que haja o menor dano possvel ao meio ambiente.
        - Bem, no foi isso que eu entendi quando voc avisou que ia para a casa dela fazer um trabalho de amor. - Stela sentia-se envergonhada.
        Ryan encarou-a espantado e caiu na gargalhada.
        - Ora, minha flor, voc  mesmo...
        - J sei, sou fora de srie... Agora v telefonar para o advogado.
        As notcias no eram boas. Da cozinha, onde preparava caf, Stela ouvia a voz de Ryan cheia de raiva. Ao escut-lo batendo o telefone, apareceu na porta 
e perguntou preocupada:
        - Posso ir a sem perigo? - O rosto de Ryan demonstrava tanta aflio que ela imediatamente se arrependeu da brincadeira. - O que foi que aconteceu, Ryan?
        Com um olhar para o mezanino, ele fez um sinal para que falasse mais baixo.
        - Ah, meu Deus...  espero que Caroline no tenha escutado.
        Stela deu uma subida e depois de verificar foi com ele at a varanda.
        - Ela est dormindo. Quer me contar o que h de errado ou prefere ficar sozinho?
        Ryan, de p junto  grade, batia com o punho no balastre. Demorou um pouco para responder.
        - A tia das crianas entrou com um processo na Justia para conseguir a custdia. Meu advogado diz que a mulher tem todas as chances de ganhar.
        - Mas por qu? Eles so felizes com voc... - Stela ficou horrorizada.
        Ryan virou-se para ela com o rosto vincado por rugas de preocupao.
        - Infelizmente a tia  uma pessoa sem escrpulos e visa unicamente a herana dos garotos. Tom e Janelie eram muito ricos e as crianas tm direito a uma 
boa fortuna. O dinheiro est vinculado, mas aposto que essa mulher descobrir um jeito de usufru-lo.
        - Mas por que seu advogado acha que ela vai ganhar a ao?
         Stela tinha desabado sobre o balano, que ia e vinha bem devagar.
        - Porque simplesmente ela  um dos pilares da sociedade do lugar onde mora. Alm de ser casada com um boboca que no abre a boca para nada. Para o juiz, 
os dois vo parecer os tutores ideais. E eu no....
        - Mas, Ryan, voc  fabuloso com as crianas!
        - Claro, claro... mas v dizer isso ao juiz. Eu faria qualquer coisa para ficar com meus sobrinhos, menos contratar um assassino. Voc no tem a menor idia 
de como era a minha vida antes da tragdia... - O desnimo se apossava dele. - Possua uma fama terrvel. Quando no estava trabalhando, vivia em festas, construindo 
minha reputao de Casanova... De repente, eu digo que vou me acalmar e que vou cuidar de quatro pequenos rfos... Quem vai acreditar numa coisa dessas?
        - Mas voc tem amigos que podem testemunhar como trata bem as crianas: Margie, Ron... eu... - Stela argumentou, tentando lembrar-se de mais gente.
        - Stella, estas frias no vo ser levadas em considerao.
        Ao sentar-se no balano Ryan parecia vinte anos mais velho.
        - Mas tem que haver alguma coisa que voc possa fazer, Ryan! - Stela no conseguia mais conter os soluos. - O advogado no lhe deu nenhuma idia?
        - ... deu sim... - ele retrucou com um sorriso sem alegria. - Disse-me que arranjasse logo alguma boa moa e me casasse rapidinho...
        De repente, ela percebeu que a noite estava excepcionalmente quieta. Os grilos, as corujas e as rs haviam desaparecido. E as palavras de Ryan ainda ecoavam 
na escurido silenciosa.
        - Stella. - Com suavidade ele tomou-lhe o rosto. - Sei no que pensa e sabe muito bem que no vou permitir que faa isso por mim.
        - No conhece mais nenhuma moa, Ryan?
        Novamente o imenso silncio, enquanto Stela esperava...  esperava.
        - Conheo duas que se casariam comigo num minuto ele respondeu por fim. - Uma j se divorciou trs vezes e a outra detesta criana.
        - E a Myrna Lou?
        - Ela  a ltima...
        - Ryan...  - Stela tomou flego. - Existem trs que se casariam com voc em um minuto, e eu seria a melhor escolha na opinio do juiz. - Tinha acabado de 
propor casamento a ele e tal atrevimento a deixou perplexa, fazendo com que escondesse o rosto entre as mos.
        Sentiu os dedos quentes, de Ryan erguendo-lhe o rosto, Olharam-se at que ele a beijou com o respeito de um amigo.
        - Claro que no posso fazer uma coisa dessas - afirmou srio. - Gosto demais de voc para arruinar sua vida.
        Mas eu tambm adoro as crianas - gaguejou Stela. "E tambm te adoro", pensou, "mas voc  cego demais para perceber". - No posso suportar a idia de v-las 
longe de voc, junto com algum que no as ame bastante. - "E no posso suportar a idia de v-lo casado com outra pessoa", continuou silenciosamente,
        Ryan estava de p, pensativo, encostado no pilar da varanda.
         - Stela, ser que algum nunca lhe disse que no se deve passar a vida toda tentando salvar outras pessoas?
        - Ryan, a idia de se casar comigo  assim to horrvel? - ela comentou com um fio de voz.
        - Minha bela flor do Sul, no quero estragar sua vida. Ainda  jovem, linda, pronta para um casamento de verdade, para ter seu marido e seus filhos. - Ryan 
sacudiu a cabea. Filhos do seu prprio ventre. No pode se negar a essa alegria.
        - Ryan. - Ela levantou-se e encarou-o, com lgrimas escorrendo-lhe pelas faces. - No posso ter filhos! Se  para eu ser me, vou ter que ser das suas crianas. 
Ser que no pode me dar esta oportunidade?

Captulo 7
        Ryan estendeu os braos, puxou-a para si e enxugou-lhe as lgrimas. Quando Stela parou de chorar, guiou-a at o balano e a colocou no colo. "Minha cabea 
se encaixa direitinho no ombro dele", ela pensou entristecida.
        - Conte para mim - ele pediu afastando-lhe os cabelos do rosto molhado. - Diga o que significa isso.
        - Voc quer mesmo saber dos detalhes? - Ela engoliu em seco e suspirou. -  muito duro falar sobre isso.
        - Conte para mim, Stela, por favor.
        Ela queria desabafar, devia isso a Ryan, mas era muito difcil comear.
        - Foi no ano do concurso para Miss Gergia. Eu tinha acabado o colgio no ano anterior e trabalhava durante o dia num banco.  noite ajudava meus pais. - 
Parou e suspirou de novo. Ryan beijou-a de leve nos cabelos e insistiu:
        - Continue.
        - Meu pai resolveu construir uma granja na fazenda, voc sabe... galinhas, e deu muito mais trabalho do que imaginvamos. A famlia toda precisou ajudar 
mais do que nunca. Ao mesmo tempo me encontrava envolvida com os preparativos do concurso.
        - E...
        - Eu estava esgotada. Trabalhava o dia todo, poupando para pagar a universidade, ajudava horas e horas durante a noite e ainda tentava ser uma rainha de 
beleza. No conseguia descansar e perdi muito peso, o que o pessoal do concurso achou timo. Fiquei com um corpinho de manequim.
        - No consigo enxergar isso - ele disse baixinho apertando-lhe a cintura.
        - Mas foi verdade. Na poca do concurso eu estava um caco, esgotada, fraca e doente, mas no liguei para os sintomas e fui em frente. Nunca fiquei doente 
antes e no reconheci os sinais. Na noite do concurso enfrentei tudo como se fosse um autmato e desmaiei quando tudo terminou.
        - Pobre Stela - ele murmurou penalizado.
        - Eles me levaram correndo para o hospital. Eu j estava com uma febre altssima e na manh seguinte decidiram que eu precisava ser operada. - Stella ficou 
em silncio.
        - E depois?
        - A cirurgia me deixou com uma chance mnima de engravidar - ela terminou arrasada. - Se eu tivesse procurado um mdico quando os sintomas comearam, tudo 
teria sido muito mais fcil. Mas do modo como aconteceu, provavelmente enterrei todas as chances de algum dia vir a ser me. Durante um longo tempo eu mesma quase 
no suportei continuar vivendo.
        - Acho isso tudo uma grande ironia... Logo voc que gosta tanto de criana.
        - O pior  que foi tudo culpa minha.
        - Voc disse que ainda tem uma possibilidade mnima de conceber, Stela, Ento...
        - Mas a chance  muito pequena. Houve um grande avano na microcirurgia, usada nesses casos, mas como nunca tive motivo para me interessar, no sei o que 
poderia ser feito.
        Ryan passou-lhe os dedos pelos cabelos, obrigando-a a encar-lo,
        - O que quer dizer com isso, Stela?
        - Mas voc no v, Ryan'? Mesmo que eu tivesse cinqenta por cento de chance, nunca faria uma coisa dessas com um homem. Como acha que ele iria se sentir 
em relao a mim se, por mais que tentssemos, nunca consegussemos ter um filho? Decidi h muito tempo que nunca me casaria.
        - Stella MacDonald, no estamos na Idade Mdia! Os maridos no se desfazem mais de suas mulheres s porque elas no tm filhos. Qualquer homem casado com 
voc com ou sem filhos ia sei o sujeito mais feliz do mundo. - Ela ficou observando enquanto um sorriso aparecia no rosto dele. - Ah, mas agora estou conseguindo 
entender...  Quer se casar comigo s porque j tenho um bando de crianas e acha que eu iria perdo-la pelo fato de no poder me dar mais alguns!
        - Eu ia entender se no me quisesse, Ryan.  Voc ainda  suficientemente moo para querer ter seus prprios filhos.
        As mos de Ryan a seguraram e pelos ombros e a sacudiram com fora. Stela arregalou os olhos, atnita.
        - Pare j com isso - ele ordenou severo. - No seja boba! Talvez um dia voc d  luz, talvez no, isso para mim pouco importa. Voc j  a melhor me que 
eu conheci, e essas crianas a dentro precisam do amor que tem para dar.
        - O que foi que disse? - Ela ainda se recuperava do susto que levara com a raiva de Ryan e no havia compreendido direito aquelas palavras.
        - Se voc  maluca o bastante para me entregar sua vida - a voz dele se suavizou - eu no sou louco o suficiente para recusar. - Baixou a cabea para beij-la, 
mas antes acrescentou:
        - Aceito a proposta, minha flor do Sul. Ficarei felicssimo em me casar com voc.
        No dia do casamento o sol brilhava com tamanho esplendor que todos os parentes e amigos reunidos para a ocasio foram unnimes em dizer que aquilo era uma 
bno de Deus ao jovem casal. De p, no meio do pequeno quarto da fazenda, onde vivera quase toda a vida, Stela desejava que eles estivessem certos.
        - Caroline, levante um pouco aquela ponta - pediu Margie, colocando alfinetes na barra de renda do tradicional vestido de noiva, todo branco. - Assim est 
bom. E voc priminha fique quieta, sendo vai ser impossvel endireitar isto aqui.
        - E o vestido simples que voc me prometeu? - Stela perguntou, levantando os olhos para e teto.
        - Ser que ningum ainda lhe disse que seu casamento no  nada "seu", querida? A tradio manda que seja exatamente como voc no queria...  sempre assim 
mesmo.
        Na manh seguinte aps a deciso. Stela e Ryan tinham contado para as crianas que se casariam.
        - U... e vocs no sabiam disso? - Foi o comentrio direto de Caroline. Os outros no deram a menor importncia ao fato, pois j consideravam Stela como 
membro da famlia h muito tempo.
        O entusiasmo s foi aparecer quando ficaram sabendo que iriam passar na fazenda dos pais de Stela para apresentar Ryan e tratar do casamento.
        - Quer dizer ento que vamos conhecer todos seu irmos? - tinham perguntado cheios de alegria.
        A visita no ocorreu exatamente como o planejado. Stela havia dito que pretendia voltar para Tallahassee e se casar s no civil, mas os pais fizeram uma 
cena e Ryan jogou mais lenha na fogueira ao dizer com uma expresso angelical.
        - Eu disse a ela que devia se casar junto  famlia, mas minha noiva prefere um casamento simples... 
        Depois da conversa com os pais, a organizao da festa seguiu sem a interferncia de Stela. Ela havia insistido apenas num detalhe, que o casamento fosse 
o mais rpido possvel, pois quanto mais depressa estivessem juntos, melhor seria a situao na hora de enfrentar o juiz. Sua me afirmou que organizaria tudo para 
dali a uma semana.
        - No  que eu seja ingrata - Stela dizia agora para Margie. - Adoro esta roupa e estou muito contente por usar seu vestido de noiva.
        -  Voc est linda. -  Margie deu um passo atrs e examinou a prima. - Agora tire com cuidado que eu acabo essa barra num instante.
        - O seu vestido, o vu de casamento de vov, as rosas do jardim de mame, os ramalhetes de flores silvestres das crianas...  Afinal, o que  que eu estou 
fazendo aqui?
        Margie bateu-lhe de leve no ombro e disse  menina ainda sentada no cho:
        - Caroline, v ver se a me de Stela precisa de ajuda. Esperou at que a garota sasse e trancou a porta. - Agora me diga, o que est acontecendo? Voc parece 
que vai a um funeral, no a seu casamento. O que foi?
        - De repente no consigo entender o que fao aqui! - Stela disse meio estonteada, tirando o vestido e o entregando a Margie. - Estava cuidando de um bando 
de crianas l em Highlands, na Caroline do Norte, e de repente estou aqui na Gergia me casando com o tio delas! Nem conheo direito Ryan Cunningham!
        - Bem, ento me diga, o que no sabe sobre ele? 0 Margie perguntou, obrigando a prima a se sentar e dando-lhe um papel dobrado para que se abanasse.
        - Pelo amor de Deus, Margie, s hoje conheci os pais dele, como  que posso estar me casando com Ryan?
        - Continue - Margie incentivou, cortando um pedao de linha com os dentes.
        - Margie, eu no sei em que escola ele estudou... como  que era quando criana, se foi escoteiro, quantos anos tinha quando beijou a primeira garota... 
No posso me casar com Ryan sem saber nada disso!
        - Querida, vai ter a vida toda para descobrir todos esses detalhes - Margie a tranqilizou, levantando os olhos da barra do vestido e sorrindo. - Eu tambm 
no sei se Ron foi escoteiro... preciso perguntar a ele.
        - Isso no vai dar certo!
        - Ah, meu Deus! O clebre ataque de nervos das noivas... tinha que acontecer! Quer que eu avise Ryan que o casamento est cancelado porque voc no sabe 
as notas que ele tirou no colgio?
        - Se eu comear a rir, vou ter um ataque histrico. - Stela avisou. - No me faa rir, tenha pena de mim!
        - Sinto muito. Aqui est voc, se casando com o homem mais fabuloso destes trs Estados, herdando quatro crianas adorveis e alm disso tornando-se uma 
mulher muito rica... Stela, como eu consigo ser to m? Juro que no consigo ter pena de voc. Desculpe, querida.
        - Rica? Voc ficou louca?
        - Ryan  milionrio, Stela. No vai me dizer que no sabia...
        - Est vendo? Eu no sei de nada! Tudo que sei  que ele adora dormir numa barraca velha, e na chuva... - Stela analisou as palavras da prima. - Mas voc 
tem razo, devo estar ficando maluca mesmo. Mas  que.
        - O qu?
        - Eu queria saber o que ele sente neste exato momento.
        Stella procurou apoio no brao do pai ao caminhar at o crculo de roseiras que eram o orgulho da me. Em primeiro lugar seguia Christy, com um ar solene 
no rosto, atirando ptalas de flores ao vento. Depois vinham Caroline e Heidi, e em seguida as quatro irms mais novas de Stela. No houve tempo para se confeccionar 
vestidos iguais, e cada uma usava sua melhor roupa, num desfile digno de princesas.
        O noivo, usando um terno escuro, j estava  espera l na frente, junto ao padre. Stella se assustou ao v-lo, assim vestido no parecia o mesmo homem. Mas 
o sorriso que ele lhe dirigiu fez com que se sentisse mais calma e sorrisse timidamente em resposta. O pai entregou-a a Ryan e a cerimnia se iniciou,
        Tudo transcorreu da forma mais perfeita, a no ser um pequeno incidente. Quando o padre perguntou se Ryan aceitava Anastcia Stela como legtima esposa houve 
um intervalo de silncio e ela, ao levantar os olhos, viu que ele lhe sorria enquanto movimentava os lbios numa pergunta muda: "Anastcia Stela"?
        Depois ela disse alto:
        - Sim!
        A aliana que Ryan lhe colocou no dedo era grossa e pesada. Stela se surpreendeu ao ver a expresso de felicidade que ele demonstrou quando ela tambm lhe 
introduziu uma aliana no dedo. Ao beijar a noiva, Ryan foi mais audacioso do que se podia esperar. Todos 
os convidados aplaudiram e a cerimnia terminou.
'Em seguida houve os cumprimentos. As crianas corriam pelo jardim enquanto os adultos se dirigiam para a casa para o almoo festivo.
        Um primo em segundo grau de Stela era guitarrista numa banda de rock e havia trazido lodo o conjunto para animar a festa. Os parentes mais velhos estranharam, 
mas no fim todo mundo entrou na dana.
        Depois de se divertir muito com a festa ela pediu licena para ir trocar de roupa. Ryan j tirava o palet e a gravata e tambm j havia enrolado as mangas 
da camisa branca. Quando Stela reapareceu num vestido branco de linho, simples e elegante, ele a convidou para danar, justamente quando a banda entoava uma balada 
antiga.
        - Ol - sussurrou baixinho enquanto a enlaava pela cintura. - Esta  a primeira vez na semana inteira que consigo chegar perto de voc. - E a apertou bem 
junto ao corpo.
        - A famlia deve ter te aprovado - ela respondeu sria. - Seno teria que esperar pelo primeiro aniversrio do casamento para me agarrar desse jeito.
        - Sua famlia  maravilhosa. Depois do interrogatrio que seu pai me fez atrs do celeiro, logo na primeira noite, todos tm se mostrado muito amigos.
        - Est brincando! - Stela ficou espantada e afastou a cabea para encar-lo. - Ele no fez uma coisa dessas! - Pensou por um instante e depois acrescentou: 
- , deve ter feito mesmo...
        - Voc precisava ter visto, precisei explicar, nos mnimos detalhes, tudo o que fizemos quando estivemos sozinhos, desde o primeiro dia em que te conheci.
        - No  possvel! - Stela arregalou os olhos, agora bem assustada. - Mas voc contou tudo mesmo?
        - Pensa que sou doido? - Ele riu. - Mas confirmei que voc continua casta e virtuosa e que eu me comportara como um perfeito cavalheiro.
        - E a?
        - Bem, a falou que qualquer homem que tivesse levado uma das belas filhas para duas semanas de frias e mesmo assim se comportado como um perfeito cavalheiro 
durante todo o tempo devia ser o prottipo do homem controlado. Depois me aceitou na famlia.
        - Ele no muda mesmo... - Stela no pde esconder o orgulho.
        O sogro a tirou para danar. Stela tinha ficado surpresa quando os pais de Ryan haviam largado tudo para comparecer ao casamento. Mas agora, apesar do pouco 
contato, achava que iam ser timos sogros.
        - Voc  uma ddiva para a famlia, minha filha - disse o senhor Cunningham num galanteio. Ele era bem mais velho do que Stela imaginara e sofria muito de 
artrite, de modo que danavam muito devagar.
        - Muito obrigada - ela respondeu com um sorriso. - Eu queria muito que compreendesse o motivo do nosso casamento ter sido assim to rpido. Sei que ainda 
esto de luto e gostaria de ter podido esperar.
        Ele apertou-lhe a mo, comovido.
        - Eu entendo, e pode me acreditar, tenho certeza de que Janele aprovaria. Seja feliz, Stela, que ns estamos felizes por vocs dois.
        Com a animao da festa, ela no havia comido nada e quando chegou a hora de cortarem o bolo, precisou se esforar para no lamber o glac dos dedos.
        - Por que este brilho nos olhos, minha flor do Sul? - Ryan perguntou.
        - Estou morta de fome, tenho vontade at de te comer - ela respondeu sem pensar.
        - Mais tarde, querida.., mais tarde...  ele retrucou rindo.
        Stella sentou-se numa almofada debaixo de um enorme carvalho enquanto Ryan foi buscar um prato de comida. Desde que acordara naquele dia, era a primeira 
vez que ela ficava sozinha. A ansiedade que vinha crescendo desde o dia em que falaram de casamento finalmente transbordou. O que Ryan na verdade esperava dela? 
O casamento ia ser real, sob todos os aspectos ou seria apenas um acordo entre dois scios?
        A nica coisa que haviam discutido sobre a noite do casamento tinha sido sobre onde  que iam ficar. Em considerao s crianas, que talvez se sentissem 
abandonadas se o casal partisse sozinho, resolveram passar aquela noite ali na fazenda. S no dia seguinte seguiriam todos para a Flrida.
        Os pais de Stela transferiram Caroline e Christy para um quartinho nos fundos da casa para darem liberdade ao novo casal. Ela ia dormir com Ryan no mesmo 
lugar que ocupara durante os primeiros dezenove anos de vida, e s a idia j a deixava apavorada.
        - Prontinho... - era Ryan que voltava com a comida. -  melhor se apressar, vi o pessoal se preparando com mais de um saco de arroz. Como a gente no vai 
a lugar nenhum, esto pretendendo jogar antes de eles mesmos irem embora.
        Cobertos de arroz, os noivos ficaram nu varanda acenando para os convidados que se despediam. Os pais de Ryan passariam a noite com um dos tios de Stela, 
que moravam perto, e no dia seguinte voltariam para a cidadezinha do sul da Flrida, onde residiam. Ela beijou os sogros, prometendo que assim que a famlia se instalasse 
na casa nova, iriam todos visit-los.
        E finalmente estavam sozinhos... em companhia dos nove filhos solteiros dos MacDonald, do pai, da me, de Caroline, de David, de Jonathan e de Christy. No 
havia outro jeito, e a noite se estendia  frente deles, sem a menor esperana de privacidade,
        Agora que o casamento fora oficializado, os irmos de Stela, principalmente os gmeos de quinze anos, James e Randy, no paravam com as indiretas. Ela tentou 
encarar aquilo na brincadeira, mas sentia crescer a tenso dentro de si, e na hora em que conseguiu pedir licena para se recolher, estava com os nervos  flor da 
pele.
        Sozinha no quarto, sentada num banco junto  janela, ficou admirando o jardim brilhando sob o luar. Tudo era conhecido, aquele era o seu lar. Mas a partir 
desse dia deixaria de ser Stela MacDonald.
        Como num transe, caminhou at o banheiro no fim do corredor e tomou um banho. Voltou ao quarto e vestiu a camisola branca que havia ganhado de Margie. Era 
uma camisola curta, de tecido macio e colante, com o corpinho de renda e um talho do lado que lhe deixava  mostra as pernas bem torneadas.
        - Que droga! - disse, engolindo em seco para a imagem refletida no espelho da penteadeira.
        - No concordo, acho que voc est linda! - Ryan se aproximou devagar.
        Stela, nervosa, precisou se conter pura no sair correndo. Virou-se para o espelho e comeou a soltar os grampos que seguravam as tranas enroladas  volta 
da cabea, que usara sob o vu de noiva.
        - Deixe que te ajudo com isso. Ryan, atrs dela, a acariciava com delicadeza. Stela, de olhos fechados, sentiu quando o ltimo grampo foi retirado e o cabelo 
caiu solto nos ombros. - Eles so lindos, querida, parecem uma teia de seda nas minhas mos. - Em seguida pegou a escova e comeou a pass-la nos fios brilhantes. 
- Pronto, agora olhe para mim... - Bem Anastcia Stela, como se sente no dia do seu casamento? - perguntou baixinho.
        - Voc nem sabia meu nome... - Stela mal conseguia falar.
        Era aquele o problema bsico entre os dois, pensou, notando a expresso de ternura no rosto do marido. Se somassem todo o tempo de conversa sria que haviam 
tido, no daria mais do que cinco minutos.
        - Est tudo bem, Anastcia Stela. - O sorriso, naquela boca sensual aumentava ainda mais a ansiedade de Stela. - Pretendo passar muito tempo aprendendo todas 
as coisas importantes sobre voc... a comear desta noite.
        Ela no tinha bem certeza do que Ryan quisera dizer, e era imperativo que soubesse.
        - Que tipo de coisas, Ryan?
        - O que tua pele sente - ele respondeu se aproximando mais. - O que estes olhos mostram quando esto cheios de prazer, como este sorriso muda depois que 
estiver satisfeita...
        Pronto! Ali estava a resposta a todas as indagaes, a verdade que a havia jogado num redemoinho de dvidas e incertezas, Ryan pretendia um casamento real, 
e, espantosamente, ela ficou to aliviada que quase desfaleceu. No era o medo que a deixava de pernas bambas, mas sim a expectativa. Aquele homem, o estranho to 
amado, a pessoa a quem se afeioara tanto, queria possu-la.
        As irms de Stela haviam juntado duas camas de solteiro. Ryan segurou-a pela mo e a levou at esse leito nupcial improvisado. Sentou-se ainda segurando 
a mo dela, enquanto com a outra desabotoava a camisa. No havia dvida, ele na certa lhe percebera a indeciso interior e procurava trat-la com gentileza e ternura.
        - Sabe de uma coisa, minha flor? Eu te desejei assim que nos encontramos. Lembra, na sala de Margie? Ser que tem idia de como foi difcil me manter longe 
de voc?
        Saber-se desejada por Ryan deixou-a tambm cheia de desejo. S que tambm lhe travou a lngua. Stela esperava que o resto do corpo cooperasse melhor com 
os planos dele para aquela noite...
        Ryan acabou de desabotoar a camisa e puxou a esposa para junto de si, prendendo-a entre as coxas rnusculosas. Stela descansou a cabea sobre a dele, com 
as mos explorando-lhe as costas. Quanto tempo ficaram assim, ela no saberia dizer, mas quando Ryan tirou a camisa ela sentia-se pronta para o calor daquele abrao.
        - Venha, sente-se no meu colo, querida...
        Devagar Ryan desatou uma das alas da camisola e ao ver que ela ficara sem graa, disse-lhe baixinho, ainda sem toc-la:
        - Est tudo bem, meu amorzinho, Eu te adoro.
        E comeou a beij-la, passando de leve a lngua pelos lbios de Stela, at que ela os abrisse.
        Depois ajeitou-a melhor no colo, desatando a outra ala enquanto Stela involuntariamente fechava os olhos.
        - Meu Deus! Como voc  linda...
        H anos Stela esperava por aquela confirmao. Ficara se sentindo apenas meio-mulher depois da doena que tivera e agora as palavras de Ryan demonstravam 
como estivera errada.
        - Ryan - sussurrou, abrindo os olhos. - Muito obrigada...
        Surpreso, ele apertou-a ainda mais, comprimindo os seios macios contra seu peito nu. A sensao foi incrvel.
        -  a mulher mais doce e feminina que j conheci - murmurou.
        Aquelas palavras foram como que um sinal. Com suavidade, ele a empurrou para a cama, ao mesmo tempo em que a despia. Stela no se sentia mais envergonhada, 
pelo contrrio, agora sabia que estava pronta para ser possuda. E foi naquele instante que um rudo vindo do quarto ao lado a assustou.
        Era uma risadinha. Ryan ficara de p para tirar o resto da roupa e Stela, com um gesto de timidez, tinha virado o rosto. Tentando ignorar o que ouvira, olhou 
para o marido e o viu ali, magnfico em toda sua masculinidade. De novo escutou o rudo seguido de outra risadinha.
        Sabia do que se tratava, j os havia escutado antes. Durante a adolescncia de Stela, os irmos e irms inventaram um complicado sistema de espionagem. As 
crianas haviam descoberto mtodos de impedir que algum tivesse segredo. E agora, sem sombra de dvida os gmeos estavam dentro do quarto deles escutando tudo o 
que se passava ao lado por meio de um copo de vidro encostado na parede de madeira.
        A descoberta de que tudo o que dissessem seria escutado na integra pelos dois irmos foi como um banho de gua gelada atirado sobre o desejo que Stela sentia. 
Quando as molas da cama gemeram sob o peso do casal, ela se encolheu, esperando por outra risadinha. E foi exatamente o que ouviu.
        Aborrecida consigo mesmo por permitir que a atitude dos irmos interferisse naquele momento to ntimo, tentou se esquecer do que acontecia. Uma porta bateu 
em algum lugar da casa e a voz da me de Stela ecoou l debaixo. Depois foi o barulho de ps descalos correndo pelo corredor.
        Por mais que tentasse, Stela no conseguia se desligar, e de repente teve a impresso  de que fazia amor com Ryan na frente de uma multido. E ela, que tinha 
sido sempre muito tmida, no suportou mais.
        - O que foi, Stela? Ryan perguntou, deitando-se ao lado dela e percebendo-lhe a expresso do rosto.
        No tinha como explicar. Os irmos estavam ouvindo, ela tinha receio de comear a chorar e se sentia profundamente envergonhada por sua reao aos rudos 
inoportunos por deixar que interferissem naquela hora to importante.
        Era inevitvel que Ryan no compreendesse. Ficou srio e disse com frieza.
        - Pelo jeito voc prefere ficar sozinha.
        Ela no respondeu sentindo as lgrimas escorrendo-lhe pelo rosto.
        - Tudo bem. - Ryan abaixou-se para pegar a camisola e a largou displicente sobre Stela. - Percebo agora que voc no esperava que isto acontecesse. Sei que 
se casou comigo por causa das crianas, s no percebi que esse era o nico motivo.
        - Passou os dedos pelo cabelo e Stela constatou que Ryan, sentado ali na cama, nu, era o homem mais belo que j havia visto na vida. As lgrimas continuavam 
a rolar por suas faces.
        - Ryan... -  disse baixinho, tentando de algum modo conseguir se explicar.
        - Stela,  melhor voc dormir - Ele se deitou na outra ponta da cama as mos sob a cabea. Hesitante, ela vestiu a camisola amassada. - Desculpe, mas eu 
no tinha entendido - continuou na escurido. - Pode ficar descansada, que isso nunca mais vai acontecer.

Captulo 8
        Levantar-se no dia seguinte e descer para o caf foi extremamente difcil para Stela. Ryan tinha se levantado muito cedo, tomado banho e trocado de roupa, 
enquanto ela fingia dormir. Quando por fim resolveu abrir os olhos, ele j sara do quarto. Levou mais de uma hora tomando coragem para enfrentar a famlia e o marido.
        Na cozinha, apenas o irmo Randy, Ryan e Christy ainda se alimentavam, e a garotinha assim que a viu, gritou com a boca cheia de bolacha:
        - Mame!
        Stela respirou fundo e entrou, dizendo meio atrapalhada:
        - Bom dia! Por que vocs esto aqui sozinhos?
        - Bom dia, Stela - Ryan respondeu com cordialidade. - Seu pai e sua me foram dar uma olhada no galinheiro e as crianas foram andar a cavalo.
        Ela o encarou com dificuldade, a expresso dele era educada, mas remota, como se visse uma estranha. Como por instinto, Stela achou o caminho para a geladeira, 
onde pegou leite e suco de laranja.
        - Voc quer mais alguma coisa, Ryan? - perguntou, a voz soando tambm formal e distante.
        - No, Stela. Obrigado. - Ele se levantou pura tirar Christy do cadero.
        - Bem, vou deixar os dois apaixonados sozinhos - disse Randy com uma risadinha. - Tenho certeza que agora... vocs vo querer conversar. - Foi saindo, deixando 
uma trilha de migalhas de po atrs de si.
        - Que gracinha, no  mesmo? - Stella disse zangada. - Ainda pego esse menino.
        Claro que Ryan estranhou a exploso..
        - Minha flor, ser que detesta todos os homens nesta linda manh, ou s os que por acaso so seus parentes?
        Aquela era uma boa ocasio para explicar a raiva e o comportamento na noite anterior. Engoliu em seco e comeou:
        - Ryan na noite passada Randy e James.
        - Bom dia. querida! Dormiu bem? A senhora MacDonald veio entrando e bateu na boca ao perceber o que dissera. - Desculpe, faz de conta que no perguntei nada.
        Stela olhou para a me. Eldora MacDonald ainda era uma mulher atraente, um pouco gordinha. O cabelo castanho possua mechas brancas e o rosto algumas rugas. 
Mas para a famlia e para outros que a conheciam, era como se o tempo no tivesse passado. Rindo, fez um carinho na filha enquanto ia para o fogo fazer mais caf.
        - Pode duvidar, minha filha, mas eu tambm j fui recm-casada.
        Stela ficou vermelha e evitou olhar para Ryan, mas ele a surpreendeu chegando por trs o dando um beijo leve em seu rosto.
        - Vou levar Christy para ver os cavalos enquanto voc toma caf - disse alto o bastante para que a senhora MacDonald escutasse. Mais baixinho, acrescentou: 
- No tem motivo para ficar assim vermelha, voc sabe que...
        Durante a manh toda, devido aos preparativos para voltarem  Flrida. Stela no teve oportunidade de conversar com Ryan. As crianas se queixavam muito 
por ter que deixar os novos tios e tias, alguns praticamente da mesma idade que elas. Stela viu David e Jonathan se despedindo de Randy e James, e reparou que depois 
de uma semana de convivncia os garotos j tinham adquirido alguns maneirismos dos irmos.
        Ela mandou os dois menores entrarem na caminhonete e chamou os irmos de lado, os olhos soltando chispas:
        - Vou avisar uma coisa - disse furiosa. Se algum dia vocs aprontarem outra como na noite passadas vo desejar no ter nascido.
        Os garotos ficaram sem jeito e, num instante de silncio no meio da algazarra da despedida, Stela viu que Ryan a observava, achando estranho seu comportamento.
        - Stela! - A me a chamava.
        - Um minuto, mame, estou s dando a eles um conselho fraternal. - Mas ao se virar para os gmeos olhou feio e acrescentou: - Vocs entenderam bem, no foi?
        - Sim, Stela - foi a resposta em unssono.
        - E mais uma coisa: se vocs se atreverem a ensinar truques sujos aos meus meninos, vou botar para fora tudo o que soube de errado sobre vocs at o dia 
de hoje!
        - Sim Stela - os dois repetiram.
        - Agora digam at logo.
        - At logo, Stela.
        Uma hora depois, na estrada, Stela percebeu que no ia ser possvel ter uma conversa sria com Ryan. As crianas cochilavam, como ela havia imaginado, s 
que em horrios desencontrados, e sempre existiam ouvidos atentos  conversa polida que mantinha com o marido.
        A viagem, que fora to divertida na ida, agora, ao contrrio, era absolutamente sem graa. As horas passadas na caminhonete pareciam interminveis. Depois 
de algum tempo, tanto Stela quanto Ryan pararam de falar, conscientes de que nada tinham de importante para conversar.
        J escurecera quando pararam em frente ao edifcio de Ryan.
        - Todos para fora - ele disse seco, enquanto Stela dobrava o encosto para pegar Christy no banco de trs e depois seguia para o apartamento aps as crianas.
        - J  tarde - disse Ryan. - Vocs precisam dormir. A gente arruma tudo amanh.
        Os gmeos foram indo para o quarto que dividiam com Ryan enquanto que Caroline puxava Christy para o outro aposento. A pergunta ficou pairando no ar, sem 
que Ryan se desse conta, at que Stela resolveu indagar:
        - Ryan, onde  que ns vamos dormir?
        O olhar no rosto dele foi chocante e Stela se encolheu.
        - Vou dormir com David e Jonathan e voc com as meninas. Nas atuais circunstncias,  a melhor opo, no acha? Talvez voc preferisse lev-las para o seu 
apartamento, mas por causa das aparncias acho que deva ficar aqui mesmo.
        Stela juntou a pouca coragem que ainda possua e gaguejou:
        - No era isso que eu tinha em mente. Pensei que...
        - Assim ser melhor. - A voz dele soou fria. - Agora, quer dar uma olhada nas meninas? Eu cuido dos garotos.
        Ficou claro que aquele no era o momento para conversarem sobre os problemas que os afligiam. Entristecida, Stela se virou, indo para o quarto.
        - Stela!
        Ela voltou-se ao som da voz de Ryan.
        - Sim?
        - Eu tambm j vou para a cama. No dormi bem a noite passada e estou cansado. - Por um instante encarou-a, mas o interesse morreu logo em seguida. Vejo 
voc amanh - concluiu, desaparecendo cm direo ao quarto.
        O ritmo das duas semanas seguintes foi definido na manh seguinte. Stela acordou com o rudo da senhora Watson entrando no apartamento e logo depois sentiu 
o aroma do caf sendo preparado. Vestiu o robe e ps a cabea para fora do quarto para cumprimentar a empregada.
        - Bom dia, senhora Cunningham - a mulher disse toda alegre.
        - Encontrei o senhor Cunningham no estacionamento e ele me contou sobre o casamento. Meus parabns!
        - Obrigada - Stela agradeceu com um sorriso triste. - Por acaso sabe aonde ele foi?
        Disse que ia trabalhar e que se a senhora precisasse, podia encontr-lo atravs da secretria.
        Stela e as crianas passaram o dia arrumando a bagagem e com a ajuda da senhora Watson as roupas foram lavadas e guardadas. Na hora do jantar, Ryan telefonou 
avisando que no chegaria a tempo e s apareceu pouco antes de irem para a cama. Passou ento algum tempo brincando com os sobrinhos. Depois de as crianas terem 
ido se deitar, ele se atirou no sof e comeou a ler o jornal.
        - Teve um dia difcil'? - indagou Stela, sentando-se ao lado dele, que pareceu vagamente aborrecido com a pergunta.
        - Muito, e voc?
        - Era uma resposta educada, mas ela no se convenceu de que Ryan realmente se interessava.
        - Estive ocupada. - respondeu. - Ns arrumamos tudo e fizemos uma limpeza geral.
        - timo. - Em seguida, Ryan voltou a ler o jornal. Stela aguardou at que ele tivesse lido toda a primeira pgina e depois tentou novamente.
        - Acha que vai estar assim to ocupado todos os dias?
        - Com toda certeza. - Ele nem se incomodou em baixar o jornal.
        - Sei. - E ela sabia mesmo. Ryan estava deixando bem clara a situao. "Por favor, baixe o jornal", ela implorou em silncio. "Me d uma chance de explicar 
como me sinto."
        Depois de ter lido o jornal inteirinho, ele o atirou sobre a mesinha e perguntou, irritado, com a presena dela ali ao lado:
        - Stela, por que ainda est aqui?
        - Ryan - ela comeou, fazendo uma ltima tentativa. - A gente precisa conversar. Quero explicar o que aconteceu ontem  noite.
        - No h nada para explicar, Stela. Deixou tudo bem claro... S no consigo entender por que no disse antes que no queria.
        - Mas Ryan, voc est enganado, eu...
        - Ah, estou ? - ele interrompeu,
        - No me atormente, Ryan, por favor. Estou querendo explicar e... e isso no  fcil.
        Ryan permaneceu em silncio, mas seus olhos estavam frios como gelo.
        - Na noite passada, eu no sabia... quer dizer, eu no esperava... - Ela calou-se sob o olhar dele. - Voc no havia dito nada sobre eu ser algo mais do 
que urna me para as crianas. Se eu tivesse sabido, eu.
        - Voc teria fugido Ryan completou seco, levantando-se e se espreguiando. -         Talvez fosse melhor para ns dois se voc tivesse feito isso.
        Ryan simplesmente virou-se e saiu da sala, antes que ela pudesse terminar a frase, antes que pudesse dizer que se soubesse que queria uma esposa verdadeira, 
teria insistido em comear o casamento em algum outro lugar. Qualquer outro lugar onde pudessem ficar completamente sozinhos. E a recusa dele em ouvir o que quase 
conseguira dizer, fez com que desistisse de tentar novamente. Levantou o queixo e enxugou as lgrimas que nem vira cair, Ryan Cunningham estava prestes a descobrir 
que no era a nica pessoa no apartamento com o privilgio da teimosia.
        A convivncia dali para frente foi apenas formal. Nenhum dos dois queria passar nem cinco minutos juntos e quando um entrava o outro saia. Era um casamento 
insuportvel.
        Uma noite, exatamente duas semanas aps o comeo daquela "guerra fria", Ryan pediu a Stela para ficar na sala depois das crianas terem ido se deitar, pois 
precisava falar com ela. O pedido comeou a derreter a barreira de gelo que ela erguera para se proteger da dor.
        Ryan havia trocado de roupa depois de chegar em casa, e agora, de camiseta e jeans, e descalo, era o homem mais sexy que ela havia visto. A tristeza das 
ltimas semanas comeava a desaparecer. O que era o orgulho, afinal? Ser que valia uma vida inteira de tristeza?
        Ainda temerosa, mas pronta para nova tentativa, Stela sentou-se no sola ao lado dele recebendo em troca a sombra de um sorriso. Foi como o sol surgindo aps 
uma tempestade. Stela respirou fundo.
        - Senti sua falta - disse.
        Obviamente surpreendido, ele demorou a certificar-se de que ela estava sendo sincera.
        - Isso  bom, Stela.
        - E voc, sentiu falta de mim?
        - Sim, senti muito sua falta. - Ryan respondeu, desta vez com um sorriso amplo. - Senti falta da minha flor do Sul. A vida tem sido um inferno. - Estendeu 
o brao e Stela se aconchegou perto dele.
        - Tem sido terrvel, Ryan. Descobri modos de evitar voc que nem sabia que existiam. Uma vez passei a tarde toda limpando um armrio s para ficar fora do 
seu caminho.
        - Stela, sinto muito. - Ryan apertou mais o brao  volta dela. - Tenho agido como um adolescente cuja namorada no quer saber de brincadeiras no banco de 
trs do carro do papai. Prometo que vou me comportar.
        - No era bem isso que ela desejava...
        - Eu gostaria de comear tudo de novo. - Stela fez nova tentativa. - Gostaria que a gente tivesse um casamento verdadeiro
        Ela no podia ver o rosto de Ryan, mas sentiu que ele se retesava e se afastou confusa.
        - Ser que essa idia  assim to m? - perguntou inibida.
        - No sei o que voc entende por casamento "verdadeiro" - Ryan respondeu depois de um breve silncio. - Mas no quero te forar a nada. Ambos sabemos que 
se casou comigo por causa das crianas e eu no tenho nenhum direito sobre voc.
        Aquilo era como viajar num trem a duzentos quilmetros por hora, no havia jeito de descer. As palavras certas, as palavras que o fariam parar, no queriam 
sair.
        - Mas se vamos viver juntos, pelo menos podemos ser amigos, Stela.
        - Ryan, quero algo mais deste relacionamento do que apenas algum com quem jogar cartas!
        Se Ryan compreendeu o sentido, no deu o menor sinal.
        - Eu estou lhe oferecendo um lar, urna famlia e minha companhia. Se pensar bem, isso  at muito - disse, recostando-se e passando a mo pelos cabelos de 
Stela de um modo irritantemente amistoso. - De qualquer modo, no foi por isso que eu lhe pedi que ficasse aqui. Queria lhe pedir um enorme favor.
        "Qualquer coisa", pensou ela. "Qualquer mesmo...", mas em voz alta disse apenas:
        - O qu?
        - Acontece que a casa vai ficar pronta na prxima semana...
        - Graas a Deus!
        - Andei pensando nos mveis, mas antes de iniciarmos as compras gostaria que as crianas escolhessem tudo o que quisessem da casa dos pais. Depois eu despacho 
para c. Gostaria que voc os acompanhasse e ajudasse na escolha.
        - Ser que podemos fazer isso antes da deciso sobre a custdia? - Stela sabia que a casa de Janele tinha permanecido fechada, os pertences intactos  espera 
da nomeao do tutor legal.
        - A tal tia Katherine cancelou a ao. Parece que o nosso casamento a amedrontou.
        Stela bateu palmas e Ryan sorriu satisfeito.
        - Graas a voc, minha flor, as crianas ficam definitiva mente comigo.
        - Conosco - Stela corrigiu. - Definitivamente conosco.
        Ryan insistiu para que Stela e as crianas viajassem de avio at Raton para escolher o mobilirio, mas ela teimou em ir dirigindo a caminhonete. Ele no 
gostou da idia e s permitiu que fossem de carro aps Stela lhe assegurar que desde criana guiava a velha picape do pai.
        Partiram no outro dia. Depois de estudar detalhadamente o mapa, Stela decidiu que iriam pernoitar em So Petersburg, perto de onde moravam os pais de Ryan. 
Chegaram  tarde. Registraram-se num hotel na beira da praia e tomaram um rpido banho de mar antes de procurar os avs das crianas. O casal ficou satisfeitssimo 
em v-los e ainda mais quando Stela pediu se podiam cuidar de Christy enquanto ela e os outros iam at Boca Raton.
        - Um de cada vez, a gente agenta. - confidenciou a senhora Cunningham, que tinha quase setenta anos. - J no somos to jovens para conseguir lidar com 
os quatro ao mesmo tempo.
        A viagem na manh seguinte, sem Christy, foi calma. A menina pareceu ficar satisfeita com os avs. As outras crianas viajaram em silncio, obviamente imaginando 
como seria chegar em casa.
        Ao escurecer j estavam em Boca Raton, e Stela, com os olhos cansados por dirigir durante dois dias, quase no reparou nas palmeiras, nas manses lindas 
e nos jardins exuberantes.
        Parou num posto de gasolina e perguntou como se chegava,  casa de Janele e depois, quando se encontravam mais perto, as prprias crianas lhe indicaram 
o caminho.
        A casa ficava num bairro sofisticado. O primeiro pensamento de Stela foi que na certa no fora projetada por Ryan. Era sem graa e ficava no fim de uma rua, 
uma mostra do pior que o dinheiro podia comprar. Uma mistura de estilos, uma confuso de colunas, janelas nos lugares errados, pedras, madeira e tijolos. A casa 
no tinha nenhum charme, mas demonstrava o gosto de algum que havia comprado os materiais que mais apreciava e os juntara a esmo.
        Dentro era a mesma coisa, cada pea do mobilirio havia sido escolhida apenas pelo gosto do comprador. Quase nada combinava, e quando isso acontecia Stela 
tinha a impresso de que fora por acidente. Mas amor e dedicao impregnavam tudo de forma quase tangvel, e ela ficou to comovida que quase no conseguia falar.
        - Aqui estamos - disse por fim, na falta de algo melhor.
        O local estava limpo e arejado. Stela sabia que os pais de Ryan tinham vindo depois do desastre e levado objetos de valor e pequenas lembranas que as crianas 
gostariam de guardar. Agora s restava a moblia.
        As crianas, silenciosas, tambm pareciam no ter nada a dizer. Stela limpou a garganta.
        - J  tarde, acho que a gente devia ir se deitar. Amanh cedo comeamos a escolher.
        - Eu no quero ficar aqui 0 Caroline falou quase chorando. - No quero ficar aqui!
        - Ser que se sentiria melhor se eu dormisse com voc? - Stela perguntou.
        Caroline assentiu. Os dois meninos mal podiam manter os olhos abertos e assim que se meteram na cama adormeceram.
        - Onde fica o seu quarto, Caroline?
        A menina foi caminhando acabrunhada pelo corredor at o quarto do fundo.
        - Aqui. - Apontou a porta sem coragem de abri-la.
        Stela passou-lhe o brao pelos ombros e entraram juntas.
        -  lindo. Foi voc quem escolheu os mveis, Caroline?
        A menina apenas concordou com a cabea. Stela deu uma volta pelo aposento, admirando a cama estilo antigo, com dossel de babados, e o guarda-roupas e camiseira 
combinando.
        - Aposto como voc vai querer levar tudo isto aqui para Tallahassee.
        - No.
        - E por que no?
        - Porque... - Carolina simplesmente sacudiu a cabea e Stela ficou admirada com a expresso de raiva no rosto da criana. Por um instante no sabia em que 
pensar.
        - Desculpe, querida, se te magoei. Sinto muito. No estou zangada com voc.
        - Ento me diga por que est to triste.
        - Foram eles! - Caroline explodiu. - Os tontos do meu pai e da minha me... E as lgrimas comearam.
        Todo o sentimento aprisionado e todas as lgrimas que no haviam corrido explodiam naquele momento, enquanto Stela a amparava, sentada com ela na cama antiga.
        - Eu odeio os dois! Foram embora, largaram a gente e nunca mais voltaro. Se amassem a gente, nunca teriam ido embora!
        - Chore, querida, pode chorar - murmurava Stela acariciando-lhe os cabelos.
        - A gente no deve odiar as pessoas mortas, mas eu odeio eles! - Caroline parecia incontrolvel.
        - Existe uma diferena entre ficar zangada e odiar - Stela explicou depois que as lgrimas comearam a diminuir. - Tenho a impresso de que voc odeia o 
que aconteceu, mas na verdade no odeia seus pais.
        Caroline recostou a cabea no ombro de Stela e suspirou. 
        - No gosto de odiar meus pais... eu gostava muito deles.
        - Mas  claro que gostava, minha querida. E eles tambm adoravam voc.
        - Mas foram embora! - a menina gemeu.
        - Me diga uma coisa - Stela perguntou depois de algum tempo, novamente consolando Caroline. - Quando voc ainda morava aqui, nunca passou a noite na casa 
de alguma amiga?
        A menina assentiu e Stela continuou: - E chegou a ir a um acampamento de frias?
        - No, mas mame prometeu que eu podia ir nestas frias.
        - O queixinho tremeu e Stela a abraou com mais carinho,
        - Voc continuava gostando dos seus pais mesmo quando dormia na casa das amigas?
        - Claro,
        - Mas ento, por que ia?
        - Porque eu gostava das minhas amigas. s vezes a gente fica cheia de ficar sempre em casa... - Stela deixou que aquelas palavras fizessem efeito e Caroline 
objetou  sua prpria lgica: - Mas eu sempre voltava para casa!
        Caroline, voc acha mesmo, do fundo do corao, que os dois no queriam mais voltar para casa?
        A garotinha recomeou a soluar desesperada e por fim murmurou:
        - Eles devem ter ficado to preocupados com a gente...  devem ter tido tanto medo...
        - Caroline. - Lgrimas escorriam tambm pelo rosto de Stela. - Eu vou contar para voc uma coisa porque j tem idade suficiente, e desconfio que ningum 
ainda se lembrou de lhe falar sobre o assunto. O desastre aconteceu  noite e tudo indica que seus pais nem perceberam o que acontecia, pois estavam dormindo. No 
chegaram a ter medo, minha querida. Encontravam-se juntos, abraadinhos, quando morreram. E felizes por voltar para casa, para junto de vocs.
        Depois de um longo tempo, com toda a raiva e tristeza postas para fora e as lgrimas esgotadas, as duas se deitaram lado a lado e Caroline pegou a mo de 
Stela.
        - Tia Stela - chamou baixinho. - Ser que os meus pais no iam se incomodar se soubessem que eu gosto demais de voc e do tio Ryan?
        - Caroline - Stela respondeu tambm num sussurro, apertando a mo da garota. - Seu pai e sua me vo ter sempre um lugar muito especial dentro do seu corao, 
mas tenho certeza de que iam ficar muito felizes em saber que voc tambm gosta demais de outras pessoas.
        - Acho que  isso mesmo - Caroline suspirou. - Mame sempre dizia que a gente deve dividir o amor... - As ltimas palavras quase se perderam quando a menina 
caiu no sono.
        Stella continuou acordada um longo tempo, escutando a respirao compassada da garota e pensando como era possvel uma pessoa guardar tanto amor dentro de 
si, como ela guardava por Ryan e seus sobrinhos. "Meu marido", pensou, e uma sensao de calor a envolveu. "Minhas crianas"... Sentiu que de algum lugar de um outro 
mundo, algum a abenoava.

Captulo 9
        Na manh seguinte as crianas acordaram bem tranqilas.
        - Tia Stela, olhe o que eu encontrei! - Caroline estava sentada no tapete azul da sala de visita examinando o contedo de uma escrivaninha antiga, de tampo 
de enrolar. - Foto grafias!
        Stela se aproximou, fazendo sinal para que os gmeos viessem tambm.
        Sua av me disse que tinha levado todas as fotos para colocar em lbuns para vocs guardarem.
        -  que ela no sabia destas aqui. Acho que devem ser cpias avulsas. Olhe esta...
        Stela pegou a foto e comentou:
        - Aposto como ela vai mandar fazer um quadro!
        Era uma foto da famlia feita por um profissional que havia conseguido captar o melhor de todos eles. Stela a examinou com cuidado. Os pais sorriam um para 
o outro, satisfeitos, demonstrando todo afeto que unia aquela famlia.
        - Eles no eram lindos? - Caroline perguntou cheia de tristeza. - Ser que podemos fazer um quadro e colocar na nossa casa nova?
        - Acho uma idia maravilhosa. Vamos ver se a gente encontra mais algumas. - Remexeram nas gavetas e encontraram diversas outras que dariam timos quadros. 
Uma era de Janele e Tom abraados e Stela comentou: - Em todas eles parecem to felizes juntos. Deviam se amar muito,
        - Estavam sempre se beijando - lembrou David. - No era como voc e o tio Ryan...
        "A verdade na boca das crianas..." - pensou Stela. Estava claro que elas reparavam na falta de afeto entre o casal. Procurando disfarar, retrucou:
        -  que a gente est casado h pouco tempo... vocs tm que dar um tempo.
        Por todos os lados onde ia, colocando etiquetas nas peas que as crianas queriam levar para a fazenda, Stela notava evidncias do tipo de casamento que 
ela desesperadamente desejava ter com Ryan. E o lugar onde isso mais se evidenciava era exatamente no quarto de Janele e Tom.
        O aposento era enorme, com uma cama de casal coberta por uma colcha de pele. Havia uma lareira, e no banheiro uma hidromassagem. Alm disso, nas paredes 
do quarto existiam pinturas lindas, verdadeiras obras de arte.
        Era um lugar para se fazer amor, para se dar e receber prazer, era um testemunho da alegria que o casal encontrara no casamento. " isso que est faltando 
na minha vida", Stela pensou, sentada na beirada da grande cama, passando de leve os dedos pela colcha de pele. Ela e Ryan haviam se casado pelo amor que sentiam 
pelas crianas. Era verdade que ela o amava, mas Ryan nunca mencionara a palavra amor. Desejo sim, mas no amor.
        A confuso e o desapontamento da noite de npcias no eram irrevogveis. Ryan podia fingir s quer-la como amiga, mas bastava uma olhada no espelho em frente 
 cama, para convencer Stela de que seus encantos no haviam diminudo desde a noite do casamento. Se Ryan a desejara antes, provavelmente ainda a desejava, pelo 
menos um pouquinho.
        Talvez ele estivesse se fazendo de difcil.
        "Mas se eu tambm der uma de teimosa, a coisa nunca vai se resolver", disse consigo mesma. J era tempo de tomar uma atitude positiva, pensou, dando um soco 
na coberta macia. Logo que pudesse ia enfrentar Ryan, isso j estava decidido, agora s faltava coragem. Levantou-se e seus olhos deram com uma aquarela na parede 
perto da porta. Mostrava um casal jovem, num abrao apaixonado e no fundo um redemoinho formado de nuvens. Queixo para cima, Stela prendeu uma etiqueta no quadro, 
para despach-lo para Tallahassee. "Por ns, Ryan", murmurou.

        A viagem ao Norte, de volta a Tallahassee, demorou um dia a mais que a vinda, pois as crianas, agora aliviadas das tenses, queriam parar a toda hora. Qualquer 
loja de artesanato, qualquer atrao de beira de estrada era uma desculpa para parar e esticar as pernas.
        Passaram para pegar Christy na casa dos avs tarde da noite do primeiro dia e, como estavam todos exaustos, resolveram ficar por mais um dia para conhecer 
a cidade e descansar.
        Stela mostrou  senhora Cunningham as fotografias que trouxera para mandar enquadrar e a velha senhora imediatamente pegou uma caixa cheia de fotos para 
que ela tambm escolhesse as que quisesse. Quando partiram na manh seguinte, Stela ia armada com fotos de Ryan beb, criana, adolescente e estudante de universidade. 
Mas a favorita era uma em que ele, com uns doze anos, trajava jeans enrolados at os joelhos, camisa xadrez e chapu de palha.
        O carro de Ryan no estava no estacionamento quando chegaram  tarde no apartamento. Havia ali um pequeno caminho de mudanas.
        - O que est acontecendo? - Stela perguntou da porta. A senhora Watson veio saindo da cozinha, enxugando as mos.
        - Oh, o senhor Cunningham no esperava vocs to cedo. Ele queria fazer uma surpresa.
        - Eu estou surpresa, mas no sei o motivo - disse Stela, espantando-se ao ver dois carregadores trazendo os mveis do quarto de Ryan.
        Um grito de alegria das crianas e a vinda dos carregadores em sua direo a obrigaram a dar um passo atrs, caindo direto em braos muito conhecidos.
        Bem-vinda ao lar - a voz querida de Ryan soou junto a seu ouvido.
        Stela se encostou nele, passando de leve os dedos pelos braos do marido.
        - Ol - falou baixinho. - Voc chegou bem a tempo de me dizer o que est acontecendo aqui.
        Se ele estava esperando uma conversa, ento ia se surpreender. A viso daquele rosto querido deu-lhe a coragem de pr o plano em ao. Ficou na ponta dos 
ps, segurou-lhe os ombros e beijou-o nos lbios. No pretendia que fosse um simples beijinho, era para valer. Talvez no merecesse nota dez, mas chegava quase a 
isso.
        - Por que "voc"  no me conta o que est acontecendo? - Ryan perguntou enquanto ela permanecia na frente dele, observando-lhe a reao. As mos de Ryan 
acariciavam-lhe a cintura exposta pela blusa amarrada.
        Ele parecia um homem prestes a fazer uma descoberta.
        - Eu s queria saber se voc tinha sentido a minha falta, Ryan. E tambm queria que soubesse que quase morri de saudades.
        - E...
        - Ainda quer mais? - perguntou na ponta dos ps para beij-lo outra vez.
        - Minha senhora, est sendo muito difcil fazer esta mudana com vocs dois a na passagem - reclamou um dos carregadores.
        -  isso ai, mas tambm no  todos os dias que a gente tem um espetculo desses - brincou o outro. - Deixe o simptico casal sossegado, Ralph.
        - Tudo bem, minha gente - disse Ryan. - A senhora e eu podemos muito bem tratar de negcios em outro lugar. - Puxou Stela pela mo, levando-a para baixo 
de uma rvore na calada. De relance ela viu que as crianas observavam fascinadas o trabalho dos carregadores. - Aonde  que estvamos mesmo?
        - Bem, vamos l. O que est acontecendo aqui, Ryan?
        - A casa da fazenda ficou pronta. Estamos nos mudando hoje.
        - Mas Ryan, a gente ainda nem tem moblia, s os poucos mveis aqui do apartamento. A mudana de Boca Raton s vai chegar dentro de trs semanas!
        - Eu sei, mas este pessoal s ia ter um dia livre daqui a duas semanas, e achei que voc ia preferir ficar na casa nova.
        - Mas eu ainda nem a conheo, Ryan.
        Aquela afirmao demonstrava como era estranho o relacionamento entre os dois. Estavam vivendo como marido e mulher h algum tempo e Ryan no tinha pensado 
em lev-la para conhecer a casa. E ela fora orgulhosa demais para pedir.
        Ele afastou uma mecha de cabelo do rosto de Stela e comentou:
        - Este casamento no tem sido muito gratificante para voc, no  mesmo, minha flor do Sul?
        Ela deu-lhe um sorriso tmido.
        - Foi a melhor deciso que eu tomei na vida. Nunca pense o contrrio, por favor.
        Ryan a abraou de novo, as mos por baixo da blusa acariciando-lhe as costas, e deu-lhe um delicado beijo na testa. Por fim murmurou:
        - A gente vai tentar mais uma vez, no , Stela?
        Ela abraou-o pela cintura, a cabea apoiada no peito do marido.
        - Oh, Ryan,  isso o que eu mais quero no mundo.
        Um brilho de esperana pairou sobre eles durante a tarde toda.
        Ryan j empacotara quase tudo com o auxlio da senhora Watson, e os Finlaw tinham ido para a casa nova receber a mudana e comear a ajeitar as coisas. Assim 
que a ltima pea de mobilirio foi acomodada no caminho, saram dali passando pelas ruas de Tallahassee e depois pegaram uma estrada que seguia para o Norte.
        - Me sinto como uma criana no dia de Natal - Stela transpirava alegria.
        - Voc vai gostar de l. Na verdade foi escolhida por Margie e Ron. Os dois me levaram para v-la junto com o corretor e em meia hora eu fechei o negcio.
        - E por que ela  assim to especial?
        -  muito espaosa e foi quase toda feita  mo. E melhor que isso, quase no foi tocada, reformada, e assim no precisei desmanchar muita coisa. S foi 
necessrio reparar os estragos feitos pelo tempo. - Ryan saiu do asfalto e pegou uma estrada de terra. Stela reconheceu a regio como prxima do stio de Margie 
e Ron.
        Quando ela j quase no suportava mais o suspense, entraram por um caminho de pedregulho depois de passar por uma porteira. Atravessaram uma rea plantada 
com nogueiras Pecan, agora mal cuidadas, mas com a promessa de uma boa colheita depois de algum trato. O caminho descia pelo meio de um bosque cheio de trepadeiras 
e mato rasteiro e mais adiante passaram por um pasto que tambm necessitava de um bom trato.
        No final da pequena viagem, Stela continuou sentada, olhando para a construo bem  frente. Era de estilo vitoriano, pintada de amarelo com detalhes em 
marrom. Uma varanda com um acabamento de belssimo rendilhado de madeira rodeava toda a casa. Mas o que prendia a ateno, o detalhe mais importante, era um torreo 
do lado da casa, como se a nova residncia houvesse sado de um conto de fadas.
        - Ryan,  magnfica! - gritou entusiasmada. - Que lugar fantstico!
        - Fico contente que voc tenha gostado. Ela  toda sua.
        O pessoal da mudana veio, descarregou e foi embora, e Stela ainda examinava minuciosamente toda a parte externa da casa e os arredores. Quando por fim resolveu 
entrar, j havia planejado o jardim.
        A casa fora restaurada com amor. O assoalho de madeira tinha sido lixado at a cor natural, reaparecer as paredes estavam com papel novo e toda a parte de 
madeira havia recebido um tratamento especial. Ryan apontava os detalhes da restaurao enquanto caminhavam pelo andar trreo.
        - Tive mesmo um grande trabalho para restaurar a cozinha, Stela. Voc adora coisas antigas e achei que ia gostar de ter um fogo  lenha e uma bomba manual 
na pia - ele provocou.
        Ao contrrio do que Ryan afirmava, a cozinha era dotada dos mais modernos eletrodomsticos, mas dispostos de uma tal maneira que no ficaram muito  vista, 
deixando os antigos guarda-comidas como foco de ateno.
        Havia um cmodo novo nos fundos da casa.
        - Isto antigamente era uma varanda fechada - ele explicou - mas estava desabando. Eu a demoli e constru este aposento.
        Ia ser a sala de jogos das crianas. Era arejada, com janelas para trs lados e uma lareira num dos cantos.
        - Esta sala se parece com aquela dos fundos do chal nas montanhas - Stella observou. - Toda vez que eu entrar aqui, vou me lembrar da vista maravilhosa 
que se tinha de l.
        Ryan passou o brao pelos ombros de Stela num gesto quase fraternal, mas assim mesmo ela estremeceu.
        - Stela, voc  to romntica... acho que nunca conheci algum to sentimental.
        - Voc no tem nem idia de como posso ser romntica. - ela afirmou, pressionando o corpo contra ele.
        Ryan afastou-se o suficiente para olh-la. Levantou as sobrancelhas com um ar ctico no rosto.
        - Todas essas indiretas, minha flor... Est querendo me dizer alguma coisa?
        - Vamos olhar l em ima - ela pediu tentando encar-lo.
        - Gostaria de conhecer os quartos.
        As crianas j se encontravam nos dormitrios quando ela seguiu Ryan pela escadaria de madeira.
         - Este  o de Christy. - Ele abriu a primeira porta do corredor.
        L dentro havia apenas o bero da menina, mas as paredes eram rosa-plido com acabamento em branco, e Stela ficou animada pensando em como decor-lo. Seguiram 
pelo corredor e Ryan indicou o seguinte.
        - Os meninos disseram que queriam ficar juntos, ento deixei este quarto para eles.  um dos maiores da casa.
        Stela gostou da diviso feita por estantes, que daria aos garotos um pouco de privacidade. Depois foi o de Caroline. Ficava na torre, perfeito para ela.
        - Seus mveis vo ficar lindos aqui - Stela disse  garota, sentada junto com Christy numa caminha provisria no meio do aposento redondo. - Parece o quarto 
de uma princesa.
        Do outro lado do corredor havia um quarto menor, e Ryan explicou que era para hspedes. S havia mais duas portas e Stela prendeu a respirao quando ele 
abriu a primeira.
        - Este  o meu - disse, o rosto sem expresso alguma.
        Stela escutou as palavras, sem acreditar que havia entendido bem. No quarto j estavam todos os mveis do antigo dormitrio de Ryan: a cama larga de mogno 
com a cmoda e o armrio combinando, e tambm uma grande prancha de desenho.
        - Est timo respondeu incerta.
        - Agora deixe-me mostrar o seu. - Stela levantou os olhos para ele, esperando. -  bem ao lado do banheiro, em frente ao de Christy.
        O resto do dia se passou como numa nvoa. Margie e Ron apareceram  tarde com os filhos, trazendo jantar para todos. Stela respondia quando algum falava 
com ela e sorria quando algum dizia uma coisa engraada, mas por fim, quando estava na varanda acenando para os amigos que iam embora, a nica coisa que se lembrava 
era de Ryan apontando para o seu quarto. Um quarto s dela, um espao s seu, um luxo que no desejava.
        - Hora de dormir - avisou s crianas, subindo com Christy no colo.
        Depois que a menorzinha dormiu, desceu e encontrou Ryan na sala, desempacotando uma caixa com livros.
        - As crianas esto querendo dar boa-noite, Ryan.
        - Tudo bem. Por favor, me espere, preciso falar com voc - ele avisou enquanto saia.
        No havia qualquer mvel na sala, pois Ryan deixara os antigos no apartamento. Stela sentou-se numa almofada, segurando os joelhos com as mos. O local ficaria 
lindo depois de decorado e mobiliado, mas naquela noite parecia to desanimado quanto ela,
        - J estava todo mundo dormindo - escutou Ryan dizendo ao se aproximar.
        Ficou olhando para ele que tambm a encarava da porta. "Estamos nos enfrentando como dois gladiadores antes da luta", pensou com tristeza. "Somos estranhos 
um ao outro e vai ser sempre assim." Afinal quebrou o silncio:
        - Sobre o que queria falar comigo, Ryan? De repente percebi que me sinto muito cansada.
        - Voc parece esgotada. Talvez fosse melhor deixar para depois.
        "Estou arrasada, mas no do modo como imagina" ela pensou. Mas alto, apenas disse sria:
        -V em frente, diga o que precisa dizer.
        Ele tambm pegou uma almofada e sentou-se ao seu lado. Preciso saber se cometi um erro.
        - O que foi?
        Quando lhe mostrei seu quarto voc pareceu surpresa e nem um pouco satisfeita. O que esperava?
        Stella estava cansada demais para sentir vergonha, esgotada demais para ser cautelosa. Fechou os olhos, recostou a cabea na parede e desabafou:
        - Esperava um casamento, mas em vez disso vejo que mais uma vez fui relegada  posio de uma simples governanta.
        - Se queria um casamento, Stela, ento descobriu um meio muito engraado de demonstrar ele explodiu zangado. - Parecia uma geleira quando tentei fazer amor 
com voc.
        - Ora, ora... ento o sempre to seguro senhor Cunningham ainda est aborrecido com aquilo. - Ela falava com muita raiva.
        - Mas que diabos! Claro que estou aborrecido, mas posso continuar vivendo. S que no espere vir dormir comigo! Stela, no ia conseguir dormir ao seu lado 
todas as noites sem querer te abraar e fazer amor com voc. Nunca me impus a uma mulher e no pretendo comear com voc s porque  minha esposa!
        - Voc  mais cego do que um morcego, Ryan Cunningham, se acha que ia precisar me forar!
        - Ento o que precisaria fazer?
        -  voc quem tem experincia. Como  que posso saber? Mas desconfio que um pouco de pacincia e sensibilidade ajudariam muito a resolver nosso problema. 
- Stela levantou-se e terminou: -  Bem, estou cansada. Boa-noite!
        J estava no meio da escadaria quando ele a alcanou.
        - Que histria  essa de boa-noite? No vai escapar desta vez, Stela. Vamos acabar com isso de uma vez por todas.
        - O que voc quer acabar. Ryan? Ns j dissemos mais do que devamos.
        - No me referia a conversas. - De re        pente ele a agarrou e a beijou com desespero. -Que diabos, Stela, eu desejo voc!  E se realmente voc  tambm 
me deseja, ento no h mais nenhum problema!
        Ela correspondia com paixo, tambm abraada a Ryan, boca na boca, mos se acariciando. Isso era o desejo cru, poderoso e ameaador, mas inconscientemente 
sabia que, quando chegasse a hora, ele seria delicado e paciente.
        - Minha flor do Sul. Vou carregar voc l para cima e fazer amor com voc no nosso quarto. Se tem qualquer dvida,  melhor me avisar agora, porque depois 
vai ser tarde demais.
        Ela estremecia sob as carcias muito intimas e com dificuldade conseguiu murmurar:
        - Voc no me d a chance de pensar... e estou achando timo.
        Com toda a facilidade, Ryan a carregou escada acima e empurrou a porta do quarto, levando-a para a cama. Com os braos  volta o pescoo dele, Stela p puxou 
para si, sentindo-lhe o peito musculoso contra os seios. Como se estivesse faminto, Ryan a acariciava com a boca, com a lngua, com as mos, despertando nela um 
desejo desesperador.
        - Gosta disso, minha flor? Isso mesmo, minha querida... Vai ser bom, eu prometo...
        ele comeou a se despir e Stela, abrindo os olhos por um instante, reparou na porta aberta.
        - Ryan, ns esquecemos de fechar a porta - disse estonteada. De repente, escutou um chorinho do outro lado do corredor.
        - O que foi? - ele perguntou aflito.
        - Ryan, voc no escutou? - Stela se concentrou em ouvir e no percebeu que ele ficava tenso. - Escutou? Acho que  Christy. - Desceu da cama, ajeitando 
a blusa. - Acho que est chorando.
        - Ela est bem. - A voz dele soava spera, fazendo com que Stela o encarasse surpresa. No esperava a raiva e a desconfiana que lia nos olhos dele.
        - E se alguma coisa estiver acontecendo? - implorou baixinho.
        -  uma casa estranha, e provavelmente ela est se sentindo s. Esquea, que Christy volta logo a dormir.
        - Ryan, no estou querendo largar de voc agora, precisa acreditar. S vou dar uma olhada rpida, e assim fico mais sossegada.
        - Como quiser, Stela. - Ele se afastou de um jeito brusco. - Mas quero que pare de brincar comigo desse jeito!
        - No estou brincando - ela afirmou, magoada com as maneiras dele.
        - Ora, minha flor, pare com tanto charme... No quer fazer amor comigo, e qualquer desculpa serve. Voc tenta, s porque imagina ser essa sua obrigao, 
e Stela MacDonald Cunningham nunca deixa de cumprir uma obrigao.
        Ela tentou abra-lo mas Ryan a impediu prendendo-a com fora pelos ombros.
        - Pode parar de se preocupar. Posso muito bem viver sem suas atenes! - concluiu, empurrando-a para o lado e saindo porta afora. Stela escutou o barulho 
do carro que se afastava.
        Pareceu uma eternidade at que conseguisse abotoar a blusa e chegar at o quarto de  Christy.
        - O que foi, meu amorzinho? - indagou, a voz saindo com dificuldade.
        A criana chorava e Stela, ao passar a mo em sua testa, verificou que ardia em febre.
        Uma hora mais tarde, a febre j controlada, a menina dormia tranqila. Christy havia precisado de Stela, aquilo no tinha sido uma simples desculpa. Deixar 
Ryan naquele instante fora muito difcil. Ele podia ter esperado, pensou com tristeza. Podia ter entendido.
        Agora, com a porta do quarto aberta para o caso da menina chamar. Stela podia escutar todos os rudos da casa vazia, mas o nico que no ouviu foi o do carro 
de Ryan. Quando a manh chegou, ele ainda no tinha voltado.

Captulo 10
        Christy acordou de uma noite agitada e ainda com um pouco de febre, Stela ligou para Margie a fim de descobrir o telefone do pediatra.
        - No sei como Ryan no se lembrou - Margie comentou rindo. - No primeiro ms em que cuidou delas sozinho ele chamava o coitado cada vez que uma das crianas 
dava um espirro.
        - Ryan saiu, e eu no consigo entrar em contato com ele
        - Stela explicou, sem entrar em detalhes.
        Havia ligado para o escritrio e a eficiente secretria tinha dito que ele pedira para no ser incomodado.
        Depois de urna hora e meia na sala de espera, o mdico atendeu Christy e informou que o problema era uma simples infeco de garganta, alm de alguns dentinhos 
rompendo. Ela estaria bem dentro de um ou dois dias.
        Ao chegarem em casa o carro de Ryan no se encontrava na garagem, mas um recado na geladeira avisava que ele partira numa repentina viagem de negcios. Havia 
um nmero para chamar em caso de emergncia, com emergncia grifado, e uma promessa de que ligaria todas as noites para falar com as crianas. A palavra crianas 
no estava grifada, mas era como se estivesse. Tambm deixou um talo de cheques e um aviso para que ela comprasse os mveis que desejasse.
        Stela atirou o talo junto com o bilhete numa gaveta do armrio da cozinha, jurando a si mesma que no compraria nem um simples mata-moscas para a casa nova 
sem o auxlio dele. "No vou viver desse jeito. No vou ser empregada, bab ou coisa assim. Quero ser a companheira, a confidente, a amante. E comprar os mveis 
ser uma das coisas que faremos juntos."
        Durante a longa noite, depois da sada de Ryan, acabara entendendo os motivos do marido. Ele ainda no sabia o que havia acontecido na noite de npcias, 
e havia encarado a preocupao de Stela com Christy apenas como mais uma desculpa. Cada cena de amor interrompida o afastava mais e tornava mais difcil e complicada 
a volta para junto dela.
        Stela ficou irritada por ele no entender que o desejo que ela expressava era real. Estava zangada por ele ter ido embora e muito magoada com a idia de 
que talvez tivesse ido buscar conforto nos braos de outra mulher. Mas mesmo assim o amava e o compreendia.
        Sabia que no teria muitas oportunidades mais para desfazer o terrvel equvoco e se houvesse mais cenas daquele tipo, o casamento dos dois ia se desfazer 
como fumaa. "Volte, Ryan", implorava em silncio. "Vamos acertar nossas diferenas antes que seja tarde demais."
        A maior parte da semana se passou antes que Stela tomasse coragem suficiente para ir conversar com Margie.
        Fiquei imaginando quanto tempo ia demorar at voc aparecer - a prima comentou. Estavam sentadas na mesa da cozinha, tomando caf, mas nada conseguia elevar 
o moral de Stela.
        - Como sabia?
        - Bem, um homem satisfeito no larga a esposa recm casada para ir numa longa viagem de negcios. Est na cara que alguma coisa aconteceu.
        Aos poucos Stela conseguiu contar a histria, atrapalhando-se com os detalhes mais ntimos, mas dando uma viso geral para Margie.
        Ao final j estava mais calma com as palavras de conforto de Margie, e assoou o nariz num leno de papel.
        - Olhe, concordo que vocs dois esto com um problema, mas agora trate de parar com essa autopiedade e comece a agir, a fazer alguma coisa.
        - Mas eu no sei o que fazer. Parece que o problema est fora das minhas mos.
        - J falou com Ryan depois que ele viajou?
        - Uma noite atendi o telefone para que falasse com as crianas e ele no foi nem um pouco educado comigo.
        - Puxa, o caso dele  srio mesmo.
        - Do que voc est falando?
        -  Paixonite! O coitado est desesperado
        - Hei, Margie. explique-se melhor. - Stela no havia compreendido - Ryan nunca deu a entender que me amava. Talvez isso at possa acontecer se a gente conseguir 
solucionar o problema, mas.
        - Ora, Stela, pare com isso! O sujeito est perdidamente apaixonado. Quando voc est por perto no escuta, nem ouve ningum, parece abobalhado... Est to 
cego de amor que no enxerga mais nada.
        - Cego de amor? Talvez de desejo, mas amor... no - Stela afirmou cheia de tristeza.
        - Escute, minha querida, acho que vou ter que contar a voc os fatos da vida... - Margie esticou a toalha de mesa que Stela amassava com os dedos. - Preste 
ateno! Ryan Cunningham podia ter qualquer mulher que quisesse, e de fato tinha mesmo. A mulherada vive se atirando em cima dele. Ex-amantes ameaam cometer suicdio 
e futuras amantes cometem loucuras, e ento aparece voc, uma garota que o trata simplesmente como um ser humano normal. No desaba aos seus ps e nem se oferece 
para ir para a cama com ele. Apenas olha para ele com olhos inocentes... O que voc queria? Ficou to louco que...
        - Voc  quem deve estar louca, Margie.
        - No. Agora escute bem. Voc  uma garota linda, Stela, mas h outras mais lindas. Voc  um amor, mas h outras ainda melhores. Voc no  do tipo de garota 
que Ryan gosta, no  sofisticada e  to inocente que...
        - Agradeo muito. - Stela a interrompeu magoada. - Precisava mesmo escutar todos esses elogios.
        - O fato , minha querida, que Ryan est cegamente apaixonado por voc, e no percebe que voc  uma mulher como qualquer outra, com qualidades e defeitos 
tambm, Ele a v atravs das lentes do amor. Acha que se no fosse assim, ficaria to perturbado pelo que aconteceu?
        - Eu no sei, no sei mesmo.
        - Mas eu sei. Ryan pode no saber, voc pode no saber, mas vocs dois so transparentes demais para o resto do mundo. Acorde e cresa, Stela. Est mais 
do que na hora!
        - Stela foi absorvendo aos poucos as palavras da prima.
        No seria maravilhoso se fosse mesmo verdade? Bem que eu gostaria de ter certeza.
        - E voc pode correr o risco?
        - No entendi. - Stela olhou, espantada para Margie.
        -  apenas o seguinte: se voc no avanar agora e provar a ele que o ama, talvez no tenha oportunidade.
        - Ele no me abandonaria... - Stela protestou com os olhos arregalados. - Sabe que as crianas precisam de mim.
        -  verdade, mas  agora a hora de estabelecer a intimidade com seu marido. Se perder essa chance, talvez nunca mais tenha outra. V em frente, voc vai 
conseguir.
        Quando o telefone tocou,  noite, Stela avisou as crianas que primeiro ela falaria com Ryan, e depois seria a vez delas.
        Atendeu com o corao acelerado:
        - Ol, Ryan. Sim, elas esto aqui, mas primeiro quero falar com voc. - Assustou-se com o silncio do outro lado da linha, mas assim mesmo continuou: - Gostaria 
muito de saber quando  que voc vai voltar para casa. - Afastou o fone do ouvido, esperando uma resposta furiosa, mas ele respondeu com educao.
        - No sei... talvez sexta-feira.
        - Est timo. Gostaria apenas de ter certeza. Tenho uma surpresa para voc. - As ltimas palavras foram quase inaudveis pois estava to nervosa que quase 
nem ela mesma escutou o que disse.
        O silncio foi to longo que ela quase pensou que o telefone estivesse com defeito, mas finalmente ele respondeu:
        - Tudo bem, estarei a na sexta.
        - Vou estar com o jantar esperando.
        - Agora gostaria de falar com as crianas - foi a resposta seca que escutou.
        A conversa tinha sido fria e distante, mas pelo menos Ryan ia voltar para casa e ela podia fazer planos. Por enquanto aquilo era suficiente.
        Na manh de sexta, as crianas arrumaram as mochilas para passar o fim de semana na casa de Margie. At Christy ficou animada, mas ao ver que Stela ia embora, 
comeou a chorar. Stela explicou-lhe com firmeza que precisava ficar na casa da tia Margie mas que no dia seguinte iria l para v-la,
        "Espero que valha a pena" - murmurou para si mesma ao te afastar, os soluos da menina ainda em seus ouvidos.
        Em vez de voltar para casa, dirigiu at a cidade e parou no estacionamento de um shopping-center.
        Demorou a escolher, mas por fim comprou o que precisava, indo depois ao salo de beleza onde costumava cortar o cabelo.
        Pelas fotos espalhadas pelo salo, via-se que a moda era mais para cabelos curtos e crespos, e Stela decidiu mudar a aparncia.
        Minutos depois, entretanto, j sentada na cadeira, e olhando a prpria imagem no espelho, mudou de idia e permitiu que a cabeleireira apenas lhe aparasse 
as pontas dos cabelos.
        "Como sou covarde" disse a si mesma ao entrar de novo no carro. - "Acho que no vou mudar nunca."
        Deu uma parada no supermercado para comprar alguns mantimentos e uma garrafa de champanhe. Ao chegar a sra, Watson saa.
        A casa estava impecvel, tudo brilhava. Stela colocou uma caixa de madeira no cho da sala para servir de mesinha. Depois apanhou algumas flores silvestres 
e as colocou num vaso sobre a mesa improvisada. Dentro de um balde antigo, em frente  lareira, colocou a garrafa de champanhe para gelar.
        Uma hora mais tarde um delicioso aroma de estrogonofe se espalhava pela cozinha e uma salada verde estava prontinha dentro da geladeira. Havia po fresco, 
e belos morangos para sobremesa.
        Stella subiu e enquanto enchia a banheira aproveitou para lixar as unhas. Gostaria de ficar imersa na gua durante muito tempo, mas j estava atrasada. Depois 
do banho, enrolou-se na toalha e foi para o quarto, onde abriu a caixa comprada na butique exclusiva e tirou um delicado baby-doll marrom-caf. Colocou-o por sobre 
a cabea e o tecido macio escorregou-lhe pelo corpo. Como j desconfiava, ele no escondia absolutamente nada, o decote era profundo, quase at o umbigo e a bata 
mal escondia o biquni da mesma cor.
        "Definitivamente esta no sou eu", pensou ao se olhar no espelho depois de ter aplicado uma leve pintura no rosto, e esse pensamento foi muito agradvel. 
Depois pegou uma linda fivela e prendeu o cabelo para um lado. Um par de pequenos brincos de ouro completou a toalete.
        Havia um pequeno robe combinando com o baby-doll, e Stela o vestiu antes de descer. Como o robe tambm no escondia nada, o efeito continuou o mesmo. "Bem", 
pensou, dando uma ltima olhada no espelho, "se com tudo isto Ryan no acordar, ento estamos mesmo com problemas".
        s seis e meia Stela comeou a ficai nervosa e, para se acalmar um pouco, montou o aparelho de som que tinham trazido do apartamento. Como no havia prateleiras, 
colocou as caixas enfileiradas ao lado da lareira. Deu uma olhada na coleo de discos de Ryan e escolheu Scheherazade de Rimsky-Kor sakov para antes do jantar, 
e Bolero de Ravel para depois.
        s sete e meia o estrogonofe estava pronto, e Stela se ocupou afofando as duas almofadas que serviriam como cadeiras e enxugando a gua que se formava por 
fora do balde de gelo. Morta de fome, beliscou um pouco das bolachinhas e pat que tinha preparado como aperitivo. Sentou-se nas almofadas e ligou o aparelho de 
som.
        s oito e meia a ansiedade era tanta que resolveu ligar para o nmero de emergncia de Ryan. O cdigo da rea era o mesmo de Tallahasse, ento Ryan no devia 
estar muito longe.
        O telefone tocou um longo tempo e quando ela j ia desligar, uma voz de mulher atendeu, com um sotaque da Nova Carolina.
        - Al - disse Stela, tentando esconder o choque que a voz lhe provocou. - Poderia, por favor, falar com Ryan Cunningham?
        - Oh, sinto muito, querida. - A voz no dava a impresso de nenhuma emoo. - O senhor Cunningham est muito ocupado no momento e no pode atender ao telefone. 
- Houve uns cochichos do outro lado e depois a voz continuou: - Pode me dar o nome que ele a chamar assim que puder. - Seguiu-se uma risadinha e Stela, agarrada 
ao fone, precisou fazer fora para no desligar. Uma centelha de orgulho apareceu no momento em que ia colocar o fone no gancho, e ela disse com calma:
        - Olhe, Myrna Lou, diga ao Ryan que a senhora Cunn... que Stela MacDonald ligou. E por favor, tambm diga a ele que estou satisfeita porque algum o deseja. 
Eu  que no quero mais nada com ele! - Bateu o fone depressa, tremendo de raiva e indignao.
        "No vou chorar", disse a si mesma, chutando com fora a parede recm-pintada." Devia estar celebrando, afinal tenho um belo jantar e bebida."
        Sentou-se de novo na almofada e abriu o champanhe. Encheu um copo at a borda, bebendo tudo de urna s vez.
        - A voc, Stella! - brindou com ironia.
        A bebida acertou-lhe o estmago vazio como urna chuva de meteoros, mas ela at achou bom, pois tinha algo mais em que pensar, alm da prpria tristeza. Se 
um copo a deixava assim, com dois se sentiria ainda melhor, e rapidamente esvaziou mais um.
        Levantou-se da almofada e foi para a cozinha, segurando a garrafa pelo gargalo escorregadio- O strogonoff j estava frio, enfiou na geladeira com panela 
e tudo. Depois pegou dois morangos, colocou dentro de um copo de refresco das crianas e o encheu com champanhe. Continuou bebendo e falando sozinha, brigando consigo 
mesma. Comeu mais dois morangos e um resto de conscincia a lembrou que ficara sem almoo naquele dia e ento engoliu mais um morango. Enchendo o copo com o que 
restava do champanhe, voltou  sala resmungando:
        - Ainda bem que no temos moblia, assim no tropeo em nada.
        Virou o resto do copo e deitou-se de bruos na almofada. Do aparelho de som comearam a sair os primeiros acordes do Bolero de Ravel e ela falou alto:
        - Por que ser que Ravel tinha que repetir sempre a mesma coisa? O coitado talvez no conseguisse pensar em algo mais criativo...
        Alguma coisa parecia familiar, e ela forou a cabea que rodava para descobrir. Acabou se lembrando: ela e Ravel eram muito parecidos, queriam algo de grandioso 
mas s conseguiam se repetir. Comeou a chorar, com pena do pobre Ravel, e com pena da pobre flor sulina, e seus olhos se fecharam, O aparelho de som desligou-se 
sozinho e ela afundou na inconscincia.
        - Stela, sua maluca, o que faz a quase nua dormindo no cho frio? - Mos fortes a sacudiram e ela tentava responder, mas as plpebras pareciam coladas. 
Conseguiu soltar um gemido, mas s aquilo fez sua cabea rodar.
        - Est doente? - As mos afastavam o cabelo da testa e verificavam a temperatura. Ela gemeu novamente.
        - No est com febre. Por acaso se machucou?
        - Pare de gritar - ela conseguiu dizer, levantando os braos para proteger os olhos da luz. - Ser que j amanheceu?
        - Voc consegue se sentar? - Ele continuava gritando e ela ps o dedo nos lbios,
        - Shhh, Stela est dormindo... v embora.
        - Voc est bbada! O que aconteceu?
        - Uma tima garrafa de champanhe.
        - Uma garrafa inteira?
        - E o que  que tem? - Com grande esforo conseguiu abrir um olho. - No precisa se preocupar, Ryan. Comprei com meu prprio dinheiro.
        - Meu Deus Stela, voc  alcolatra?
        O outro olho se abriu e ela piscou incrdula. A ironia da pergunta a pegou em cheio e ela comeou a rir. -  De jeito nenhum, meu problema  que no posso 
tomar soda, no suporto o gosto. Precisa ver o problema que isso causa nas festas... - e ela no conseguia mais parar de rir.
        - Isso no  engraado - Ryan falou absolutamente srio e o riso dela morreu no mesmo instante.
        - O engraado  voc, Ryan - ela conseguiu dizer por fim. - Chega um dia inteiro atrasado em casa, depois de aprontar sei l quantas farras, ainda tem coragem 
de me chamar a ateno?
        - Um dia atrasado? Voc est louca!
        Apertando os dentes, Stela conseguiu se sentar segurando a cabea com as mos. Juntou toda dignidade que conseguiu achar e perguntou:
         Que dia  hoje?
         Sexta-feira  noite. .Nove e meia, para ser exato.
        - Isso no  possvel! A no ser que voc tenha estado aqui bem perto.
        - Estive em Jacksonville todo esse tempo.
         Leva trs horas para vir de l. - Ela levantou a cabea dolorida e sentiu a sala rodopiar. - Liguei para o seu querido nmero de emergncia h uma hora 
e a Myrna Lou disse que voc estava l, mas no queria ser incomodado.
        - Voc est mesmo maluca. Ryan a encarava com frieza. - Myrna Lou vive na Carolina do Norte, no em Jacksonvilie. Seu miolo cheio de bebida deve ter feito 
alguma confuso. Eu sa de Jacksonville s quatro e meia, mas quis chegar de pressa, corri demais e o guarda me parou. Passei as ltimas duas horas pagando muitas 
e levando sermo.
        - Mas ela tinha um sotaque da Carolina do Norte e disse que voc no queria ser perturbado. - Lgrimas comearam a correr pelo rosto de Stela. Ela quis enxugar 
mas no acertou o lugar.
        A expresso de Ryan se suavizou um pouco.
        - O empreiteiro que trabalha para mim  casado com uma moa da Carolina do Norte que pesa uns cento e cinqenta quilos, e foi o nmero deles que eu dei a 
voc. Ela  mesmo uma tonta, eu avisei que vinha para c ver minha esposa e que no queria ser incomodado durante o fim de semana. Obviamente ela levou minha instruo 
ao p da letra.
        Uma coisa era certa, Ryan estava ali. O crebro entorpecido de Stela tentava funcionar. Se no relgio estivesse marcando nove e meia e se o carro dele estivesse 
parado na frente da casa, ento ele no mentia.
        - Deixe ver seu relgio - pediu. Ainda bem que era digital, seno ela no conseguiria decifrar as horas: 9,30 em nmeros vermelhos.
        Juntando todas as foras, conseguiu se levantar e caminhou cambaleante at a porta. O carro dele estava ali fora e Ryan logo atrs dela.
        - E ento? - perguntou ele.
        - Bem, uma coisa voc tem que admitir: quando tomo um porre  mesmo para valer... - Em seguida desmoronou nos braos dele.
        Ao acordar, sentiu um corpo bem junto ao seu e uma perna coberta de plos comprimindo-a contra os lenis. Desta vez foi um pouco mais fcil abrir os olhos, 
e ela continuou deitada, tentando se lembrar onde se encontrava.
        - Bom dia, flor do Sul.
        Stela sentia a boca muito seca e precisou engolir duas vezes at conseguir falar.
        - Espero que seja bom mesmo. Sabe onde est?
        Ela deu uma olhada cuidadosa  volta.
        - Sei.
        - Lembra-se do que aconteceu ontem  noite?
        - S at um pedao...  O corao batia forte em seu peito.
        Ryan se afastou dela e num movimento rpido virou-a de costas na cama. Num instante seu corpo gil cobria o dela.
        Assim como ela, estava nu. Stela se assustou tanto que empalideceu ao mesmo tempo em que a cabea comeou a latejam.
        Ryan percebeu que Stela se encolhia e riu, os lbios quase junto aos dela.
        - Ah, minha flor, voc tinha tudo muito bem planejado, no  mesmo? Fez com que eu viesse de Jacksonville s para me seduzir,
        Embora estivesse certo, ela imaginara outras circunstncias. Ainda assim era melhor do que se no tivesse acontecido nada. Continuou olhando para ele, espantada 
com o que Ryan dizia:
        - Bem, foi maravilhoso... simplesmente fabuloso! Foi a noite mais memorvel da minha vida!
        - Ento quer dizer... Stela viu de repente que seria uma terrvel ofensa demonstrar que no se lembrava de ter feito amor com ele e consertou depressa: - 
Quer dizer... foi assim to bom?
        - Bom? Querida, voc foi fora de srie!
        - Eu... eu estou contente.
        - E agora minha querida Stela, quero que me mostre tudo o que aprendeu na noite passada, bem do jeito como ns combinamos - os olhos dele estavam srios 
e em sua voz havia um toque de aspereza que ela no conseguiu entender.
        Stela continuou imvel, tentando desesperadamente se lembrar, mas o esforo foi em vo, no tinha nem idia do que fazer. Tentou ganhar tempo:
        - No consigo lembrar do que combinamos. Ser que no daria para voc me ajudar?
        Os lbios de Ryan desceram sobre os dela, beijando-a com ardor. Depois ele se afastou um pouco e perguntou:
        - Isto a ajuda a lembrar-se?
        - Um pouquinho.
        - Vamos tentar de novo. - Desta vez o beijo foi mais violento, cheio de desejo enquanto as mos dele a acariciavam. - Vamos, Stela... no precisa ter medo.
        Atrapalhada, ela continuou sem saber o que fazer. Quase pulou quando as mos de Ryan chegaram a um ponto mais sensvel. Ele parou ao v-la tensa.
        - Ora, Stela...  voc est agindo novamente como se fosse virgem.
        Lgrimas comearam a se juntar nos olhos dela.
        - Ryan, eu no me lembro de nada do que aconteceu. Por favor, me poupe...
        Sentiu por um instante o corpo dele se retesar. Depois Ryan rolou de lado e Stela se viu livre do peso que a perturbava.
        - Calma, minha flor - ele murmurou. - Tentei ferir voc do modo como fui ferido... s que no tem graa nenhuma.
        Continuaram deitados lado a lado, sem se tocar, Stela esperando que ele falasse.
        - Stela - Ryan disse titubeante. - No aconteceu nada ontem  noite. Carreguei voc e a coloquei na minha cama para o caso de precisar de alguma ajuda. Voc 
estava completamente apagada. Ns dois dormimos juntos e foi s isso.
        A novidade era ainda mais chocante do que a notcia de que tinham consumado o casamento sem que ela soubesse.
        - Ento por que me enganou? Por que quis me magoam tanto assim?
        Ryan sentou-se, e apesar das circunstncias, Stela se sentia atrada s pelas costas dele.
        - Ah, minha flor, eu estou cansado de fazer papel de bobo. Vim para casa ontem  noite esperando uma reconciliao. Droga, na verdade no h do que se reconciliar, 
no  mesmo? Bem, de qualquer modo encontro voc to cheia de "coragem" que nem consegue enxergar direito. Ser que precisa apelar tanto para fazer amor com seu 
marido, Stela? Acha mesmo que uma garrafa de champanhe tornaria nossa relao mais suportvel? - Ele se levantou e pegou os jeans cados no cho. - Apesar de tudo 
cheguei a ficar tentado a possuir voc no estado lastimvel em que se encontrava, mas o pouco de autocontrole que ainda me resta no permitiu. - Stela escutou o 
rudo do zper se fechando. - Se  para a gente continuar com esse casamento s de fachada, no admito mais tentativas como a da noite passada, est me entendendo?
        - Por que  que voc teima em entender tudo ao contrrio? - perguntou Stela com toda a calma. Estava sentada na cama, o lenol puxando para cobrir os seios 
e o cabelo solto at os ombros. Sacudiu a cabea com tristeza. - Estou achando, Ryan, que prefere acreditar que eu no necessito de voc do modo como uma mulher 
precisa de um homem. Talvez esse pensamento facilite sua volta  vida bomia de antes. Na verdade, se a gente no faz amor, voc nunca vai ficar preocupado em me 
magoar. - Escutou um resmungo sarcstico, mas resolveu continuar: - Olhe, tenho s mais uma coisa para dizer, e voc vai achar engraado. Lembre-se disso quando 
estiver no auge de alguma farra: cheguei a imaginar que o amava, que lhe pertencer seria a coisa mais maravilhosa que podia me acontecer. Agora acho que tenho muita 
sorte em me livrar de tantos desencontros.
E aparentando uma serenidade que no sentia, levantou-se da cama, gloriosamente nua, e caminhou para a porta.
        - D uma boa olhada, meu rapaz, pois vai ser a ltima da sua vida. - Saiu com tamanha fria que nem ela mesma acreditou que pudesse chegar a tanto.

Captulo 11
        Um galo cantava e no ar havia o aroma de trigo recm-cortado. Stela abriu os olhos vagarosamente, tomando conscincia de onde se encontrava e, como acontecia 
todas as manhs, os objetos entraram em foco aos poucos. A cama era familiar, assim como as paredes cor-de-rosa, ela estava de volta  Gergia.
        Virou-se e observou as duas meninas nas camas das suas irms. Caroline e Christy dormiam profundamente.
        "Quando elas comeavam a se acostumar com a casa nova, e eu as trago para c", pensou, com o mesmo remorso que a atingia sempre, desde que sara da casa 
de Tallahassee. Na verdade, as crianas quase no haviam estranhado, aceitando de bom grado a explicao de Stela de que a senhora MacDonald precisava de ajuda para 
fazer os doces e compotas que preparava todos os veres. Apenas reclamaram por no se despedirem do tio.
        Na manh em que discutira com o marido, Stela colocou as malas na caminhonete e foi buscar as crianas:
        - Fomos convidados para uma semana de frias. O tio Ryan precisou voltar ao trabalho e vai ficar por l no mnimo outra semana. Acho que vai ser muito bom 
passarmos um tempo na Gergia.
        Na verdade, Stela no tinha a menor idia dos planos de Ryan, ele havia sado logo depois da briga.
        Muito magoada, ela sara em seguida. No deixou nem um recado, simplesmente trancou a casa e fugiu. Dera uma passada na casa de Margie, que havia tentado 
por todas as maneiras evitar aquela situao, mas Stela no quis discutir. Pegou as crianas e a bagagem e partiu para a Gergia, parando no caminho apenas para 
telefonar para os pais avisando-os de que ia para l.
        Preferiu no contar  famlia os verdadeiros motivos de sua ida, mas tinha certeza de que a me desconfiava que estivesse tendo problemas com Ryan.
        As crianas haviam ficado  vontade logo de incio, e junto com os irmos de Stela aprenderam a ordenhar as vacas, a apanhar ovos e a arrancar mato da horta. 
James e Randy tambm ensinaram os meninos a se balanar numa corda dentro do alto celeiro.
        Stela se sentia mais do que agradecida, satisfeita por ter tempo de pensar na vida e de curar as feridas.
        "Uma semana", pensou, escutando o galo cantar mais uma vez. "Faz exatamente urna semana que parti." No podia esperar mais tempo, precisava levar as crianas 
de volta  Flrida, pois as aulas comeariam logo.
        Levantou-se e vestiu um jeans desbotado, uma velha camiseta e calou um par de tnis bem gasto. Como num estado letrgico, passou um pente pelos cabelos 
e desceu.
        - Qual a tarefa de hoje? - perguntou s irms, tentando mostrar uma felicidade que estava longe de sentir.
        - Adivinhe se for capaz - respondeu a mais velha.
        Perto da hora do jantar, ela e as irms j haviam preparado molho de tomate para durar at o prximo vero.
        - Vou tomar um banho, e dar uma volta - avisou  me.
        A senhora MacDonald acreditava que saltar uma refeio era pecado mortal, entretanto apenas disse:
        - Certo, querida. S que... acho melhor voc pr uma roupa melhorzinha depois do banho. Se estiver mais bonita, vai e sentir melhor.
        Stela assentiu, apesar de saber que nada a ajudaria, tal era a sua infelicidade. Ao sair do chuveiro vinha vestida com cala turquesa e um pulver da mesma 
cor. Para ela no fazia a menor diferena, mas talvez sua me se sentisse melhor. Saiu, atravessando a plantao de milho at um bosque existente na divisa da propriedade.
        Todas as crianas MacDonald possuam um lugar especial onde se esconder quando os problemas de se viver numa grande famlia ameaavam demais a individualidade 
de cada um. O lugar secreto e Stela era um conjunto de rvores no meio do bosque. Naquele local havia uma certa aura que sempre a encantara, acalmando-a quando precisava 
de silncio. As rvores, cinco delas, formavam um crculo e no centro tinha um amontoado de pedras que Stela levara para l durante a adolescncia.
        Tambm levara para l flores silvestres, que plantara com cuidado. Quase todas haviam morrido, mas algumas sobreviveram, criando razes. Olhando para as 
que resistiram, constatou a persistncia da natureza.
        Sentia-se ainda incapaz de descobrir um remdio para seu casamento, s que isso na certa no era mais importante. Nessa altura, Ryan j devia ter tomado 
alguma deciso.
        Stela sabia que Ryan no desconhecia o seu paradeiro mas mesmo assim no tentava entrar em contato. "Tanta raiva, tanta confuso , pensou, sentando-se numa 
pedra. "Agora estamos num caminho sem volta."
        Podia ter sido diferente, to diferente, mas houvera tantos desencontros, tanta informao errada, tanta falta de dilogo...
        - Como  que dois adultos normais podem se desentender tanto assim? - desabafou com as flores.
        - Essa  uma boa pergunta - uma voz grossa atrs dela respondeu. - Eu mesmo j me perguntei isso mais de mil vezes.
        Flores silvestres, mesmo plantadas num lugar to especial quanto aquele, no tm o dom da palavra. Stela virou-se e deu com Ryan encostado no tronco de um 
carvalho. Como sempre, a viso dele foi um choque para todos os seus sentidos. Parecia o mesmo, s que cortara o cabelo e, rodeando os olhos tristonhos, algumas 
rugas testemunhavam o estado de aflio.
        - E que resposta encontrou?
        - Que no podemos continuar a nos ferir. Que nenhum de ns dois merece conviver com essa mgoa.
        Toda vez que Stela imaginara o momento em que Ryan lhe pediria a anulao do casamento, pensara que existiria mgoa e muita raiva. S no tinha imaginado 
a preocupao e a angstia que agora via nos olhos dele. A expresso de Ryan tornava mais difcil as palavras que ela precisava lhe dizer.
        - No diga nada por enquanto. - Ryan afastou-se do carvalho e se aproximou, ajudando-a a levantar-se. - Meu carro est na estrada. A gente conversa depois, 
certo?
        Stela seguiu com ele pelo bosque. Estranhamente Ryan ainda lhe segurava a mo. O local, ao entardecer, o tapete de folhas por onde caminhavam, fazia com 
que tudo se tornasse mais suave. Stela percebeu que mesmo que houvesse a separao, Ryan seria gentil. E infelizmente era mais difcil tratar com um Ryan meigo do 
que com um Ryan furioso.
        Chegaram na estrada e entraram no carro. Em vez de irem para casa, ele seguiu em frente. Stela imaginou que fossem  cidade, para algum lugar onde pudessem 
beber e discutir os detalhes daquela situao. Fechou os olhos e recostou-se no banco confortvel, antes de perguntar:
        - Voc sabia onde me encontrar, portanto deve ter falado com minha me... Chegou a ver as crianas?
        - No, ainda estavam na piscina do vizinho.
        - Sentiram falta de voc. - Ela abriu os olhos e o contemplou.
        Ryan parecia mais atraente do que nunca. Ela teve uma vontade louca de acariciar aquelas rugas em volta dos olhos, de passar os dedos pelo contorno do rosto 
amado... Mas, em vez disso, fechou os olhos outra vez.
        - Tambm senti falta deles ouviu-o dizer.
        O resto foi silncio. Demoravam muito a chegar na cidade e ela resolveu voltar  realidade. Porm, no reconheceu o trecho da estrada. No se dirigiam a 
Gainesvilie.
        - Para onde voc vai, Ryan? - perguntou olhando pela janela.
        - Acho que depois do que houve, ser um pouco difcil para voc, minha flor do Sul, mas queria muito que confiasse em mim. Logo vai saber, por enquanto relaxe.
        E, estranhamente, foi isso que ela fez. Depois de uma semana de tenso, sentia-se muito cansada e acabou dormindo. Por uma ou duas vezes tentou acordar, 
mas aquele era um sono diferente. Parecia que o balano do carro, somado  exausto em que se encontrava, ajudava-a a cair num imenso torpor. S conseguiu voltar 
 conscincia quando o ar ficou mais fino e frio.
        J escurecera. No cu, as estrelas brilhavam e a lua, imensa, parecia sorrir enternecida com tantos desencontros. Stela havia confiado em Ryan, mas estranhava 
a escolha que ele fizera para uma ltima conversa. Por que nas montanhas?
        Lgrimas escorriam-lhe pelo rosto, lgrimas de amor, lgrimas de impotncia.
        - No chore, Stela. - Ryan quebrou o silncio. Foi uni pedido meigo.
        - Ryan, por qu?
        - Confie em mim s mais um pouquinho.
        Ela assentiu. Os traos dele, agora sob a luz difusa da noite, eram menos agressivos. "Eu o desejo tanto", ela pensou cheia de tristeza. "Sempre o desejarei. 
Ainda o amo do mesmo modo... Talvez at mais."
        Agora j sabia para onde se dirigiam. Atravessaram Highlands e pegaram a estrada para o chal. Entraram pelo caminho e logo pararam em frente a casa. Ryan 
desligou o motor e os dois ficaram sentados admirando o luar que iluminava o telhado ngreme.  distncia, os penhascos do monte Whiteside recortavam-se contra o 
horizonte.
        Por fim saram do carro. Ryan veio abrir a porta para ela. Foi uma atitude de cavalheiro pouco comum, pois sempre havia crianas, bagagens e pacotes para 
serem retirados primeiro. Depois ele a ajudou a sair, segurando-a pela cintura. Quando Stela ficou de p, imaginou que Ryan a soltaria, mas isso no aconteceu.
        - Sabia que a luz da lua muda o tom do seu cabelo? - Ele estendeu a mo e afastou uma longa mecha do rosto de Stela. - No sei dizer exatamente de que cor 
ele . Quando acho que descobri, muda outra vez.
        -  castanho. - Stela suspirou querendo sentir novamente a mo dele acarici-la. - S castanho.
        - No,  dourado no sol e ao luar fica cor de mel. Gosto de senti-lo em minhas mos. - Com suavidade Ryan puxou a cabea de Stela para encost-la ao peito. 
- Ser que pode imaginar o quanto desejei ver esses cabelos espalhados no travesseiro ao meu lado?
        Stela soluava, enquanto ele a abraava apertado. Ryan segurou-lhe o rosto e sorveu-lhe as lgrimas, uma por uma. Depois acrescentou:
        - Venha comigo at a varanda. Preciso falar com voc.
        Stela no queria ir, no tinha mais f na capacidade dos dois de conseguirem resolver os problemas com palavras e tambm no queria ouvir o que na certa 
Ryan iria lhe dizer. Mas, apesar da resistncia interna, acompanhou-o.
        Ryan acomodou-a no balano e depois se sentou junto a ela, com o brao sobre seus ombros. Tanta gentileza a amedrontava. Ele parecia querer uma separao 
amigvel, o que seria muito bom, pois se ele ficasse com a custdia das crianas, talvez lhe permitisse visit-las. A sensao de perda era to grande que Stela 
estremeceu.
        - Ser que voc me detesta tanto que estremece s porque eu me sentei juntinho a Voc? - ele perguntou tenso.
        Outro mal entendido. Isso no podia mais continuar! No importava o que houvesse entre os dois, no permitiria que partisse acreditando que no o desejava. 
Ryan que vivesse com a verdade depois que ela sumisse de sua vida...
        - Ryan Cunningham, voc  um tolo. Sempre entende mal tudo o que acontece entre a gente. Desde o comeo te desejei tanto que quase no conseguia me controlar 
direito. E agora te desejo ainda mais. - Afastou-se um pouco para observar-lhe o rosto. - Tenho certeza de que seria mais interessante se eu o deixasse pensando 
o contrrio, mas esta noite no me sinto uma herona. V em frente e termine com esta farsa, mas no tente me enganar. Use o motivo verdadeiro, diga que no me ama, 
nunca amou e nem nunca vai amar. Diga que  porque ambos descobrimos que um casamento por convenincia nunca daria certo!
        Stela podia enxergar o rosto dele ao luar, mas no lhe entendia a expresso.
        - Minha flor do Sul, acha mesmo que eu te trouxe at aqui apenas para terminar nosso casamento?
        Ela ficou olhando, enquanto Ryan lhe passava de leve o dedo pelo contorno do rosto.
        - Acho - afirmou meio incerta. - No foi por isso?
        - No, a no ser que seja isso que voc queira.
        - la ser terrvel para as crianas se a gente desmanchasse esse casamento. - Stela olhava para ele e ainda assim no entendia,
        - Ia ser terrvel mesmo - Ryan concordou.
        - E a tia delas iria pedir a custdia de novo.
        - Com toda a certeza, Stela.
        - Minha famlia adora vocs todos. Nunca iriam me perdoar. 
        - Nunca.
        - A idia de anulao vai assust-los,
        - Depois desta noite, minha flor, voc no vai mais poder pedir anulao...
        Stella ficou em silncio enquanto ele ria.
        - Voc ainda me quer, Ryan? - perguntou baixinho. - Mesmo depois de todas as vezes que no deu certo? - Interrompeu-se e se atirou nos braos dele. - Oh, 
Ryan... eu sinto tanto.
        - Minha querida. - Ele a acariciou. - Est tudo bem agora... no foi culpa sua. Margie me contou toda a histria. Sou eu quem sente muito.
        - E por qu? Por me desejar, e eu te rejeitar todas as vezes?
        - S duas - ele a corrigiu. - Na terceira voc estava muito disposta, s que inconsciente,
        Stela suspirou fundo, apertando mais o rosto contra o peito dele. Os botes da camisa a incomodavam, afastou-se um pouco, desabotoou-os, passou as mos pelo 
peito de Ryan e recostou-se de novo contra ele. Acariciou as costas do marido, tateando com amor cada msculo, enquanto dizia baixinho:
        - Se naquela ltima noite voc tivesse chegado s uma hora mais cedo, nossas vidas estariam muito diferentes agora.
        - Stela, voc sabe o que est fazendo comigo neste instante?
        - Claro que sei... - Ela roou os lbios pelo peito de Ryan, sentindo o desejo crescer ao ver que ele se excitava cada vez mais.
        - Pare com isso, minha flor. Temos que terminar a nossa conversa.
        - Acho que no  a conversa que precisamos terminar. No  nossa conversa que  sempre interrompida.
        - Margie me xingou muito por no saber te tratar com pacincia. Disse que eu era um grande imbecil e que no merecia ser o primeiro homem da tua vida. E 
para me arrasar de vez, me chamou de velho lascivo, que eu s pensava em sexo. Queria que ela te visse agora.
        - Margie  maluca, Stela encarou-o de frente. - Eu adoro meu velho lascivo. Por favor, no seja diferente!
        Ryan beijou-a com paixo e Stela correspondeu na mesma medida at que ele se afastou um pouco, murmurando:
        - Calma, meu amor, a gente tem a noite toda.
        Ela espantou-se com o modo carinhoso e com a palavra que ele usara.
        - Repita, por favor... - implorou baixinho. - Preciso escutar esta palavra de novo para tornar essa noite ainda mais perfeita.
        - Bem, ento oua: era uma vez um homem solitrio que ficou encantado ao entrar numa sala. L estava uma garota maravilhosa com um vestido de chita e uma 
grinalda de flores nos cabelos... Resumindo: fiquei completamente perdido de amor.
        - E eu tambm... - Stela suspirou emocionada, beijando o pescoo de Ryan e sorrindo de alegria ao v-lo gemer de emoo.
        - Mas o problema  que eu no tinha nada de bom a oferecer  tal garota - ele sussurrou. - Quem em s conscincia iria querer se casar com um sujeito com 
quatro crianas?
        - Eu. - Stella estava nas nuvens.
        -  verdade, e quando descobri, pensei que essa fosse a nica razo para me aceitar. S que sua atitude antes do nosso casamento me animou e achei que pudesse 
fazer amor com voc, e atravs da comunho dos nossos corpos demonstrar quanto eu te adorava. Sabe, querida, eu achava que s voc poderia vir a me amar.
        - Eu sempre te amei. - Mais uma vez os olhos de Stela se encheram de lgrimas.
        - S que eu no sabia. Se na nossa noite de npcias eu tivesse sido mais paciente...
        - Imagine, Ryan... Se eu pego aqueles dois...
        - Como? No estou te entendendo...
        Ela ficou em silncio, recordando o fiasco daquela noite. Por fim indagou:
        - Margie no te contou?
        - No.
        - James e Randy estavam nos espionando. Podiam escutar qualquer rudo, qualquer som, gemido, at mesmo as molas da cama. Eu no agentei, me senti como se 
estivesse numa vitrine!
        Stela se espantou com a reao de Ryan. Esperava dele um pouco de considerao, ao invs disso ele ria sem parar.
        - Ryan...
        - Sinto muito. - Ryan quase engasgou. - Sinto muito mesmo. - De repente, Stela tambm caiu na risada. - Pobre Anastcia Stela... meu pobre amorzinho... eu 
no tinha a menor idia.
        - A gente andou tomando muitas decises erradas, Ryan. Tentamos passar nossa primeira noite numa casa cheia de gente, depois tentamos de novo quando tnhamos 
urna criana doente em casa...
        - Eu me sinto terrivelmente culpado sobre isso - Ryan a interrompeu. - Achei que estivesse usando Christy como desculpa. Margie me contou que ela teve muita 
febre.
        - Eu no procurava desculpas, Ryan, e na noite em que voltou de Jacksonville eu queria te seduzir.
        - S que quando cheguei e te encontrei largada no cho, quase nua, fiquei apavorado. Pensei que estivesse doente, ou at pior, que algum a tivesse atacado. 
A casa estava toda aberta... Quase morri de medo. Nunca mais se arrisque desse jeito!
        Ela o beijou com paixo, mas notou que Ryan ainda hesitava.
        - Ryan?
        - Fale, meu amor.
        - Quero te pedir um favor - Stella falava num tom extremamente sensual.
        - O que voc quiser...
        - Mesmo que a terra trema ou um furaco passe por aqui hoje, por favor, no pare de fazer amor comigo.
        Ele no esperou mais. Vagarosamente tirou-lhe o pulver e o suti e bem devagarinho comeou a acarici-la. Stela gemia.
        - Oh, Ryan por favor no demore tanto... tenho muito medo que alguma coisa acontea.
        - Ah, mas alguma coisa vai acontecer, sim senhora - ele respondeu, a voz rouca de desejo. - Prometo a voc que acontecer uma coisa muito importante.
        - No agento mais esperar...
        Ento ele a levantou no colo, girou a maaneta e abriu a porta com um empurro. O chal estava s escuras, mas o luar clareava o suficiente para que encontrasse 
o caminho do mezanino.
        Ryan subiu a escada e com toda a delicadeza a colocou na cama. Em seguida deitou-se ao lado dela.
        O ato de amor foi lento e sensual, e quando por fim ele a possuiu, Stela chorou de satisfao e alegria, sabendo agora que estava mais plena de amor do que 
um dia imaginara ser possvel.
        Mais tarde, exaustos, mas ainda juntinhos, Stela passava a ponta dos cabelos sobre o peito dele, satisfeita por no t-los cortado e assim poder acarici-lo.
        - Este foi o melhor lugar para tudo o que aconteceu - murmurou. - Acho que foi uma idia maravilhosa a sua, t-lo alugado para nossa lua-de-mel.
        - T-lo comprado... foi uma idia maravilhosa eu t-lo comprado - Ryan a corrigiu.
        Stela sentou-se depressa, sem se incomodar com a prpria nudez.
        - No  possvel, meu amor.
        Ryan a puxou sobre o peito, os cabelos compridos se espalhando sobre os dois.
        -  seu, minha flor do Sul, s seu... como um presente de casamento. Vim ontem cedo para c, e assinei o contrato em seu nome. Adoro nossas crianas e adoro 
nossa casa na Flrida, mas este chal ser o nosso refgio. Quando os problemas do dia-a-dia ameaarem nos afogar viremos para c.
        - Voc me fez to feliz!
        - De diversas maneiras, no foi? - Ryan brincou, mos acariciando de leve aquele corpo adorado.
        - E pelo jeito vai me fazer feliz novamente - ela props  com um sorriso tmido. - Agora j no sou mais to inocente,  aprendi a identificar os sinais
        - Continue identificando meu amor, como eu continuarei fazendo com os seus. De hoje em diante no vai mais haver mal-entendidos entre ns.
        - Acho que a gente se entende perfeitamente, mas tambm acho que deveramos continuar praticando. O que me diz disso?
        Ele rolou, levando-a consigo at que Stela ficasse por baixo.
        - Acho que voc est indo muito bem. Agora  minha vez de ver se estamos nos comunicando perfeitamente.
        Stela se entregou por inteiro ao abrao de Ryan, sussurrando baixinho:
        - Eu te amo e haja o que houver, nunca se esquea disso.
        - Esquecer? - A voz dele era um misto de carinho e paixo. - Mas como poderia, meu bem, se teremos todos os dias das nossas vidas para celebrarmos este amor?
        - Todos os dias, Ryan?
        - Bem, para falar a verdade, com quatro crianas para cuidarmos, s vou mesmo lhe garantir as noites...
